Cultura

Bossa Nova, 50 anos

O ritmo criado por Tom Jobim e João Gilberto colocou o Brasil no mapa da música mundial e ainda influencia novos artistas

COLORIZAÇÃO: ALEX SILVA SOBRE REPRODUÇÃO

PRINCESINHA DO MAR A Copacabana dos anos 50, retrato de um país mais delicado, foi o berço do movimento bossanovista

Quando se preparava para gravar Corcovado com Tom Jobim, João Gilberto travava no primeiro verso: "Um cigarro e um violão / Este amor, uma canção." A seu estilo, demorou um pouco para desabafar: "Tonzinho, essa coisa de um cigarro… Não devia ser assim. Cigarro é uma coisa ruim. Que tal se você mudasse para "um cantinho e um violão?" João Gilberto era ex-fumante e Tom, um devorador de três maços por dia. Esse simples fato, narrado no livro Chega de saudade, de Ruy Castro, modificou uma das canções mais queridas da bossa nova, o movimento musical que está completando 50 anos. Sem muitos arroubos e paroxismos, só privilegiados foram capazes de entender, no início, a importância daquela bossa cool como o jazz e cujos artífices podiam até ser desafinados, mas eram delicados ao ponto de se preocuparem em propagar o tabagismo.

O CRIADOR A batida de João Gilberto no violão foi criticada e comparada até à goteira. O fato é que sua criatividade se impôs e foi a divisora de águas na interpretação

Era 1958 e a música brasileira vivia sua fase dor-de-cotovelo na voz de Maysa ou letras de Antônio Maria – quem não conhece "Ninguém me ama, ninguém me quer"? Veio a reação. "É um inseticida sonoro", vociferou o maestro Guerra Peixe. "Vai passar porque carece de categoria", afirmou o cantor Sylvio Caldas. O sambista Moreira da Silva debochou. "Não gosto de goteira", disse, referindo-se à batida ritmada de João Gilberto. Mas quem insistiu em classificar a revolução de antimusical perdeu tempo. O "pinga-gotas" contaminou o cenário com Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Nara Leão, entre outros – e a bossa nova se tornou o gênero musical brasileiro mais famoso no mundo.

Não é, nunca foi música de massa, de povão. Nasceu na zona sul carioca, em apartamentos da classe média de Copacabana. O ponto de encontro era a casa de Nara Leão, musa do movimento. Com violão e piano, a turma cantava, por exemplo, Batida diferente, de Durval Ferreira: "Veja como bate engraçado meu coração assim / Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum." João Gilberto, já meio esquisitão, jogava pedrinhas na janela para que Nara aparecesse e lhe dissesse quem estava na casa. Dependendo dos presentes, decidia subir ou dar meia volta. Amigo de Jairo Leão, pai de Nara, o poeta Manuel Bandeira foi um dos primeiros intelectuais a enxergar revolução naqueles violões juvenis. "Bandeira me disse que a urbanização faria surgir uma nova música. Acertou. Nos prédios de Copacabana, as moças não podiam ouvir serenatas. As canções passariam a ser baixinhas, quase que faladas ao pé do ouvido", recorda-se João Araújo, fundador da Som Livre. Ele era diretor da gravadora Philips, que nos anos 60 disputaria com a Odeon os artistas bossanovistas – aqueles garotos bem-nascidos que rompiam com a estética do canto lírico e mudavam o samba para sempre.

A música solar entrava em cena para enterrar as canções melodramáticas, sombrias. Os namorados passam a cochichar no ouvido das garotas que "há menos peixinhos a nadar no mar/ do que os beijinhos que eu darei na sua boca", seguindo João Gilberto em Chega de saudade, a canção que ele lançou num disco compacto em 1958. Nada seria como antes. "Ninguém agüentava mais o cara mandar o garçom apagar a luz porque tinha virado corno. Precisávamos de algo mais leve, otimista", recorda-se Carlos Lyra, 68 anos. "Se nós não existíssemos, alguém acabaria fazendo a mesma coisa. O Brasil era outro e a música precisava mudar." Um dos marcos dessa mudança foi o disco Canção do amor demais, de Elizete Cardoso, também de 58.

O País que a turma de Copacabana sonorizava tinha esperança. "Vivíamos a ‘geração faculdade’, que estourava na época. Muitos jovens nas universidades. Queríamos movimentos diferentes, roupas diferentes; tínhamos um comportamento mais relaxado", atesta Roberto Menescal, 70 anos. Para ele, seria realmente difícil que se produzisse música para o povão: "Éramos alienados." O produtor Luiz Carlos Miéle concorda: "A galera morava bem, na zona sul. O gênero que eles criaram traduz esse estado de espírito da juventude distante da boemia dos morros e do centro da cidade." Alguns anos depois, parte do grupo romperia com a boa vida dos bossanovistas clássicos para se engajar nos embates ideológicos. Um dos expoentes era Carlos Lyra, que desembocou com Nara no Teatro Opinião, palco de resistência política, também em Copacabana. Passaram a criticar a influência do jazz e se aproximaram dos socialistas, da União Nacional dos Estudantes e das favelas. Vinicius também. "O ritmo já estava revolucionado e, para nós, começava a ficar monótono. Logo chegamos a Zé Ketti, Cartola, Nelson Cavaquinho, João do Vale", diz Lyra.

PRESTÍGIO BRASIL Com Roberto Menescal (à esq.), um dos pais da bossa nova, o País conquistou a crítica dos EUA no histórico show do Carnegie Hall, onde Tom Jobim (à dir.) iniciou sua fama internacional

Os tempos da juventude eram outros, com menos violência e mais ingenuidade – o que combinava com a voz suave de Sylvinha Telles. A política ainda não tinha revelado a ferocidade de seus porões que sangrariam em 1968. Juscelino Kubitschek, eleito em 1956, era chamado de presidente bossa nova. Consolidava a democracia abortando frágeis tentativas de golpe de Estado e anistiando golpistas. Construía uma nova capital e tirava proveito da euforia com vitórias na Copa do Mundo e nas passarelas de misses. A arquitetura florescia, com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, e o mundo admirava os jardins de Burle Marx. Com o que esses jovens se preocupavam então? Com a gomalina que não podia faltar no topete dos cabelos, o maiô de duas peças que revolucionava as praias e os sapatos mocassim, confortáveis para os rapazes que ficavam horas em pé na porta do Cinema Metro, no Posto 4, em Copacabana, paquerando. "Mas todas as moças eram virgens", lamenta Menescal.

Aos 19 anos, o sonho de Menescal era conhecer o mestre Tom Jobim. Um dia, do nada, Tom aparece em sua casa e diz: "Soube que você tem uma batida de violão parecida com a do João Gilberto. Quer tocar comigo na música do filme Orfeu do carnaval?" Estupefato, ele topou. Após as gravações, Tom falou: "Temos de combinar o cachê." Menescal levou um susto: "Eu tenho de pagar?" Naquele dia, tomado de felicidade, decidiu abandonar a faculdade de arquitetura e se dedicar só à música. Vive disso até hoje, e bem. "Nosso estúdio faz pelo menos dois discos novos por mês de encomenda para o Oriente, em especial o Japão", diz. "Fazemos releituras e agora estamos terminando o terceiro disco dos Beatles em Bossa Nova."

A internacionalização do movimento, que rende dividendos até hoje, teve seu marco na lendária apresentação dos brasileiros no Carnegie Hall, em 1962. Carlos Lyra estava lá. Reconhece que o mundo se curvou à música, mas critica. "Era uma zona, todo mundo subia no palco e tocava como queria, improvisando acordes de jazz. Fiquei tão irritado que falei para o Tom: ‘Vamos embora, isso é uma vergonha.’ O Tom, que era medroso à beça, disse: ‘Você assinou aquele papel, não assinou? Então é melhor ficar. Aqui tem cadeira elétrica, cara.’" Naquele mesmo ano, os encontros de Tom Jobim com o poeta e diplomata Vinicius de Moraes no pacato bairro de Ipanema resultaram na canção Garota de Ipanema, uma das mais executadas do planeta – já chegou a ser a música mais tocada no mundo. Foram mais de 170 gravações em várias línguas enaltecendo uma garota de 14 anos – Heloísa Pinheiro – que eles viam passar pelo bar Veloso (hoje Garota de Ipanema) num doce balanço a caminho do mar.

A bossa nova viveu sua infância nas madrugadas. A jornalista Danuza Leão, irmã de Nara e um dos ícones do glamour da vida noturna do Rio na época, se lembra que, muitas vezes, chegava à casa dos pais às 8h da manhã e os amigos de Nara ainda estavam lá. "Para mim, aquilo não tinha importância. Eram só crianças cantando e tocando violão. Meu pai dava liberdade e abria o apartamento, mas não admitia uma gota de álcool. Droga nem existia, eles se alimentavam só de som." Sempre ligada à moda, Danuza reparava na simplicidade dos jovens. "Eles não compravam roupa nem gostavam de dinheiro, só de música." Em 1966, trouxe de Paris para a irmã um vestido prateado para que ela usasse ao interpretar A banda, de Chico Buarque, no Festival da TV Record. "Demorei semanas para convencê-la a usar e, graças a Deus, consegui. Ela ficou linda."

MULHERES DA BOSSA Nara Leão (à esq.), Sylvinha Telles e Elizete Cardoso (à dir.) romperam a tradição artística brasileira na qual as cantoras tinham de ser trágicas para conquistar o público

Bem antes, em 1959, e sem vestido fashion, Nara fez um show, ao lado de João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal, Johnny Alf e outros artistas, no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da Praia Vermelha, no Rio. Segundo o pesquisador de música brasileira Ricardo Cravo Albin, foi "um impacto enorme para a juventude, que estava acostumada a ouvir nas rádios as músicas pungentes cantadas por Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Ângela Maria". Na mesma década, tinha aparecido o rock’n’roll através da música de Bill Halley e seus Cometas e Elvis Presley. "Até então, a maioria dos sucessos tinha a marca do samba-canção e a bossa nova representava um sopro novo, vinha com mais luz, descontração." O pesquisador classifica a nova música como filha do samba. "Nada mais é do que o batuque popular modificado pelo espírito inovador de João Gilberto, que o tornou administrável aos músicos de jazz."

O diferencial, frisa o cantor e compositor Francis Hime, "é a harmonia", embora "o mais comentado fosse a famosa batida de João Gilberto". Mas, para Hime, tudo "foi nascendo" muito antes, nas músicas de Ataulfo Alves, Pixinguinha e Ary Barroso, por exemplo. "Esse movimento foi maturado em décadas. Não nasceu de repente. Concretizou- se, mesmo, nas figuras de Tom Jobim e João Gilberto." Hime se diverte, hoje, ao lembrar do pânico que sentiu quando ouviu a "batida-goteira" de João: "Eu não sabia como tocar aquilo no piano!" Hime não era o único pego de surpresa. Aos poucos, porém, o ritmo foi conquistando espaço e vem sendo fantasticamente reinventado ao longo de cinco décadas. Isso é bossa nova, isso é muito natural.

Colaboraram: Francisco Alves Filho e Natália Rangel

As lendas de João Gilberto

MANIA João gostava de tocar violão no banheiro porque achava que a acústica era melhor

João Gilberto não dá entrevistas e relaciona-se com poucas pessoas, mesmo do meio musical. Por isso, é cercado de lendas. Ao ser perguntado por ISTOÉ sobre a última vez que o viu, Roberto Menescal devolveu: "Ele existe?" O estudioso carioca Sóstenes Pernambuco Pires Barros conta que João morava com quatro amigos no apartamento de Ronaldo Bôscoli, no Rio, dividindo com eles as despesas do supermercado. "João Gilberto só comprava o que ele gostava: tangerina!" Um dia, encantado com uma As lendas de João Gilberto blusa de Bôscoli, disse: "Que suéter bonito, Ronga! Vocês cariocas têm bom gosto. Me empresta?" Não só não devolveu mais o suéter como teve a "carade- pau" de tirar foto com ele para a capa do LP Chega de saudade.

Carlos Lyra diz que o músico sempre foi "esquisitão". E lembra um episódio relacionado com a ojeriza de João a ruídos, passado durante o show que deu no Rio com Menescal e Tito Madi. "O Tito estava ensaiando no camarim dele quando o João foi lá e falou para ele parar de fazer barulho. O Tito não gostou e, depois, foi ao camarim do João e do Menescal tirar satisfação e começou a insultá-lo. O João deixou o violão dele de lado, pegou o do Menescal e tacou na cabeça do Tito. Ele era frio e calculista, pensou bem e pegou o violão do outro para não estragar o dele." Segundo Marco Antonio Bompet, último namorado de Nara Leão, o banheiro foi importantíssimo para João Gilberto concluir sua inovação musical. "Ele passava o dia de pijama tocando violão no banheiro da casa da irmã, no interior de Minas, porque achava que a acústica era favorável." A mania perdurou quando ele foi morar com Bôscoli, em Copacabana. Ali, acrescentou outra esquisitice: cantar no corredor do prédio. E os vizinhos tiveram que se acostumar a vê-lo nas quinas das paredes ensaiando "O pato / Vinha cantando alegremente / Quém! Quém!"

A bossa no tempo

1957

Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sylvia Telles e Luiz Eça fazem shows no Beco das Garrafas, em Copacabana. A casa de Nara Leão, na avenida Atlântica, era o ponto de encontro dos jovens músicos

1958

O LPCanção do amor demais, de Elizete Cardoso, é o marco do início da bossa nova. Tem músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e participação do violonista João Gilberto

1959

Lançamento de Chega de saudade, primeiro LP de João Gilberto. A música-título tem hoje cerca de 100 regravações no Brasil e no mundo

1960

O presidente Juscelino Kubitschek inaugura Brasília. Tom Jobim compõe uma música para a capital, a Sinfonia da Alvorada

1962

Acontece o histórico concerto no Carnegie Hall, em Nova York, com Tom Jobim, João Gilberto, Roberto Menescal, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Chico Feitosa e Sérgio Ricardo

1962

Tom Jobim e Vinicius de Moraes compõem Garota de Ipanema, que ganhou cerca de 170 regravações, interpretadas por Stan Getz, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, entre outros

1962

Tom Jobim, João Gilberto e Os Cariocas apresentam na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, Só danço samba, Samba do avião, Samba da bênção, O astronauta e Garota de Ipanema. 

1963

Gravação do disco Getz/Gilberto, com a participação de Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana. Astrud Gilberto canta Garota de Ipanema, que se torna um grande sucesso 

1963

Carlos Lyra lança Depois do carnaval

1965

Vinícius de Moraes e Edu Lobo compõem Arrastão, cançãosímbolo do fim "oficial" da bossa nova 

 

 

 

1967

Frank Sinatra grava com Tom Jobim o disco Francis Albert Sinatra e Antônio Carlos Jobim, que incluiu The girl from Ipanema, How insensitive, Dindi, Quiet night of quiet stars