6 telas de Edward Hopper que poderiam retratar a atual quarentena

Crédito: Reprodução

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Edward Hopper foi um pintor americano (1882 —1967) e que influencia até hoje o mundo da arte e da cultura pop. Ficou conhecido por registrar de forma misteriosa a solidão da vida contemporânea. Com esse propósito, sua arte retratou cenas urbanas e rurais, refletindo sua opinião pessoal sobre os hábitos dos americanos da época.

Foi influenciado pela pintura realista, por causa do trabalho como ilustrador em uma agência de publicidade. Fez três viagens de aprimoramento para a Europa, mas suas pinceladas e a profundidade de seus quadros foram muito além do registro quase que fotográfico. Ganharam vida quando receberam uma paleta de cores com tonalidade mais clara.

Seu quadro House by the Railroad” foi a primeira aquisição do MoMA. Foi um dos marcos do modernismo, captando espaços urbanos em contraste com a individualidade dos seus personagens, passando para nós, observadores, uma sensação melodramática. Para quem gosta de cinema, vale a dica: esse quadro inspirou a casa do Hotel Bates, destaque no filme Psicose de Alfred Hitchcock.

Esses dias de inverno lembram bem o seu estilo, com cenas solitárias como as que temos agora por causa do COVID-19. Selecionei cinco obras para viajarmos juntos pela trajetória desse grande artista, agora em um momento no qual nos preparamos para sairmos (bem) do período de quarentena:

 

Isolamento – “Morning Sun (1952)

(Estar em casa é um risco baixíssimo)

Nessa obra, a mulher acaba de despertar. Está sentada sozinha na cama e uma luminosidade entra pela janela com toda a intensidade. Sua camisola é rosa e deixa à mostra suas coxas nuas. Ela está praticamente paralisada, vagando nos seus pensamentos. Parece ser prisioneira do quarto, com o olhar para a luz, em uma mistura dos mundos interior e exterior, de calma e ansiedade. A modelo de seus quadros era sua esposa, Josephine Nivision, antiga colega de classe na NY Academy. Ela foi a musa de praticamente todas as figuras femininas de suas obras.

 

 

Home Office – Office in a Small City” (1953)

(Trabalhar a partir de casa é um risco baixo)

A obra de Hopper sofreu forte influência dos estudos de Sigmund Freud e de Henri Bergson, que dizia que o verdadeiro conhecimento pode ser desenvolvido a partir da experiência interior, e não de conceitos abstratos. A posição dos personagens, o olhar, as cores, a iluminação e o enquadramento sempre transmitem um silêncio profundo aos espectadores de seus quadros, causando a sensação psicológica de vazio como se estivessem dentro da tela, participando da cena. Essa obra, retrata a solidão e a beleza de uma forma dura, mas, ao mesmo tempo, agradável por conta da luz, do azul do céu e da vista.

 

Vida nas residências – “Room in New York” (1932)

(Estar de quarentena é risco baixo, mas a falta de comunicação pode dar divórcio)

As caminhadas de Hopper inspiraram essa obra. Dizia que a cena registrada nesse quadro era a que via pelas janelas de diversas casas e prédios. O quadro mostra o casal de costas, claramente apartado por seus mundos interiores, já que cada um dedica atenção apenas para suas próprias atividades. O homem aparece lendo um jornal e a mulher está sentada à frente do piano, demonstrando a falta de interesse. A obra mostra como Hopper é contemporâneo e brilhante ao retratar cenas de casais que demonstram não ter afinidades e nada para dizer um ao outro. Note que na época não existia Smartphone. Remetendo aos dias atuais, surge a pergunta: por que gastamos tanto tempo com discussões menores, quando deveríamos interagir mais, falando de gostos comuns e compatibilidades?

Posto de Gasolina – Gas (1940)

(Abastecer o carro é risco baixo)

Hopper buscava em sua obra uma compreensão subjetiva do homem e de seus problemas. Em todas as cenas que retratou, sempre trouxe um componente de solidão, com cenas desertas, melancólicas e iluminadas muitas vezes por uma luz estranha. O vazio dos quadros desperta a atenção do público para suas pinceladas e para os sentimentos que transmitem. Objetos assumem papel inquietante e muitas cenas são dominadas por um silêncio perturbador, como a do posto de gasolina, por exemplo, perdido no meio de uma estrada rural vazia. Notem os contrastes entre as luzes, a real (dia) e a melancólica do posto.

Lanchonete – Nighthawks (1942)

(Comer em um restante é risco moderado, mas escolha um local que privilegie a higiene e saia de casa de forma planejada e segura)

Nighthawks” é a obra mais famosa de Edward Hopper. Em uma tradução literal, seu nome seria “Aves da Noite” ou “Gaviões da Noite”. Começou a ser produzida logo após os japoneses atacarem Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Obviamente, existia um sentimento generalizado de uma imensa tristeza nos Estados Unidos. No quadro, a rua está absolutamente vazia e todos os personagens estão amargurados, expressando profunda tristeza. Não há comunicação e nem demonstração de esperança. Até o garçom busca algo com seu olhar algo, fugindo também da realidade triste daquele momento. O bar de esquina dá a sensação de encruzilhada e de falta de alternativas por não ter porta externa. A obra é um retrato impressionante da vida urbana da época e dos tempos atuais, ainda mais em tempo de coronavírus. Tem dimensões estranhas (0,84 cm x 1,52cm) e faz parte do acervo Art Institute of Chicago. Vale a pena ver outra obra de Hopper, chamada Automat (1927), que registra uma mulher sozinha em uma cafeteria, olhando para a sua xícara de café, em uma cena noturna que mistura melancolia com cansaço.

Para nossa sorte, em 1968, a esposa Josephine Nivision doou centenas de obras de Edward Hopper ao Whitney Museum of American Art (Nova York). Com isso, a coleção do artista não ficou sozinha e se juntou a um acervo sensacional, com quase 20 mil obras.

Vamos mergulhar juntos no mundo da arte? Escreva para sugerir um tema ou para contar algo sobre seu artista preferido. Adoro boas histórias! (Instagram Keka Consiglio).

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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