Podem-se fechar os olhos e tapar os ouvidos, mas eles insistem que têm algo a dizer. Na quinta-feira 7, pelo décimo segundo ano consecutivo, manifestantes organizados pela Igreja católica realizaram o Grito dos Excluídos, um gigantesco e pacífico protesto em que se juntaram reivindicações legítimas e discutíveis, ponderadas e francamente radicais. A maior concentração popular aconteceu na praça da Sé, centro da cidade de São Paulo. Simultaneamente, houve marchas, caminhadas e concentrações em cerca de mil cidades do País.

O grande mérito do Grito, mais uma vez, foi o de tocar em questões que, incômodas, não querem calar. Uma delas é a lembrança de que quatro milhões de famílias brasileiras vivem sem nenhum tipo de remuneração. Outra mostra que, dos 40 milhões de domicílios registrados pelo IBGE, dez milhões são considerados insalubres e impróprios para a sobrevivência humana. Destes, dois milhões não têm luz elétrica.

“A extensão, neste governo, da política econômica anterior nos enche de frustração e indignação”, afirma o padre diocesano José Aécio Cordeiro, um dos principais articuladores da manifestação. “Não somos contra Lula, mas somos contra essa política econômica.” A flagrante contradição está contemplada na primeira reivindicação do movimento: a chamada democracia direta. Apoiado por entidades como o MST e seu correlato Central de Movimentos Populares, que já promoveu invasões a edifícios urbanos, o Grito defende ações que muitas vezes batem de frente com a legislação e correm à margem da ação de governo. No entender deles, com Lula na Presidência, apesar da política econômica, essa democracia direta tem mais campo para florescer. Por influência do MST, o movimento deste ano levantou a bandeira de “reestatização da Vale do Rio Doce”. Nos últimos tempos, nenhum protesto expressivo havia sequer resvalado nesse tema.

Exageros à parte, o Grito explicitou a antiga contradição na Igreja Católica brasileira, historicamente dividida entre “progressistas” e “conservadores”. Os primeiros lideraram o protesto da semana passada. A outra ala esperou a onda passar. Os excluídos da sociedade, a seu modo, continuam querendo entrar.

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