Comportamento

A Hollywood brasileira

Como a vida dos habitantes de Paulínia mudou depois que a cidade se tornou o maior polo do cinema nacional

A Hollywood brasileira

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CÂMERA E AÇÃO
Set armado na cidade

A sexta-feira 27 de fevereiro foi o grande dia para a motogirl Keli Cristina, seu marido, o frentista Adir, e o filho do casal, Bruno, de dez anos. Fãs de cinema – ela curte dramas como “Tomates Verdes Fritos” e eles, filmes de suspense e ação –, o trio trocou a sala de tevê de casa, num sítio em Paulínia, cidade de 85 mil habitantes a 126 quilômetros de São Paulo, pela oportunidade de brilhar na telona. Foram selecionados como figurantes do filme “O Palhaço”, produção escrita, dirigida e na qual atua o ídolo Selton Mello, que está sendo rodada na cidade. Naquele dia, eles acordaram bem cedo, vestiram as melhores roupas e esperaram ansiosos pela chegada do carro que os levaria ao set de filmagem. Antes de sair, Keli escondeu na bolsa sua câmera digital. Com três figurações no currículo, era a primeira vez que não era proibida de levá-la. Interpretando uma família, contracenaram com o próprio Selton. “Ele gostou tanto da participação do Bruno que fez a gente prometer a ele que o incentivaria para ser ator”, contou uma orgulhosa Keli. O melhor, segundo ela, é que no final das filmagens nem precisou pedir autorização para usar sua digital. “O próprio Selton pediu para que eu tirasse uma foto do Bruno com ele”, diz. A história de cinema de Keli e sua família só foi possível porque, há cinco anos, um prefeito megalomaníaco resolveu transformar a pequena Paulínia numa Hollywood brasileira.

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GLAMOUR
Bastidor de “As Vidas de Chico Xavier”

Desde 2007, 39 longas-metragens com cenas rodadas na cidade (leia quadro à pág. 70) chegaram aos cinemas ou estão em produção. Entre eles, filmes badalados como “Ensaio sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, “Budapeste”, de Walter Carvalho, e “É Proibido Fumar”, da Anna Muylaert. Este ano, o município servirá de base para uma em cada três produções cinematográficas no Brasil. Mas como é possível uma cidade do interior de São Paulo conseguir atrair a nata do cinema nacional? Explica-se: com dinheiro. Paulínia abriga o maior polo petroquímico da América Latina. O orçamento municipal é de R$ 750 milhões, dos quais 70% são de impostos decorrentes do refinamento do petróleo.

POLO
O projeto deu origem a uma escola de cinema em Paulínia, a
uma produtora e ao Teatro Municipal


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Apesar de ter o sétimo maior PIB per capita do País, falta emprego. “Se o sujeito não trabalha na prefeitura, ele é funcionário concursado da Petrobras”, diz o secretário de Cultura do município, Emerson Alves. “E muitos deles vêm de outras cidades.” Em 2005, o então prefeito, Édson Moura (PMDB), famoso por suas obras faraônicas de gosto duvidoso, passou a usar um pedaço dessa verba para incentivar o cinema nacional, disponibilizando ainda infraestrutura e mão de obra para produções cinematográficas que se dispusessem a filmar em Paulínia boa parte das cenas. Seu objetivo era levar glamour à cidade e movimentar a economia local. O atual prefeito, José Pavan Júnior (DEM), deu continuidade ao polo cinematográfico.

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O figurante Bruno com Selton Mello

Com isso, criouse o cadastro de figurantes e técnicos de Paulínia que tem 890 inscritos, inclusive Keli e sua família. O projeto do polo deu origem a uma escola de cinema, a uma produtora local, ao Teatro Municipal de Paulínia – uma obra de R$ 53 milhões projetada por Ismael Solér, o mesmo da sofisticada Sala São Paulo, na capital paulista – e ao Festival de Cinema de Paulínia. O evento,  cuja terceira edição acontecerá em julho, possui um tapete vermelho mais extenso do que o de Cannes e Veneza somados e tem atraído a  nata do cinema nacional com prêmios milionários. Por intermédio do Fundo Municipal de Cultura, que corresponde a 2,5% do orçamento da prefeitura, a cidade distribuiu R$ 20 milhões entre 20 produções cinematográficas só no ano passado. Para investir em cinema, a prefeitura impõe contrapartidas. Na seleção dos filmes contemplados com dinheiro do Fundo, são privilegiados aqueles cujas produções permanecerem mais tempo na cidade (no mínimo, 40% das cenas têm de ser rodadas lá) e usarem mais mão de obra local. Na seleção dos longas, é importante também que a primeira exibição nacional do filme seja no Teatro Municipal de Paulínia. O candidato a blockbuster “As Vidas de Chico Xavier”, de Daniel Filho, terá sua pré-estreia na terça-feira 23 no teatro, que é a única sala de projeção da cidade. Em geral, o município tem arcado com 15% do orçamento das produções.

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No tapete vermelho do Festival de Paulínia

No caso de “O Palhaço”, o aporte foi maior porque Selton se empolgou com a infraestrutura da cidade, desistiu de gravar as cenas de circo no Nordeste e montou um picadeiro dentro de um estúdio em Paulínia. Assim, 80% das cenas do filme serão rodadas na cidade e no seu entorno. Do orçamento de R$ 5 milhões, R$ 1 milhão virá do município. Hoje, além de “O Palhaço”, há três filmes em fase de produção na cidade. O cinema traz benefícios para Paulínia. Cada produção emprega cerca de 250 pessoas, como Cristiane Façanha, 29 anos. Ela trocou seu cargo de repórter num jornal local pelo de produtora de filmes. Para tanto, formou- se em processo de criação e produção, na Escola Magia do Cinema. “Estagiei em dois filmes na cidade e depois, como profissional, continuei aprendendo em ‘Jean Charles’ e ‘Salve Geral’”, conta. Cenas como o enterro de Jean Charles e o ataque do PCC foram feitas em Paulínia, com a ajuda de Cristiane. Com o objetivo de aquecer o comércio local, a produção dos filmes deve gastar 50% do valor recebido na cidade. Isso, no entanto, nem sempre é tarefa fácil. Afinal, trata-se de um município pequeno com poucas opções de hospedagem, restaurantes e bares. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Paulínia, Wilson Ferreira Machado, explica que o comércio local está, aos poucos, se encaixando na nova realidade e que a tendência é a ampliação da oferta de serviços. “O projeto é muito audacioso”, diz ele. “E todo empreendimento tem um tempo de maturação.” Dono de um restaurante – que, inclusive, foi o escolhido pela atriz Deborah Secco para comemorar seu aniversário de 30 anos –, ele sentiu isso na pele. “Costumávamos fechar às 23h e agora funcionamos até 1h, porque as filmagens terminam tarde”, diz.

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O secretário de Cultura Emerson Alves diante do Teatro Municipal

Com tudo isso, Paulínia causa tanto fascínio quanto apreensão em quem a conhece. O veterano ator Paulo José, 73 anos, deslumbrou-se com a cidade. “O cinema brasileiro se divide entre antes e depois de Paulínia”, diz ele, que filma “O Palhaço” e está na cidade pela primeira vez, referindo- se aos recursos e à infraestrutura disponíveis. Chamada de Hollywood caipira pelos moradores, também ganhou apelido entre os artistas. “Brincamos que aqui é Pauliwood”, diverte-se Selton. Mas o fantasma da descontinuidade do projeto por futuras administrações ainda assombra. Afinal, a história política de Paulínia renderia um enredo de cinema e isso traz insegurança naqueles que pensam em investir na profissão ou na cidade. O exprefeito Édson Moura é investigado por improbidade administrativa. E o atual, José Pavan Júnior, virou personagem ao ser cassado no encerramento do Festival de Cinema de Paulínia do ano passado. Ele só voltou ao cargo seis dias depois graças a uma liminar e aguarda julgamento pelo crime de compra de votos. Durante as filmagens de “O Palhaço”, Keli se surpreendeu com a simpatia da equipe de Selton. “Eles nos tratavam como se fôssemos um deles”, disse ela. A motogirl figurante em produções nacionais ainda não atentou para o fato de que os paulinenses são parte fundamental dessa engrenagem que se fortalece a cada ano e cujo maior desafio é continuar existindo. Afinal, é muito mais negócio para “Pauliwood” se tornar Hollywood, Cinecitá, na Itália, ou Bollywood, na Índia, do que se esvair como os estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

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