Entrevista

Ana Cristina Pimentel

“Tenho medo que meus filhos vinguem a morte da irmã”

“Tenho medo que meus filhos vinguem a morte da irmã”

Um ano depois de perder a filha, morta pelo ex-namorado, a mãe de Eloá conta que a família ainda tenta superar a tragédia

Carina Rabelo
Edição 04/11/2009 - nº 2086


Há um ano, Ana Cristina Pimentel, 43 anos, viu sua família se dilacerar em rede nacional. Primeiro, assistiu à única filha, Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, sofrer o mais longo caso de cárcere privado do País – 100 horas sob o jugo do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes, 23 anos, que prendeu a adolescente em sua própria casa.

Depois, ouviu, em desespero, dos médicos que operaram a jovem baleada na cabeça pelo sequestrador que ela havia morrido – e ainda teve presença de espírito para autorizar a doação dos órgãos. Ainda sob o torpor da incredulidade e do sofrimento lancinante, presenciou o marido, Everaldo Pereira dos Santos, se tornar um foragido da Justiça, acusado de homicídio pela polícia de Alagoas. Após meses sobrevivendo à base de remédios, Ana Cristina, que é evangélica, tenta resgatar o que lhe restou e reconstruir a vida. Mudou do apartamento onde sua filha foi torturada e morta e mora com os outros dois filhos em uma casa na cidade de Santo André (SP).

Retomou o trabalho como cozinheira de uma creche há quatro meses e afirma não ver o marido há um ano, apesar de defender, com ardor, sua inocência. Cerca de dez quilos mais magra e muito abatida, reúne forças para enfrentar o julgamento de Lindemberg, marcado para o próximo ano. Diz não ter raiva do algoz de Eloá, mas teme pela ira dos filhos, que ainda não superaram a tragédia.

ISTOÉ

Como se sente um ano após a morte de Eloá?


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Ana Cristina

No dia em que completou um ano, fiquei sedada. O assunto voltou à televisão, aos jornais. Passei dois dias com medicação, não consegui ir ao trabalho. Superar, a gente não supera, mas encontro forças na igreja (ela frequenta a Congregação Cristã no Brasil), no meu trabalho e cuidando da minha nova casa. A terapia também me ajuda muito. Fiquei oito meses afastada do trabalho, fazendo tratamento. Acordava dopada, dormia dopada, não comia, perdi dez quilos. Foram os irmãos e as irmãs da igreja que me ajudaram, fazendo orações para mim. Ainda hoje tomo antidepressivos. Foi importante sair da casa antiga (onde ocorreu o sequestro). Não conseguiria viver lá, preferia ir para debaixo da ponte. Em dezembro, decidi me mudar. Minha família era muito unida e está separada. Ainda estamos perdidos. Só agora, estou conseguindo me acostumar, mas evito ficar em casa.

ISTOÉ

Como a sra. lida com as recordações?

Ana Cristina

Não tem sido difícil, não sofro com as coisas dela. Difícil mesmo é não ter mais ela. Guardei muitas coisas, outras dei ou joguei fora. As roupas, a carteira, as bolsas preferidas e um sapato que ela adorava vão ficar para sempre. Além das fotos. Em cada parte da minha casa tem uma foto grande dela

ISTOÉ

Como os filhos da sra. estão reagindo?
 

Ana Cristina

Desde a tragédia, Ronickson, o meu mais velho, de 22 anos, não fala no assunto. Foi ele que aguentou toda a barra logo depois que aconteceu. Douglas, o mais novo, de 15 anos, ficou como eu, doente. Faz tratamento, frequenta psicólogo.

O Douglas está arrasado, pois era muito próximo à irmã e muito amigo do Lindemberg. Ainda está muito revoltado, não esquece. Emagreceu, perdeu o gosto pela escola, pelo futebol. Ele participou da negociação e teve a palavra do Lindemberg de que tudo acabaria bem. A decepção foi muito grande. Tenho medo de que, quando o Lindemberg for solto, os meus filhos vinguem a morte da irmã. Por isso, sempre falo para eles que vingança não leva a nada. Se tiver que acontecer alguma coisa, que não seja da nossa parte.

ISTOÉ

No velório, a sra. comentou que teria perdoado Lindemberg. Perdoou mesmo?
 

Ana Cristina

Perdoar é uma palavra muito forte. Só quem perdoa é Deus. Não tenho mágoa dele, só não esperava que ele fizesse isso. Ele era como um filho. O amor que ele tinha dentro do meu lar, não tinha na casa dele. Espero a justiça do Senhor. Acho que é melhor para ele que fique preso por muitos anos. Se sair, vai ser morto. Muita gente do Brasil inteiro manda cartas e liga para a minha casa, se oferece para matá-lo. Tenho dó. Ele está mais seguro lá dentro, pelo menos até o julgamento. Quando for condenado, vai para a cela coletiva. Aí, a história muda. Mas não desejo mal. Sou evangélica, não alimento raiva de ninguém.

ISTOÉ

Após o término do relacionamento com Lindemberg, Eloá já teria comentado que ele estava muito agressivo e que tinha medo. A sra. pensou em dar queixa à polícia?
 

Ana Cristina

Eu queria dar queixa. Aí falei com o meu marido e ele achou melhor que conversássemos antes com o Lindemberg. A gente pediu para que ele desse um tempo e que conversaríamos com ela para ver se tinha volta. Eu disse para ele que ela era muito nova e que, provavelmente, teria outros namorados, que ele não seria o único. Aí, a cabeça dele virou.

Ele sempre ligava para mim. Dizia que iria fazer uma besteira, só que eu pensava que era com ele. Aí eu dizia:"Não faz, a gente te ama, tudo vai ser resolvido." Ele sempre me escutava.

ISTOÉ

A Eloá estava interessada em outra pessoa?

Ana Cristina

Não, ela amava o Lindemberg. Ela terminou porque ele tinha muito ciúme. Ela estava decidida, fazendo quatro cursos, vivendo a vida dela. Mas no diário só falava dele. Foi seu primeiro e único namorado.

ISTOÉ

A sra. tem visto a Nayara?
 

Ana Cristina

Não; nos encontramos apenas duas ou três vezes na rua. Ela nunca me procurou, nunca me disse o que aconteceu. Não sei se ela tem medo dele, não sei o que é. Ela nem era tão amiga assim da minha filha, se conheciam fazia apenas um mês. Eloá gostava de todo mundo, nunca comentou da Nayara como alguém especial, tinha mais intimidade com outras garotas. O início da amizade delas coincidiu com o término do namoro com Lindemberg. Ele acreditava que a Nayara virou a cabeça da Eloá contra ele, tinha muita raiva dela. Acho que ela pode ter influenciado sim. Não sei o que as aproximou tanto, mas eu agradeço a ela por ter tido a coragem de entrar lá. Ela poderia ter sido morta. Não sei se foi por amor à amiga que ela entrou.

Talvez tenha sido pela falta de noção do perigo. Elas não sabiam o quanto ele é maquiavélico.

ISTOÉ

A sra. acredita que ele planejou tudo ou agiu por impulso?
 

Ana Cristina

Ele planejou tudo. Antes do sequestro, levou meu filho Douglas para a represa e tirou o celular. Falou que ia comprar um lanche e que era para ele ficar esperando. Meu filho ficou isolado, teve que voltar a pé e levou 40 minutos para chegar em casa. Foi o tempo de ele agir. Esse lado frio e calculista era completamente desconhecido para mim. Ele sempre foi caladão, possessivo e ciumento, mas eu achava que ele era uma pessoa boa.

Encontrei a mãe dele numa ocasião, mas ela correu de mim. Ela não olha para mim nem para o meu filho.

ISTOÉ

Por que a sra. acha que ele levou três dias para executar o plano?
 

Ana Cristina

Não sei, acho que ele queria torturá-la. Ele maltratou muito a minha filha, sabia que a casa estava com feira e que tinha um mês para ficar lá dentro, sossegado. Ele queria ficar com elas até cansar. Achou que se tornaria um ídolo. Não entendo a cabeça dele.

ISTOÉ

Tem vontade de procurá-lo e perguntar?

Ana Cristina

Tenho. Na audiência, queria que ele olhasse nos meus olhos para perguntar. Mas ele não teve coragem. Nem eu. Não tenho coragem de ir ao presídio porque não o conheço mais, não sei quem ele é. Mas acredito que as pedras rolam e um dia se encontram. A gente ainda vai se encontrar.

ISTOÉ

A sua filha se tornou uma mártir da violência após um sequestro traumático, transmitido em rede nacional. Como se sente diante dessa exposição?
 

Ana Cristina

Me sinto bem pela solidariedade, pelas coisas boas que o povo faz, mas não gosto do espetáculo. Quero poder ajudar os outros. Como não tenho condições financeiras, que seja com a minha história. Mas não quero participar de aglomeração e eventos em nome da Eloá, me sinto usada.

ISTOÉ

A sra. acompanha as notícias sobre o caso?
 

Ana Cristina

Algumas coisas eu vejo, outras, evito. Para mim, nada me surpreende. A única imagem que ainda mexe comigo é a foto da janela. Fico arrasada quando vejo aquilo na tevê ou no jornal. Porque foi o momento em que ela falou comigo. Foi a última vez. Ela disse: "Calma, mãe, vai dar tudo certo." Aquilo me arrasa.

ISTOÉ

A sra. tem visto o seu marido?
 

Ana Cristina

Não, desde o segundo dia do sequestro. Ele tem que se manter escondido até que a situação se resolva. Também não sei onde ele está. Não quis saber e nem o advogado quer que eu saiba. Tenho certeza que, um dia, o meu marido poderá cantar o hino da vitória, pois ele é inocente. Toda essa história contra ele é mentira. Quando se é policial, muita coisa cai em cima. Quero ver a prova. Minha filha eu não posso ter mais, mas o meu marido vai voltar para mim. Livre de tudo.

ISTOÉ

Foi por causa dessas acusações que vocês deixaram Alagoas há 16 anos?
 

Ana Cristina

Não. Saímos porque não tinha emprego e eu queria dar uma vida melhor para os meus filhos. Quando chegamos aqui, a Eloá tinha dois meses. Estávamos programando uma viagem de toda a família para Alagoas agora em janeiro. Ela estava empolgada em voltar para lá. Depois do que aconteceu, tenho pensado em voltar a morar no Nordeste, onde está toda a minha família.

ISTOÉ

O seu ex-marido Ronaldo Jorge dos Santos, pai do seu filho mais velho, teria lhe acusado de sequestrar o filho de vocês e trazê-lo sem autorização para São Paulo. Isso aconteceu?
 

Ana Cristina

Não. Ele sabia que eu vinha e sempre teve contato com o filho. Com frequência, Ronickson passava uns tempos lá com ele. As pessoas inventam muitas coisas.

ISTOÉ

A sra. se tornou um ícone na Campanha de Doação de Órgãos. Como foi a experiência de ajudar tantas pessoas?

Ana Cristina

Estava transtornada, saí aos gritos do hospital. Quando cheguei em casa, o meu filho mais velho disse: "Mãe, a Eloá vai ficar muito feliz se você doar os órgãos dela." Na madrugada acordei e decidi autorizar a doação. Eu não sabia que era tão sério, que tinha tanta gente à espera de um transplante. Hoje me sinto feliz. Minha filha se foi, mas ficou a moça do coração, que só tinha seis meses de vida. Ficou o rapaz que recebeu os rins e pâncreas – ele me liga sempre para saber como estou. Ficou o senhor que recebeu as córneas, que me agradece chorando

Não que eu me sinta especial pelas doações. Foi um ato de amor que beneficiou umas sete pessoas. Me ajudou a sorrir depois de tanta tristeza.

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