Comportamento

O conto e o vigário

A polícia desconfia da acusação de pedofilia contra o padre Júlio Lancelotti e espera a prisão do homem que o extorquia para esclarecer o caso

Esta é mais uma daquelas histórias policiais que entopem publicações, levando muitos a divagações inconclusivas. Há anos, o padre Júlio Lancelotti – tido como um dos mais respeitáveis críticos da violência praticada contra menores e adolescentes – vinha bancando financeiramente um ex-traficante de drogas mirim. Consta no inquérito policial 243/07 que o religioso dava o pão e pagava a casa e a maioria dos confortos de Anderson Batista, um ex-interno da Febem que foi parar atrás das grades aos 15 anos de idade. O tempo passou, o rapaz saiu da Febem e a amizade entre os dois se aprofundou. Batista cresceu e casou, mas era o religioso quem pagava o aluguel do casal. Segundo o inquérito, o padre Lancelotti dispensava cada vez mais atenção ao seu pupilo.

Em 2005, o religioso resolveu dar mais uma mãozinha ao amigo, na época desempregado: desta vez, ele lhe comprou um carro. Mas não um carro qualquer: da conta corrente do vigário saíram R$ 30 mil, mais 20 prestações de pouco mais de R$ 2 mil por mês, para a aquisição de um Mitsubishi Pajero. Detalhe: o carro foi registrado em nome da mulher de Batista, Conceição Eletério.

Mas, por razões ainda desconhecidas, em setembro último a relação do padre com o rapaz se deteriorou a tal ponto que virou caso de polícia. Júlio Lancelotti foi dar queixa à polícia: “Estou sendo vítima de extorsão”, contou Lancelotti ao delegado André Luiz Pimentel, da 5ª DP de São Paulo. Os investigadores acharam a história meio esquisita.

– Por que, além do dinheiro, o sr. ainda lhe comprou um carro?, quis saber o delegado.
– Porque ele ameaçou me denunciar à polícia e à imprensa como pedófilo, disse Lancelotti.
– Mas o sr. se envolveu com meninos?, perguntou o delegado.
– Não. Era tudo mentira, respondeu o padre.– E por que só agora o sr. resolveu falar?
– Queria primeiro tocar-lhe o coração, argumentou Lancelotti.

De fato. Numa carta dramática, o religioso tenta convencer seu ex-protegido a dar um fim à suposta extorsão. “Te mando o que é possível, chega por favor, não tenho mais como (sic)”, escreveu Lancelotti. Investigado por enriquecimento ilícito, Batista está foragido com a mulher, acusada pela polícia de tráfico de drogas.

Na terça-feira 23, a Polícia Civil de São Paulo abriu um novo inquérito; desta vez para apurar uma denúncia de que Lancelotti abusou sexualmente de um menor de idade. A investigação foi aberta pelo depoimento de uma ex-funcionária da ONG Casa Vida 2, entidade fundada pelo padre, que cuida de meninos soropositivos. A mulher, não-identificada, afirmou no inquérito – que corre em segredo de Justiça – que entre o final de 1999 e o ano de 2000, o padre teria praticado “atos libidinosos” contra um adolescente atendido na instituição. Segundo o delegado Pimentel, a mulher contou ter visto o vigário acariciando o jovem. “Ela disse que todos os funcionários comentavam supostos casos do padre com menores, mas que ela nunca acreditou até testemunhar um deles”, conta o delegado Pimentel. “Apenas abrimos o inquérito. Não vamos condenar o padre”, diz o delegado-assistente Marco Antonio Bernardino.

Assim como no conto do vigário, a história da ex-funcionária tem pontos obscuros. Os policiais querem saber por que ela não denunciou Lancelotti antes. “Ela é evangélica, então por que não quereria tirar proveito da história?”, questiona um investigador. Outras interrogações ainda carecem de respostas: de onde o padre, funcionário da Febem com salário de R$ 2.330 mensais, mais ajuda de R$ 1.000 de sua paróquia e outros R$ 1.000 de sua ONG, teria tirado dinheiro para comprar um Pajero para seu protegido?