Artes Visuais

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Veterana da videoarte, Sonia Andrade incorpora indagações da poesia metafísica em nova videoinstalação

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SONIA ANDRADE – GET WITH CHILD A MANDRAKE ROOT/ Oi Futuro, RJ/ até 30/5

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POEMA VISUAL
Videoinstalação sugere a reconstrução metafórica de uma antiga
árvore dentro do espaço expositivo

Uma frase (des)orienta o visitante da exposição de Sonia Andrade. Impressa na parede da entrada da instalação, “Get With Child a Mandrake Root,” é o título da exposição e corresponde a um verso do poema “Song”, do poeta inglês John Donne (1572-1631). “Donne sempre pede ao leitor coisas impossíveis”, diz a artista. “Como emprenhar uma raiz de mandrágora?” Esta é a quinta exposição em que Sonia se refere aos versos do poema de Donne. Se a linguagem poética desse autor se presta mais a criar enigmas do que a elucidá-los, a videoinstalação de Sonia funciona também como escavação aos sentidos ocultos de plantas mágicas e de poemas antigos.

A raiz da mandrágora, como explica a crítica Marisa Flórido Cesar no texto de apresentação da exposição, é cultuada e temida em várias culturas pelos poderes alquímicos, afrodisíacos, narcóticos e analgésicos que lhe são atribuídos. Segundo uma lenda medieval, o momento de sua colheita era cercado por lamento tão terrível que poderia matar. Seguindo o viés metafórico e metafísico de Donne, Sonia representa a mitologia da mandrágora com a gravação em vídeo das raízes de uma antiga árvore chorona do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que se projetam para fora da terra. A árvore, que no parque se agiganta em direção ao céu, é apenas adivinhada no espaço da exposição. Nas paredes, 25 telas de vídeo dispostas em linha irregular desenham um mapa das raízes, como se também escrevessem um texto. A pequena dimensão das telas dá a esse texto videográfico a qualidade de um segredo. Em cada tela, surgem pequenos acontecimentos – uma formiga que passa, uma brisa leve sobre a folhagem da grama – que nos fazem apenas intuir o crescimento invisível das raízes. Em vez de berrar como a mandrágora, as imagens de Sonia sussurram a sutileza de seu movimento.

A exposição comporta-se como uma reconstrução poética do espaço do Jardim Botânico, que é também representado em dois travellings de um de seus muros. Um deles corresponde ao primeiro vídeo da artista, gravado em 1974 com uma câmera Portapak, primeiro equipamento de vídeo portátil já lançado. Um exemplar foi trazido para o Rio por Jom Tob Azulay, que colocou a câmera à disposição de artistas cariocas, fomentando assim as experiências pioneiras com videoarte no Brasil. A tela em frente exibe o mesmo muro, gravado em 2010, com uma câmera DVC PRO-HD de última geração. Os dois muros conduzem o visitante à imagem final da exposição: uma flor de lótus, posicionada como em um altar. Com essa imagem, Sonia parece responder ao enigma de Donne: o verso sugere, afinal, que a magia floresça e espalhe seus frutos.