Economia & Negócios

Freio chinês

Como a crise da segunda maior economia do planeta pode atrapalhar a retomada do crescimento no Brasil e provocar estragos nos países emergentes

Freio chinês

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Os reveses de 2015, quando o mercado de ações perdeu mais de um terço de seu valor, já mostravam que 2016 não seria o melhor ano para a China. Na segunda-feira 4, a queda nas bolsas de valores de Xangai e Shenzhen foi tão grande que, pela primeira vez na história, as negociações foram suspensas para evitar um tombo maior. Como resultado, os preços de commodities como petróleo e minério de ferro caíram. No Brasil, o dólar ultrapassou a marca dos R$ 4. Na quinta-feira 7, um novo susto. Depois de o banco central chinês desvalorizar novamente o yuan, puxando o índice Xangai para um recuo de 7%, o pregão durou apenas meia hora e foi o mais curto em 25 anos. No mesmo dia, o governo eliminou o recém-implementado mecanismo de “circuit breaker” (acionado automaticamente para conter quedas bruscas de ações), alegando que ele mais atrapalha do que ajuda. É mais um sinal de que Pequim tem tropeçado na condução do chamado “pouso suave” de sua economia. Enquanto segunda maior do planeta, a China foi responsável por impulsionar o crescimento global nos últimos anos e o consumo de matérias-primas, sobretudo de países emergentes como o Brasil. Um freio chinês pode acelerar a marcha a ré por aqui.

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Chinês observa as ações em queda na Bolsa de Xangai: o período de pujança ficou para trás

Num cenário ainda mais pessimista do que o esperado pelo mercado, as ações voltaram a cair porque a indústria chinesa apresentou contração em dezembro pelo décimo mês seguido. Com as exportações em queda, a demanda doméstica menos aquecida e o setor de construção civil com altos estoques, as fábricas reduziram a compra de matérias-primas e começaram a dispensar funcionários. Em relatório, o economista-chefe do grupo Caixin Insight, He Fan, afirmou: “As forças estimulando a recuperação econômica encontraram obstáculos e a economia corre mais riscos de se enfraquecer.” Entre as intervenções do governo nos últimos meses, que têm se mostrado pouco eficazes, estão a criação de um fundo bilionário de estabilização e a proibição temporária de novas aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês). Na semana passada, a queda nas bolsas fez algumas companhias chinesas impedirem grandes acionistas e executivos de vender suas ações nos próximos seis a 12 meses.

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As notícias negativas surgem num momento em que os investidores procuram menos risco e buscam refúgio no dólar, amparados pelo movimento gradual de alta dos juros que o Federal Reserve, banco central americano, começou no fim do ano passado. Soma-se a isso a desconfiança dos agentes econômicos de que o país esteja crescendo menos do que o governo diz. Alguns analistas estimam que, no quarto trimestre de 2015, o Produto Interno Bruto tenha desacelerado para 6,8%, abaixo dos 6,9% do trimestre anterior, que já havia sido a menor taxa desde 2009. Enquanto os dados oficiais não saem, a verdade é que a economia chinesa está mudando. Nesse novo ciclo, ela dará mais ênfase ao setor de serviços. Caberá ao mundo se adaptar.

Foto: REUTERS/Kim Kyung-Hoon