Cultura

O diário de Vera Fischer

Em sua autobiografia, a atriz revela seu gosto pela literatura erótica aos 13 anos e conta como este fato influenciou suas futuras e tumultuadas relações amorosas

FOTOS: DIVULGAÇÃO

REBELDE Vera Fischer furtava dinheiro do pai para comprar livros

Vera Fischer, a deusa das novelas, do cinema e dos antigos concursos de miss lia Marquês de Sade aos 13 anos e não era qualquer título desse autor libertino do século XVIII que a satisfazia, mas o pesadíssimo livro 120 dias de Sodoma. A revelação está na autobiografia Vera, a pequena Moisi (Editora Globo, 200 págs., R$ 29), que a atriz de 56 anos prefere candidamente chamar de diário. Vejamos o que diz o seu querido caderno íntimo de notas: “O livro de Marquês de Sade excitou todos os meus sentimentos. Experimentei uma forte vontade sexual e toda a minha libido veio à tona.” Filha de imigrantes alemães e educada segundo as severas regras protestantes, ela entrou em rota de colisão com a família com a descoberta precoce da sexualidade. Num episódio traumático de sua adolescência, chegou a ser reprimida pelo pai, Emil Fischer, com um soco no rosto. Essas lembranças e outras estão nos 29 capítulos que mais parecem uma conversa descontraída com a atriz e são ilustradas com cerca de 130 fotos.

Moisi significa ratinho em alemão e é um apelido que Vera ganhou dos pais quando criança. De ratinho a pantera, foi uma transformação que não teve nada de conto de fadas. Desde cedo houve sérios enfrentamentos com o pai, segundo ela “um nazista convicto”. Aos 14 anos, Vera saiu com um namorado e, ao chegar em casa, Emil a recebeu com o tal soco no rosto, que fez sua peruca voar longe. Apesar dos fios de ouro de suas madeixas, Vera seguia a moda e usava perucas. “Eu subi para o quarto e escrevi no meu diário: ‘Vou matar meu pai.’ Não precisei fazêlo. A vida se encarregou disso. Ele morreu de câncer.”

Apesar dessas revelações, Vera, a pequena Moisi não foi escrito para quem deseja conhecer episódios escandalosos da vida da autora. Além da leitura de obras “pouco recomendáveis”, sua adolescência foi como a de uma garota normal do interior. Mas era no caminho da escola para casa que ela parava numa livraria e adquiria os títulos que destoavam da biblioteca de uma mocinha. Henry Miller e Cassandra Rios, por exemplo. Como ela os adquiria? Aqui uma revelação: com dinheiro que furtava do caixa do mercado de seu pai. Os pequenos desfalques nunca foram descobertos. E foi nessa mesma época, meados da década de 60, apaixonada pelos Beatles, que Vera deu o seu primeiro beijo. Mas a história não foi adiante – o menino já tinha uma namorada. Na verdade, a vida amorosa de Vera nunca foi um mar de rosas e desde cedo ela aprendeu a lidar com a solidão. Tanto é que no livro a atriz revela que sente falta de ouvir um “eu te amo”.

FAMÍLIA Com os pais em 1952; ao lado do marido Perry Salles e aos 14 anos, em Camboriú

O projeto literário de Vera não pára nesse “diário”: ela lançará no ano que vem dois livros. O primeiro começa com a conquista do título de miss aos 18 anos, em 1969, e percorre a sua carreira e os seus romances – incluindo o seu tumultuado casamento com Felipe Camargo. Um ponto ainda é mistério: ela fará menção ao suposto relacionamento que teria mantido com o banqueiro e ex-governador de Minas Gerais Magalhães Pinto? Ela teria de fato ganho dele um anel de brilhantes depois de receber o título de miss? Foi com Magalhães Pinto a sua iniciação amorosa? Se o segundo livro responder a essas indagações, será então o mais detalhado de sua biografia. Já a segunda obra do ano que vem não será biográfica. Trata-se da estréia de Vera Fischer na ficção, mas sem abrir mão de uma ou outra referência a sua própria vida. Como ela mesma diz, uma obra para se ler durante uma longa viagem.