Um brasileiro chamado Waldick

Waldick é uma face do Brasil que o Brasil não quer ver, não reconhece como legítima e folcloriza para reduzi-la

Não tenho intenção de fazer deste espaço um obituário da música brasileira, mas, assim como foi impossível não falar da morte de Caymmi no texto do mês passado, agora também é inevitável que eu dedique algumas mal traçadas linhas à memória de outro grande, Waldick Soriano.

Alguns artistas tornam-se vítimas de seu próprio folclore. E nessa lista podem figurar de Raul Seixas a Oswald de Andrade, de Tim Maia a Gilberto Gil. Diante da força desse “folclore”, não é tarefa fácil fazer uma avaliação crítica justa dos seus trabalhos. Mesmo Glauber Rocha, tido quase que unanimemente como o maior cineasta brasileiro de todos os tempos, não raro é mais lembrado por sua pitoresca biografia que por sua estupenda obra.


Também aconteceu com Waldick. Por trás do personagem cafona, com cara de durão, óculos escuros e chapéu de Durango Kid, eternizado como o cantor das dores de corno e autor do clássico brega (e folclórico) Eu não sou cachorro, não, havia (há) um compositor fabuloso cujo repertório de canções passionais não deixa a dever a nenhum dos gigantes hermanos, como Agustín Lara e Rafael Hernández, consagrados autores de bolero com reconhecimento internacional.

A trajetória de Waldick é retrato e símbolo do Brasil profundo, um Brasil que não figura nos cadernos de cultura dos jornais, que sobrevive excluído dos grandes planos políticos, que forja a sua história com os mínimos recursos que tem. Pouco escolarizado, o artista se orgulhava do fato de suas canções não conterem erros grosseiros de português. E uma rápida revisão nas letras de suas canções atesta isso. Nos últimos anos, foi resgatado de certo ostracismo pela atriz Patrícia Pillar, que lhe dedicou documentário e produziu seu último e belo registro, um CD/dvd ao vivo, gravado em Fortaleza no ano de 2006. Por acaso eu estava lá e assisti comovido ao desfile de clássicos imbatíveis como Tortura de amor, A carta, Vestida de branco e O moço pobre.

Antes, o livro Eu não sou cachorro, não, do historiador Paulo César de Araújo, o mesmo que tempos depois escreveria a polêmica biografia do rei Roberto Carlos, já buscara restaurar a dignidade (e importância histórica) dos artistas ditos cafonas, revendo suas obras com olhar generoso e inserindo-as no contexto da história política brasileira recente, ao discorrer sobre os trabalhos de nomes como Odair José, Paulo Sérgio e o próprio Waldick durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Eu diria que o status de cafona ou brega é um patrimônio cultural brasileiro e, não se enganem, isto é uma provocação sim. O brasileiro culto que vira as costas para os artistas populares de nossa música é o mesmo que aplaude a cafonice estilizada dos filmes de Almodóvar, por exemplo, só que a cafonice deste, levada à tela sempre com maestria, está blindada pela aura de “cult”. Waldick não, ele é uma face do Brasil que o Brasil não quer ver, que não reconhece como legítima, que folcloriza para reduzi-la. Emblemática uma história contada pelo próprio, durante a gravação de seu dvd. Disse ele, com sua garrafinha de uísque ao lado: “O Frank Sinatra vem ao Brasil, canta com seu copo de uísque na mão, todo mundo acha lindo. Agora, se o Waldick toma seu uisquinho, aí ele é um cachaceiro!…”. Viva Waldick Soriano, quiçá o mais brasileiro de todos os artistas brasileiros!

Zeca Baleiro é cantor e compositor.






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