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O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do PSDB, acredita que tanto na geometria como na política linhas paralelas se encontram em algum ponto no infinito. É com base nessa convicção e na arte do malabarismo mineiro que ele se equilibra com um pé em cada canoa na sucessão presidencial. De um lado, mantém contato com o PT e com o presidente Lula. Do outro, não abandona o barco do candidato de seu partido, o tucano Geraldo Alckmin. Com essa política conciliatória, que já lhe valeu o apoio declarado de 23 dos 86 prefeitos petistas do Estado, já se tem em Minas um novo tipo de voto: o Lulécio, aquele em que o eleitor pretende votar em Lula e Aécio.

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As projeções indicam que o governador tem tudo para se tornar o maior fenômeno eleitoral saído das urnas de outubro. Nos votos válidos (descontados os brancos e nulos), Aécio chega a 88%. Significa dizer que de cada dez eleitores mineiros apenas um não vota nele. E mais que isso: ele é um forte candidato a fiador junto à oposição para um pacto de governabilidade num eventual segundo governo Lula.
Enquanto puder, Aécio acompanhará essas duas linhas paralelas, certo de que elas se encontrarão em Brasília, em 2010. E que terão exatamente ele como o ponto de convergência. Se algo der errado ao longo do caminho, o mineiro ainda mantém aberta uma terceira via: uma eventual troca de partido, possivelmente o PMDB, com quem o governador já vem conversando há um ano.

Aécio nega que seu plano de reeleição mire na sucessão presidencial. “Não existe esse plano 2010”, despista. “Eu sou muito jovem e sei esperar meu momento”, continua o sedutor governador de 46 anos. Os aliados de Aécio, porém, afirmam que a sua pretensão presidencial é evidente. Aliás, qualquer freqüentador desavisado da Praça Sete, coração da política da capital mineira, sabe disso. Mas Aécio não está disposto a entrar em uma disputa sangrenta com os demais tucanos que também cobiçarão a indicação. Aprendiz do avô Tancredo Neves, Aécio sabe todas as frases da velha raposa política mineira de cor. Para o caso da disputa interna, prefere a citação: “Em política, você pode transigir na estratégia, mas nunca nos princípios.” O que ele planeja é construir uma situação que o aponte como solução natural, sem contestação no próprio partido. Seu maior obstáculo, no entanto, é o ex-prefeito José Serra.

No primeiro embate com Serra, Aécio deu um baile. Em fevereiro de 2001, Serra trabalhou pela candidatura do pefelista pernambucano Inocêncio Oliveira para a presidência da Câmara. Em silêncio, Aécio, no melhor estilo do avô, cooptou o PMDB e derrotou Inocêncio. É por causa de manobras como essa e pela relação amigável e mineira com o PT que os tucanos paulistas costumam vê-lo como o correligionário mais adversário que possuem.

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Para diminuir o grau de desconfiança dos tucanos, que não acreditavam que o governador embarcasse na candidatura de Alckmin, Aécio organizou em Belo Horizonte a convenção que oficializou o nome do ex-governador de São Paulo e programou viagens ao lado do candidato. Mas a maior cartada estava por vir. Movimentou-se com habilidade e conseguiu o apoio do ex-presidente Itamar Franco a Alckmin. Tudo isso sem perder a simpatia e os elogios do presidente Lula. “Ele mantém uma relação respeitosa, de confiança”, comenta Lula com aliados políticos. Mas não é só em elogios que se baseia a estratégia de Aécio. Ele não evita, como outros oposicionistas, aparecer ao lado do presidente. No mês passado, na cidade mineira de Santos Dumont, posou para fotos com Lula na comemoração do centenário do vôo do 14-Bis. O governador também não hesita em dizer, nesses encontros, frases que muito lembram seu avô: “Não é só porque é meu adversário que ele não tem virtudes.”
Até mesmo quando comenta os altos índices das pesquisas que lhe asseguram uma vitória esmagadora no primeiro turno, Aécio lembra de sua estratégia de duas canoas. “O ocupante do cargo no Executivo começa com um porcentual alto e, depois, vai perdendo gordura à medida que os demais candidatos vão se tornando conhecidos”, diz numa referência às dificuldades de Alckmin. Mesmo repetindo “que trabalha forte” pelo candidato de seu partido, o governador mineiro sempre ressalva: “Não existe transferência automática de votos.”

Quem protesta até na Justiça contra o estilo Aécio de ser é seu adversário na disputa mineira, o petista Nilmário Miranda. Num distante segundo lugar nas pesquisas, com pouco mais de 6%, Nilmário acusa Aécio de abusar da máquina pública, misturando as agendas de governador com a de candidato. Nilmário entrou com uma ação para impugnar a candidatura do governador à reeleição. O problema de Nilmário não está na agenda do adversário e sim na perda de apoio dentro de seu partido. Entre os prefeitos que mudaram de lado está Mauro Tadeu,
de Varginha. E ele explica por que, apesar de ser petista, embarcou na canoa de Aécio: “Ele nunca me discriminou. Sempre fui muito bem atendido quanto às reivindicações da nossa cidade.”

Mas a virtude da versatilidade e do poder de conciliação, segundo seus opositores, pode se tornar obstáculo em seu caminho rumo à Presidência. Os adversários torcem para que ele se atrapalhe nessa tarefa de compor com todo mundo. “Será que vai interessar ao eleitor do PSDB votar em um tucano que pareça ser amigo e aliado do PT e de Lula?”, indaga um correligionário de José Serra, que evita se identificar. Para os mais conservadores, a solteirice seria outro problema. Não para Aécio: “Faço tudo que um homem da minha geração faz.” Alguém é capaz de discordar disso?

 


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