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Entrevista

Fernanda Young

“Tentei me matar me autodestruindo”

“Tentei me matar me autodestruindo”

A escritora, que teve gêmeas e adotou duas crianças, conta como convive com a depressão desde a infância

Verônica Mambrini
Edição 07/04/2010 - nº 2108

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POLÊMICA
“Quando fico confusa, fico sensacional. Adoro o erro”

Por trás das mais de 20 tatuagens que cobrem o corpo de Fernanda Young e das posturas públicas às vezes agressivas, às vezes polêmicas, se esconde uma mulher tímida e uma mãe cuidadosa. No fim do ano passado, a mãe foi posta à prova: a filha adotiva de Fernanda, Catarina, de um ano e três meses, teve de ser operada subitamente de um cisto aracnoide, uma lesão numa membrana cerebral que causa acúmulo do fluido cérebro-espinhal.

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"O Brasil é enorme e fica meia dúzia de picuinhentos
rancorosos azucrinando. Os leitores não; são incríveis"

Fernanda é mãe também de John, de quem tem a guarda provisória enquanto corre o processo de adoção, e das gêmeas Cecília Madonna e Stella May, 9 anos. Os comentários ácidos da autora de “O Pau” e outros nove livros, cinco roteiros, duas peças de teatro e do roteiro da série televisiva “Os Normais” costumam aparecer no Twitter, ao qual ela aderiu porque havia um perfil falso seu. “Pareço mais virulenta porque o verbo é implacável”, diz ela, que completa 40 anos em 2010. “A maioria das pessoas é legal, são poucos os babacas. Atraio pessoas inteligentes.”

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"Na Europa tem mulheres lindas aos 40. No Brasil, as pessoas piram.
Fica todo mundo moreno e com luzes, com cabelo liso e longo"

ISTOÉ

É difícil ser escritora no Brasil?

Fernanda Young

Se eu sou uma autora de língua portuguesa, indiferentemente se você gosta ou não dos livros, execrar, depois de tantos anos e de tantas obras, é um exercício total de falta de autoestima. É assim que a gente perde o sentido de indagação e referências de língua. Se você viajar o Brasil inteiro para as palestras e leituras como as que eu faço, vai perceber que o Brasil é enorme e que fica meia dúzia de picuinhentos rancorosos azucrinando. Os leitores não; eles são incríveis. São pessoas que leram um livro meu aos 15 anos e agora têm 27, escrevem, se tornaram grandes leitores, muito inteligentes e livres.

ISTOÉ

E a crítica?

Fernanda Young

Há uma disposição a implicar a priori. Não tenho o physique du rôle para ser uma intelectual dentro do classicismo que as pessoas querem, pela maneira que eu surgi, assumindo minhas fragilidades e minha formação escolar esquisita. Assumir referências pop era muito recente na época, mas hoje as coisas estão mudando muito. Os novos jornalistas são mais jovens do que eu e têm referências de mundo que essas outras pessoas não tinham.

ISTOÉ

Você começou várias faculdades, mas não concluiu nenhuma. Por quê?

Fernanda Young

Achei chatíssimo. Fiz letras, jornalismo, rádio e televisão, e não consegui terminar. Parei de estudar aos 16 anos, voltei aos 22, e terminei o ensino médio no supletivo. Claro que não recomendo e que não é o ideal, e tomara que meus filhos não façam isso, mas os anos em que eu fiquei fora da escola foram os que eu mais estudei. Obviamente, falhas ocorrem. Mas isso é ótimo: quando fico confusa, fico sensacional. Adoro o erro – não sei por que as pessoas querem excluir os erros.

ISTOÉ

Seu último livro, “O Pau”, é sobre uma mulher que perde o controle. Como o tema reflete na sua vida?

Fernanda Young

Às vezes estou mais frágil. Vivo também através da raiva. Aí as pessoas perguntam por que eu continuo sendo assim. Não acordei um dia e decidi: “Hoje vou chamar a atenção.” Fugiu ao controle. É aleatório. Um dia estou azul, no outro estou rosa, tem dias que estou num estado total de melancolia. Dói. Já sofri muito, tive muita depressão, dói, dói desesperadamente. Dói de você pensar em se matar porque vai ser melhor. Isso é muito triste, pensar que se matar pode ser melhor. É um estado absoluto de dor. E não foram poucas as vezes que eu pensei nisso de forma concreta. E, se não executei, é porque achei que ia ser anti-higiênico, tamanha era minha timidez.

ISTOÉ

Você faz terapia para lidar com a depressão?

Fernanda Young

A vida inteira, desde os 13 anos. Quando perdi o meu bebê (em um aborto espontâneo, aos três meses de gestação), em 2007, resolvi parar. Foi abrupto. Minha analista não gostou nada dessa decisão, mas eu queria experimentar a dor e ver aonde que estava minha voz. Deu certo por um tempo, depois tive que voltar. Agora está bastante claro para nós duas que nesse instante não é mais necessário.

ISTOÉ

Você já tentou se matar?

Fernanda Young

De certa forma sim, mas me autodestruindo. Uma vez eu quis cortar o pulso, de um lado só. Eu era muito pequena, sofria de depressão na infância. Eu falava: “Por favor, quero morrer, quero morrer.” Vi um documentário sobre suicídio infantil, que é um assunto muito perigoso, e chorei copiosamente. Entendi tudo. É tão triste porque é uma doença psíquica, emocional, que é um fato concreto. Posso dizer que estou curada, mas preciso ficar atenta, fazer exames. Fiquei tão feliz quando fui diagnosticada com depressão. Antes eu achava que era espírito de porco.

ISTOÉ

Você já esteve melhor na sua vida do que hoje?

Fernanda Young

A cada dia em que eu estou mais distante da minha infância estou melhor. Não vivi nada concreto a ponto de dizer que essa situação tenha sido abusiva, de violência, mas minha natureza me providenciou uma infância muito melancólica. Adoro crescer, me tornar forte, saber que tenho meus filhos para cuidar. Olho para eles e vejo crianças felizes. Na idade das gêmeas, eu era um traste. Ao falar isso, parece que você tem uma deficiência qualquer de caráter se você não conseguiu ser feliz na infância. Ocorreu que eu tinha dislexia, asma, meus pais se separaram, e foi terrível. Não posso negar isso. Às vezes, posso estar fazendo uma grande sacanagem dizendo para minha família que fui infeliz. Meus pais não fizeram nada, foram pessoas afetivas, amorosas, não quero acusá-los de nada. Mas a obrigação de ser feliz é um abuso.

ISTOÉ

Como a maternidade impactou sua vida? A depressão pesou no processo?

Fernanda Young

As pessoas precisam passar por crises, por um processo depressivo para ter um upgrade. Minha última crise depressiva veio em parte desse contato com a maternidade, e não só o pós-parto. Acho estranho gente que não sente o conflito do pós-parto, é um raio que cai na sua cabeça. Vem uma consciência de perigos e morte muito grande. Período de culpa e medo. Drama hormonal devastador. Ser mãe trouxe uma necessidade de conectar vários valores, comprometimento com o carma de criar alguém. Na verdade, a maternidade é a coisa mais importante para mim. O resto pode doer aqui ou ali, mas a vida é bela através dos filhos. Tenho as gêmeas, que vão fazer 10 anos, a Catarina, 1 ano e três (quatro) meses e o John, 7 (8) meses. Fui mãe tardiamente, com 30 anos. Nunca foi um projeto, nem pensei que fosse acontecer. Talvez a Catarina, porque sempre soube que iria adotar.

ISTOÉ

Como veio a decisão da adoção?

Fernanda Young

Quando casei com o Alexandre, disse que queria adotar e que provavelmente nem gostaria de ter filhos biológicos. Mas decidi aproveitar meu período fértil para tentar e, depois de várias dificuldades para engravidar, as gêmeas foram um milagre. Achei que eu ainda tinha tempo no relógio biológico para experimentar a segunda gravidez. Fui uma grávida muito feliz. Quando perdi o bebê, em 2007, continuei o tratamento de gravidez junto com o pedido de inscrição no fórum, para adotar. Nunca foi excludente. E o John foi inesperado. Eu achava que teria outro filho, mas daqui a três anos. O John nasceu no dia 21 de julho de 2009, e eu o encontrei três dias depois. A Catarina eu vi nascer. De certa forma, foi mais mágico que o nascimento das gêmeas, porque eu estava ali, presente, consciente.

ISTOÉ

Como é sua rotina com as crianças?

Fernanda Young

É absolutamente devotada. Tenho o hábito de fazer todas as refeições com elas, que estudam perto de casa por isso. Estamos juntos, eu e Alexandre, quase o tempo todo em que elas vão dormir, nas refeições, fora quando estou gravando. É absolutamente normal e exaustivo. Tenho um estúdio perto de casa, e posso estar presente. O Alexandre é incrivelmente presente, desconheço outro pai no meu círculo que seja assim. Ele trabalha em casa e é muito caseiro. Não que eu não reclame e não termine o dia no bagaço, mas controlo minha tendência à melancolia não procrastinando. Com tanto filho, eu não deixo para resolver nada depois. É agora, senão não dá.

ISTOÉ

Houve muitas críticas ao seu ensaio nua. É uma questão de moralismo?

Fernanda Young

Com a internet, as pessoas têm acesso a um erotismo extremamente intenso e muitas vezes pervertido. Minha irmã disse que outro dia abriu um arquivo e tinha um homem transando com uma cobra. Isso é perversão. Não estou fazendo julgamento nenhum, mas não vivo esse mundo, não tenho interesse por ele. Mas pôr a bunda de fora, o púbis, inclusive peludo – também não entendi por que as pessoas ficaram indignadas com a quantidade de pelos que eu tenho –, me deu uma liberdade que nunca mais perderei. Foi incrível. Estou livre, livre mesmo.

ISTOÉ

Você respondeu a diversas críticas, muitas vezes de forma agressiva. Por quê?

Fernanda Young

Aconteceu uma coisa curiosa na época. Fiquei muito cansada no final desse processo todo, porque a Catarina teve um problema de saúde grave. Ela operou a cabeça seis dias depois do lançamento da revista. Ela teve cisto aracnoide, que foi descoberto por causa de uma intuição minha. Posso dizer que salvei a vida dela, e não me envaidece. Me cansou muito salvar a vida de alguém. Não era uma coisa que eu queria. Fico feliz que Deus tenha me dado o senso de, na semana mais doida da minha vida, não estar ausente de mim mesma. Percebi que ela estava letárgica. Os médicos me disseram que nem os pais mais cuidadosos conseguem enxergar o que enxerguei. Ela estava com uma bolha na cabeça, que ia estourar. Se não tratasse rápido, ela ia ficar com danos na área motora. Enquanto as pessoas estavam dando na minha cabeça, eu estava dentro de um hospital, acordada. É isso que me deixa indignada.

ISTOÉ

Como lida com o envelhecimento?

Fernanda Young

Minha estética não é vaidade pura e simples. É uma obrigação, é um recurso de sobrevivência. Boa parte dos trabalhos que eu consigo depende da minha estética. Quem eu me tornei necessita da minha beleza. Por que a Madonna milita? Porque ela precisa. Eu passei uma crise f… que durou uns dois meses, fiquei um caco. Cheguei à conclusão de que de fato tinha chegado à meia-idade. Estou indo em direção a um caminho que não tem retorno. As pessoas falam na crise dos 30. Ter 30 é incrível. O (escritor) João Ubaldo Ribeiro diz que a grande beleza da mulher é dos 35 aos 40. Você está mais poderosa, mais bonita. Amadurecer é muito bonito nesse instante. Na Europa tem mulheres lindas aos 40. No Brasil, as pessoas piram. Fica todo mundo moreno e com luzes, com cabelo liso e longo. O pessoal fica muito louco, é um pensamento de adolescer.



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