Cultura

Uma África desconhecida

O fotógrafo Sérgio Guerra registra o cotidiano de um povo isolado, que resistiu à escravidão e ao colonialismo

Uma África desconhecida

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VAIDADE
Mulheres muhimbas, homens da mesma etnia (abaixo) e jovem
com adornos: cuidado com a aparência

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A história do povo herero tem muitas semelhanças com o filme “Avatar”. Os africanos hereros eram menos de 100 mil pessoas que, assim como na ficção, viviam em simbiose com a natureza e quase foram dizimados por estrangeiros interessados nas minas de cobre e diamantes de seus territórios, na África do Sudoeste, hoje Namíbia. Armados de forma primitiva, mas com muita coragem e determinação – exatamente como no cinema –, eles enfrentaram as potentes tropas alemãs do general Lothar Von Trotha, em 1904, e morreram aos montes. Foi um genocídio: sobraram apenas 15 mil habitantes. Mas o povo que nunca se curvou à escravidão, ao colonialismo e ao processo de civilização atravessou as décadas quase desconhecido em seu próprio continente. Hoje, eles formam uma população de 240 mil, divididos em subgrupos espalhados entre Angola, Namíbia e Botsuana. O que aconteceu com eles e como vivem atualmente são algumas das perguntas que o fotógrafo pernambucano Sérgio Guerra responde no livro “Hereros – Angola” (Maianga). Um dos mais interessantes aspectos da obra talvez seja o fato de mostrar esse grupo sem as marcas da destruição causada por muitas guerras. A essa abordagem óbvia, o fotógrafo preferiu a associação com a beleza e a própria reconstrução de Angola.

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Guerra passou 13 anos entre Angola e o Brasil no processo de conhecimento e convivência com os vários povos hereros. Seu livro é composto de imagens e depoimentos de mukubais, muhimbas, muhakaona, mudimbas e muchavícuas. A belíssima obra mostra como eles se esforçam, ainda, para preservar as tradições dos ancestrais que viveram há três mil anos e para resistir aos males que o contato com a civilização começa a fazer, como a bebida alcoólica. O hábito de tomar banho com água é, hoje, um dilema entre eles. Alguns já o adotaram, outros o rejeitam. Pelos costumes, a “sujidade”, como dizem, é retirada do corpo com preparos à base de manteiga e produtos naturais – quando necessário. “Eles são extremamente vaidosos”, diz Guerra. Homens e mulheres se enfeitam bastante, mas são elas (como sempre!) que batem recordes de sacrifícios para se manterem belas. “Chegam a carregar 20 quilos de adereços no corpo porque muitas pulseiras, tornozeleiras, cintos e cordões são de ferro com couro.” Os designs dos cabelos fariam sucesso em templos de modernidade como Londres, Tóquio ou Berlim.  Além dos cortes autorais, digamos assim, eles costumam emendar e grudar cabelos com óleo para atingir o penteado perfeito.

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Os hereros são polígamos e não costumam exigir exclusividade. Tudo depende da simpatia. Se o marido gostar do namorado da esposa, deixa que os dois se divirtam na cama à noite. Se não gostar, pode terminar em sangue o encontro com o amante dentro de seu lar. Mas os homens sabem que suas mulheres têm outros namorados. E elas admitem que seus parceiros tragam mais esposas para dentro de casa. De vez em quando, há cenas de ciúme, mas ninguém considera que o outro é sua propriedade particular. Da mesma forma, eles compartilham igualmente a comida e todos os bens. “A solidariedade é a marca mais forte deles”, frisa Guerra. A moeda é o boi. O carneiro também é importante, mas o “euro” deles é mesmo o boi. Por isso, o gado é tratado como prioridade. Os hereros, negros de nascença, pintam toda a pele – e a cor pode mudar, dependendo do subgrupo. Os muhimbas, por exemplo, untam o corpo de um tom avermelhado feito de manteiga com óxido de ferro. As fotos de Guerra não deixam dúvidas do quanto ficam bonitos assim.

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Fotos Sérgio Guerra