Brasil

Juiz ouve mãe de Isabella Nardoni

Ana Carolina Oliveira é a primeira testemunha de acusação a falar

Juiz ouve mãe de Isabella Nardoni

O editor-executivo Antonio Carlos Prado diz como foi o depoimento da mãe de Isabella

 

 

Ouça o relato do editor-executivo Antonio Carlos Prado, que está no Fórum de Santana (22/03/2010, 17h30)

 

 

nardoni022site.jpg

Caso Nardoni: Antonio Carlos Prado, editor-executivo da revista IstoÉ, faz uma análise dos quase 2 anos de investigações sobre o casal
 

nardoni011site.jpg

Cartas trocadas na prisão: um mergulho na cabeça e no cotidiano do casal Nardoni através da correspondência trocada por Anna Carolina e Alexandre. Confira a reportagem em vídeo

Alexandre é um homem violento que não se importava com a educação da filha Isabella. Anna Carolina Jatobá tinha ciúmes da menina e era igualmente descontrolada e agressiva. Esse foi o retrato do casal Nardoni traçado por Ana Carolina de Oliveira, a mãe de Isabella, em seu depoimento ontem no 2.º Tribunal do Júri. Ela chorou seis vezes. Seu relato sobre a morte da menina, em março de 2008, emocionou até uma jurada.

O julgamento do casal Nardoni começou às 14h17 de ontem. Mas a primeira testemunha só entrou no plenário do tribunal às 19h32. Era Ana Carolina de Oliveira, que passou a ser inquirida pelo juiz Maurício Fossen. A mãe começou a descrever a noite do crime. Contou que recebeu um telefonema de Anna Jatobá, que gritava: "Ela foi jogada, ela foi jogada." Ana Oliveira não entendeu o que havia acontecido, mas, em companhia de quatro amigos, foi ao prédio dos Nardonis, o Residencial London, na zona norte de São Paulo.

"Anna Jatobá estava na calçada, saltei do carro e, quando fui subir a escada…" A mãe chorou, então, pela primeira vez. "… Aí, eu logo vi minha filha caída na grama, do lado direito de quem entra no prédio. Quando cheguei, eu a vi. Ajoelhei na frente dela. Coloquei a mão no coraçãozinho dela, que batia bem rápido, e o Alexandre gritava para invadir o prédio, que tinha ladrão."

Em seu relato, Ana Oliveira disse que a madrasta também gritava. "O resgate não chegava lá, e ela não parava de gritar. Pedi para ela calar a boca que…" E a mãe chorou pela segunda vez. Prosseguiu contando que Anna Jatobá xingou e gritou em resposta que "aquela situação só estava acontecendo pela minha filha, que era por causa dela". Ana contou que foi com a filha na ambulância até a Santa Casa. "Depois de um tempo, já na sala, a médica veio e me disse: ‘Sua filha morreu’…" Novo choro e o juiz perguntou se ela havia conversado com o pai de Isabella naquela noite e depois do crime.

"Ele não me falou nada. Eu não conseguia ficar de pé. Fiquei no chão…" E Ana chorou. A mãe contou como conheceu Alexandre e disse que rompeu com ele porque descobriu que era traída. Isabella tinha 11 meses. Disse que o pai foi certa vez à sua casa armado e disse que ia matar a mãe dela, Rosa, e levar Isabella. Tudo porque não queria ver a menina matriculada em uma escola. Passou, em seguida, a relatar o ciúme que supostamente Anna Jatobá teria dela e da filha. Quando questionada se Isabella tinha algum sonho, novo choro. "Ela queria aprender a ler."

Defesa

A defesa tentou mostrar que Isabella gostava do pai e pedia para visitá-lo. Quis ainda que Ana confirmasse os cuidados que a madrasta tinha com a menina e perguntou se ela não pensou em aborto ao saber que estava grávida. Às 21h52, quando seu depoimento terminou, Ana Oliveira foi surpreendida por um pedido da defesa.

O criminalista Roberto Podval exigiu que ela permanecesse no Fórum, em vez de ser dispensada. "Mas é desumano, ela não tem condições psicológicas", disse o promotor Francisco Cembranelli. Podval insistiu. A lei estava do seu lado. O juiz determinou a permanência da mãe para o caso de ser necessário ouvi-la de novo. Ana deixou a sala do tribunal aos prantos. Foi a sexta vez que a mãe chorou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O julgamento do casal deve durar de quatro a cinco dias. O júri que vai decidir se o casal é inocente ou culpado é composto por quatro mulheres e três homens. Das 40 pessoas que foram convocadas pela Justiça para o sorteio do júri, 28 compareceram ao Fórum de Santana, em São Paulo. Na escolha dos jurados, dois deles foram recusados: uma mulher pelo Ministério Público e outra pela defesa dos réus.

Das testemunhas arroladas pela defesa – 17 no total -, os advogados do casal desistiram de seis. A assistente de acusação, Cristina Leite, abriu mão do depoimento da avó materna de Isabella, Rosa Cunha de Oliveira. Foi arrolada ainda como testemunha pelo Ministério Público a mãe da garota, Ana Carolina Oliveira.

A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) divulgou nesta tarde o nome das testemunhas dispensadas pela defesa do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados de matar a menina Isabella Nardoni.

Das 17 pessoas arroladas, os advogados do casal desistiram de seis: Paulo Vasan, escrivão do 9º Distrito Policial (DP), no Carandiru; Luiz Alberto Spinola de Castro, investigador de polícia do 9º DP; Claudio Colomino Mercado, agente policial do 9º DP; Adriana Mendes da Costa Porusselli, escrivã do 9º DP; Walmir Teodoro Mendes, investigador do 35º DP, no Jabaquara; e Geralda Afonso Fernandes, vizinha de frente do prédio onde morava o casal Nardoni. Já a acusação dispensou o testemunho da avó materna da vítima, Rosa Cunha de Oliveira.

O caso

Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, foi morta na noite de 29 de março de 2008. A perícia concluiu que a menina foi atirada do sexto andar do prédio onde moravam seu pai, Alexandre, sua madrasta, Anna Carolina, e dois filhos pequenos do casal, na Vila Isolina Mazzei, zona norte de São Paulo. O crime comoveu o País e ganhou grande repercussão.

Alexandre e Anna Carolina estão desde maio de 2008 em presídios em Tremembé, no interior paulista. Os réus já perderam 11 decisões de habeas-corpus nas três instâncias da Justiça. Eles alegam inocência.

De acordo com as investigações, foi encontrado um rastro de sangue que começava na porta de entrada do apartamento do casal, passava pela sala, onde havia vestígios de uma poça grande, seguia pelo corredor de acesso aos dormitórios e terminava no quarto dos irmãos da vítima.

Segundo mostram os laudos, também havia sangue na maçaneta e no interior do carro da família. Outras marcas foram encontradas na tela de proteção e no parapeito da janela do quarto dos meninos. A tela estava cortada. Os laudos mostram ainda indícios de que Isabella foi espancada antes da queda.

Na versão do casal Nardoni, Alexandre chegou com os filhos, desligou o carro e subiu primeiro com Isabella no colo, que estava dormindo. Depois de deixar a filha na cama ele conta que voltou até a garagem para ajudar Anna Carolina com os dois meninos. Ao voltar para o apartamento, Alexandre afirma que encontrou a porta aberta, a tela de proteção cortada e a menina caída no gramado do Edifício London.

Argumentos

Para o promotor de Justiça, Francisco José Cembranelli, um dos responsáveis pela acusação no caso, o pai e a madrasta são culpados pelo crime. "É o que a prova mostra. A prova os compromete. Essa é a verdade nua e crua", disse ele, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo de ontem. De acordo com a denúncia do promotor, a menina foi estrangulada pela madrasta e arremessada pelo próprio pai. "Isabella foi muito agredida e acabou defenestrada depois de uma sucessão de atos cometidos pelos acusados", afirma Cembranelli.

Já para o advogado Roberto Podval, "não há absolutamente como condenar nenhum dos dois". Ontem ao mesmo jornal, ele disse que o crime virou um espetáculo da Idade Média. "Parece aquelas mortes apregoadas em praça pública. As pessoas gostam de ver sangue. Não há preocupação de se fazer justiça, mas de vingar a morte da menina." Ele conta que o caso "está pautado na perícia que, desde o primeiro momento, parte da culpa do casal para chegar ao resultado". Em sua opinião, não será possível um julgamento justo e honesto.

O protesto

O empresário André Luís dos Santos, de 49 anos, veio de Ponte Nova, na zona da mata de Minas Gerais, de ônibus, para protestar contra o assassinato de Isabella e acompanhar o julgamento. Santos chegou no sábado à noite a São Paulo.

Ele carrega um crucifixo de madeira com fotos da Ana Carolina Oliveira com a filha sorrindo e a pergunta escrita: "Por que mataram esses sorrisos?"

Um grupo de cinco crianças, entre 7 e 12 anos, moradoras da rua de trás do Fórum de Santana, estava na frente do prédio. Em folhas de caderno, elas pediam: "Queremos justiça!". Aproximadamente 30 policiais militares fazem a segurança do prédio onde ocorrerá o julgamento.

Escola Base

Antes de entrar no Fórum de Santana, o pai do réu Alexandre Nardoni, o advogado Antonio Nardoni, afirmou aos jornalistas que a acusação feita ao seu filho e à sua nora Anna Carolina Jatobá de matarem Isabella é a terceira maior injustiça cometida no Brasil. Segundo ele, a primeira é a Escola Base. A segunda foi o caso da mãe acusada de colocar cocaína na mamadeira da filha. "Não tem nada nos autos que prove a culpa dos réus". Segundo ele, o seu filho e sua nora estão confiantes e tranquilos.

"Esperamos que a justiça seja feita e que os jurados tenham vindo dispostos a pelo menos ouvir a defesa, sem prejulgamento", disse. Ele acrescentou que almoçou ontem com Alexandre, em Tremembé, e que o filho está calmo, pois sabe que não fez nada. Perguntado se poderia dizer o mesmo sobre a madrasta de Isabella, o avô da menina foi objetivo. "A Anna também não fez nada."

Sobre a ausência de sua esposa, avó de Isabella, no julgamento, disse que ela não tem condições de acompanhar. "O coração dela não aguentaria. Ela adorava a Isabella mais do que qualquer um."

Antonio Nardoni contou que esteve hoje pela manhã no apartamento no edifício London, onde moravam Alexandre e Anna. Ele disse ter sugerido aos advogados de defesa que peçam ao juiz diligência no apartamento – ou seja, que os jurados visitem o local. Também voltou a reclamar de cerceamento da defesa, mas não disse em que pontos.

Sobre o assédio de populares, reclamou que a família sequer consegue "atravessar a rua para comprar um pãozinho".

O processo

O julgamento começa com o sorteio dos jurados. Sete pessoas serão escolhidas entre um grupo de 40 indivíduos pré-selecionados pela Justiça. Defesa e acusação podem recusar, cada uma, até três pessoas sorteadas.

Depois desse processo, serão ouvidas as testemunhas. Primeiro as de acusação (seis) e depois as da defesa (20) – três deles coincidem com as de acusação, daí o total de 23. A maioria é formada por policiais, peritos e médicos-legistas que atuaram no caso. Por fim, os réus serão interrogados.

Concluída a fase dos depoimentos, será a vez dos debates entre a acusação e a defesa. Cada um terá o direito de falar por duas horas e meia. Se a promotoria quiser, poderá usar mais duas horas para réplica, o que automaticamente dará direito à defesa de usar o mesmo tempo para tréplica.

Terminado o debate, os jurados serão questionados pelo juiz se têm condição de julgar o caso e se querem alguma explicação. Se o júri responder que sim, todos passarão à sala secreta e decidirão o destino do casal. Com informações do jornal O Estado de S. Paulo.