Comportamento

A pequena Gonzaga desafia o Reino Unido

A família de Jean Charles faz da pobre cidade mineira seu bunker na luta contra a Scotland Yard

As aparências não enganam quem conhece o mineiro Matosinhos Otoni da Silva. O sorriso freqüente é a marca de um homem simpático e pacato, que não deseja o mal nem mesmo aos inimigos. “Pode perguntar aos vizinhos, acho difícil alguém reclamar do pessoal aqui de casa”, aposta o ex-agricultor de 68 anos, obrigado a abandonar a lavoura por conta da seca que há sete meses castiga Minas Gerais. Sua mulher, Maria, também valoriza a cordialidade e o casal repassou o ensinamento a seus dois filhos, Jean Charles e Giovani. A família é referência na cidade onde mora, a paupérrima Gonzaga, situada a 350 quilômetros de Belo Horizonte. Nos últimos tempos, no entanto, Matosinhos foi obrigado a contrariar sua natureza tranqüila para entrar numa briga feia. Tem contra si nada menos que a Scotland Yard, polícia inglesa que em julho de 2005 assassinou seu filho Jean Charles de Menezes, então com 27 anos.

O caçula de Matosinhos levou sete tiros na cabeça ao ser confundido com um terrorista no metrô de Londres. Desde então, é de uma casinha simples numa cidade miúda e esquecida que a família de Jean Charles batalha para desmontar uma série de acusações infundadas que os policiais ingleses têm levantado contra ele. “Queremos limpar o nome de meu filho e punir os culpados”, desabafa Matosinhos. O palco da disputa entre a família mineira e a Scotland Yard é a Justiça britânica, que no dia 1º de outubro iniciou o julgamento que atrai atenção internacional.

O caso mobilizou a opinião pública da Inglaterra e manchou a reputação da polícia inglesa, até então considerada a melhor do mundo. O desgaste foi tanto que, contrariando todas as probabilidades, os familiares do brasileiro têm chances de ganhar a briga. “Até mesmo a população britânica já está percebendo que a polícia inventou uma série de mentiras”, diz Giovani, 36 anos, irmão de Jean Charles, que largou o emprego em São Paulo para voltar a Gonzaga e ajudar os pais na batalha jurídica. Da primeira acusação absurda feita pela Scotland Yard – a de que o brasileiro assassinado seria um terrorista – às últimas invenções das autoridades policiais, como a suspeita de que ele teria praticado estupro e a divulgação de que era viciado em cocaína, todas foram desmentidas pelos advogados da família. “Não temos dinheiro para pagar bons advogados”, diz Giovani. “Por isso recorremos a uma ONG inglesa que tem nos ajudado muito e sem cobrar nada.” A imprensa e o próprio governo britânico já questionam a eficiência da Scotland Yard.

Os parentes e amigos de Jean Charles só guardam boas lembranças do rapaz, que se tornou eletricista num curso por correspondência. Em busca de ganhos maiores, foi para São Paulo e depois para Londres, em 2001. “Não achei bom quando ele me disse que ia para a Inglaterra. Mas, aqui, os jovens fazem 18 anos e já pensam logo em viajar para procurar coisa melhor, fazer o quê?”, lamenta Matosinhos. Na capital inglesa, foi garçom e logo passou a trabalhar como eletricista. Em pouco tempo, pôde enviar aos pais dinheiro suficiente para erguer a casa onde moram hoje. A mãe, Maria, diz que muitas vezes sente a presença do filho. “Quando estou no fogão, vira e mexe ouço a voz dele, como se estivesse na cozinha, dizendo: ‘Mãe, pode servir o almoço”, recorda ela.

Pouco depois do assassinato, o casal esteve em Londres. “Não tenho o que dizer do povo, que foi muito educado com a gente, a cidade é muito limpa”, comenta, candidamente, Matosinhos. Maria compartilha da mesma opinião, mas, ao passar por alguns policiais no aeroporto inglês, não se conteve e gritou, em português, com alguns deles. “Eu sou calma, mas fiz um desabafo naquela hora”, diz. “Meu filho tinha um futuro bonito pela frente e eles cortaram o destino dele.” Por ironia, nas conversas com a mãe por telefone, várias vezes Jean Charles elogiou a polícia britânica. “Ele dizia que pareciam ser educados, não andavam com armas, não batiam em ninguém”, conta ela.

A família de Jean Charles leva uma vida simples. Matosinhos mantém 18 cabeças de gado em pasto alugado. Divide suas manhãs entre o corte de lenha e as voltas no cavalo Marru, que o ajuda a tanger o gado. A venda de leite proporciona uma renda mensal de R$ 700. No lugarejo onde mora, a dez quilômetros do centro de Gonzaga percorridos em tortuosa estrada de barro, não há hospital e a única escola é bem distante. “Para estudar, minhas crianças tinham que andar quatro quilômetros”, recorda-se. Maria lembra o sacrifício que fez para que Jean Charles pudesse se aperfeiçoar como eletricista depois do aprendizado por correspondência. “Vendi minhas galinhas para pagar outro curso e comprar umas peças para ele praticar”, conta.

O caminho percorrido por Jean Charles, que viu na viagem ao Exterior a única maneira de melhorar de vida, é repetido por muitos jovens da região. É algo comum em municípios que, como Gonzaga, são vizinhos de Governador Valadares, conhecida por ser uma das cidades brasileiras que mais enviam emigrantes – ilegais – para outros países. Gonzaga talvez seja o mais pobre entre esses pólos exportadores de gente. Com a queda da atividade agrícola, o município vive à míngua. Tem cerca de seis mil habitantes e não conta com mais de 28 empresas registradas. Apenas 124 trabalhadores do lugar têm carteira assinada e, destes, 99 estão empregados na administração pública.

O cenário pobre melhorou nos últimos anos. “Foram os dólares e os euros enviados de fora que financiaram a reforma de algumas casas e da igreja”, explica Giovani. Os cálculos do prefeito Julio Maria de Souza (PSDB) apontam um índice impressionante de emigração. “Quase duas mil pessoas da cidade vivem no Exterior”, diz Souza, ele próprio um exemplo desse fenômeno. O prefeito viveu vários anos em Nova Jersey, Estado vizinho a Nova York. Mas os setores de imigração dos países desenvolvidos não estão interessados nessas histórias. No julgamento, a Scotland Yard substitui a fleuma inglesa pela arrogância. A policial responsável pela operação, Cressida Dick, disse ao juiz que não faria nada diferente. “Eu não mudaria aquelas decisões”, afirmou, sem remorso.

No processo atual, a advogada Harriet Wistrich avalia que, se ganhar a causa, a indenização não passará de algo em torno de 10 mil libras, cerca de R$ 40 mil. As acusações infundadas da Scotland Yard, porém, é que podem render indenizações milionárias por danos morais, que não são objeto do atual julgamento. Mas sobre esses valores os familiares não querem falar. Só pensam agora na restauração da dignidade de Jean Charles e a devida punição dos culpados.

As trapalhadas da Scotland Yard
– O pior dos erros foi a ação desencadeada no dia 22 de julho de 2005, na qual os agentes ingleses mataram Jean Charles com sete tiros na cabeça sob a alegação de que ele seria terrorista.
– Descoberto o erro, a argumentação da polícia passou a ser a de que ele carregava uma mochila suspeita e que morava no prédio onde também residia um terrorista. Mentira dupla: Jean Charles não usava mochila e não havia terrorista nenhum morando em seu edifício.
– Na plataforma do metrô onde o brasileiro foi assassinado, há pelo menos dez câmeras do circuito interno. A empresa de transportes informa que nenhuma delas estava funcionando. Suspeita-se que a Scotland Yard tenha apagado as fitas.
– Há quatro meses, a polícia inglesa entrou em contato com a família de Jean Charles, investigando uma suposta denúncia de estupro contra ele. Mais uma vez, a Scotland Yard admitiu ao irmão que nada ficou provado.
– No início do mês, os policiais disseram ter achado cocaína no organismo de Jean Charles. Giovani, o irmão, questiona como foi feito o exame, já que o rapaz foi enterrado no Brasil.
– No último lance, a Scotland Yard divulgou uma montagem em que coloca lado a lado os rostos de Jean Charles e do terrorista árabe Omar Hussain, para tentar provar a semelhança dos dois. Diante da imagem claramente manipulada, o expediente foi criticado por especialistas na própria imprensa inglesa.