Cultura

Caótica e sedutora

No filme Jogo subterrâneo, Maria Luisa Mendonça mostra por que é considerada uma das melhores atrizes de sua geração

A carioca Maria Luisa Mendonça, 34 anos, é dona de uma galeria de personagens de fazer inveja a qualquer atriz. Na televisão, estreou em horário nobre na Rede Globo como a hermafrodita Buba, da novela Renascer. Isso ainda em 1993, tempo em que os programas sensacionalistas não haviam bombardeado os canais com esse assunto e o telespectador se chocava com mais facilidade. Em seguida, encarnou Letícia, jovem que nutria um amor platônico pela prima na minissérie Engraçadinha, de Nelson Rodrigues. Aliás, o universo rodrigueano é uma constante na vida da atriz. No teatro já viveu a Alaíde de Vestido de noiva e oito personagens no monólogo Valsa nº 6, dirigida por Moacyr Góes – que também a dirigiu em Romeu e Julieta, no qual interpretou a mocinha do romance mais trágico da literatura. Agora, na telona, é a vez de Ana, de Jogo subterrâneo, do diretor Roberto Gervitz (estréia no dia 1º de abril nos cinemas). “A Ana é feminina e misteriosa. Tinha receio de fazer papéis que exigissem nu e sensualidade, mas cheguei a um ponto em que minha trajetória permite isso”, explica Maria Luisa.

Inspirado no conto Manuscrito achado num bolso, do argentino Julio Cortázar, Jogo subterrâneo conta a história de Martín (Felipe Camargo), um pianista que sonha encontrar a mulher de sua vida e para isso inventa um jogo cujo campo de batalha é formado pelo emaranhado das linhas do metrô. O filme segue morno até que Ana surge trazendo o caos ao viver ao lado do perturbado Martín um romance tortuoso, que não oferece nenhuma expectativa de final feliz.

“Maria Luisa é um vulcão, a melhor atriz de sua geração”, gaba-se Gervitz, que teve de negociar com a atriz até que esta concordasse em fazer a Ana. Inicialmente, Maria Luisa seria a tatuadora Tânia (Daniela Escobar). Mas assim que leu na sinopse a parte de Ana pensou: “É ela!”, tratando de convencer Roberto (Gervitz) a entregar-lhe o personagem. A química produzida pela dobradinha Maria Luisa-Gervitz poderá ser vista e avaliada mais uma vez na minissérie Carandiru, que deverá estrear em junho, na Rede Globo. Assim como no filme homônimo de Hector Babenco, inspirado no romance de Drauzio Varella, a atriz encarna a bagaceira Dalva, uma das mulheres do presidiário Majestade. O próximo desafio que Maria Luisa deverá enfrentar será representar a judia russa Berta Bronstein na série Mandrake, produzida pela HBO, que traz Renata Sorrah no elenco. “Acabei de ler A grande arte, do Rubem Fonseca, criador do personagem com nome de mágico, para entender melhor a Berta”, conta a atriz. Além dessa participação, Maria Luisa planeja realizar um antigo sonho: atuar em uma peça dirigida pela colega Denise Stoklos.

Para viver a anti-mocinha de Jogo subterrâneo, Maria Luisa buscou inspiração em algumas das garotas da academia de ginástica que frequenta. “Observava o olhar daquelas meninas, a mania do culto ao corpo”, confessa. E não são só as pessoas que inspiram a atriz. Os movimentos suaves de outra Ana de sua carreira, do filme Coração iluminado, de Hector Babenco, no qual a personagem tinha surtos e pensava ser Anne Frank, foi extraído de um móbile do artista francês Henri Matisse que enfeitava o berço de sua filha, Júlia – hoje com oito anos. A sofisticação da lésbica Letícia, de Engraçadinha, foi herdada da ruiva fatal Jessica Rabbit, do desenho animado Uma cilada para Roger Rabbit. Já para interpretar Buba, a famosa hermafrodita, Maria Luisa espelhou-se na atriz alemã Marlene Dietrich.

Animação, arte dramática e artes plásticas são alguns dos inúmeros ingredientes que a atriz aprendeu a usar em seu caldeirão cultural. Formada pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Maria Luisa também estudou no Teatro Tablado e frequentou cursos de expressão corporal na França, na Escola de Teatro Jacques Lecoq. “Não me acho perfeccionista, mas sou uma atriz preparada para o erro”, raciocina. Erros estes que podem vir do excesso de papéis que acumula devido ao envolvimento simultâneo com teatro, cinema e tevê. O mais recente deles aconteceu em 2003, quando filmava Carandiru ao mesmo tempo que participava do espetáculo Os sete afluentes do rio Ota, uma peça teatral de cinco horas na qual interpretava quatro papéis. “Num dos momentos da peça, minha personagem, a Hanako, dizia ‘aqui cavei um pequeno lago.’ Como eu estava em plena filmagem de Carandiru, troquei o ‘lago’ por ‘túnel’. O bom foi que ninguém percebeu”, relembra aos risos.