Cultura

Como uma flecha

Claudia Andujar ganha exposição permanente no Instituto Inhotim. A força e a radicalidade de suas imagens alertam sobre a ameaça que ainda ronda os Yanomami

Como uma flecha

O COMEÇO

"Ela veio de longe. Chegou aqui no Brasil, na nossa maloca, e ensinou o caminho pra defender nossos direitos e salvar o povo Yanomami do homem-máquina da cidade. Ela foi como uma mãe, me ensinando a andar direito. Ela me deu a luz da sabedoria”. Com essas palavras o xamã Davi Kopenawa Yanomami, a maior liderança política da etnia indígena amazônica, saudou a amiga Claudia Andujar, 84, durante o evento de abertura de um novo pavilhão no Instituto Inhotim (MG) dedicado ao trabalho da artista junto aos povos Yanomami. A Galeria Claudia Andujar foi inaugurada em 26 de novembro em clima de festa, com ritual de pajelança, lançamento de documentário e um seminário que reuniu índios, antropólogos, militantes indígenas e curadores de arte contemporânea. Há motivos de sobra para comemorar. São quase 40 anos de convivência, ativismo e dedicação, desde que ela criou, em 1978, junto ao missionário Carlo Zacquini, a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), responsável pela campanha de conscientização das ameaças sofridas pelos índios no contato com a cultura branca.

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O COMEÇO
Retrato de criança indígena que estampou a capa da revista ‘Realidade’, em 1971 

“Na vida tive dois momentos importantes. Um foi quando conseguimos a demarcação da terra Yanomami, em 1992. O outro está acontecendo aqui”, disse Claudia Andujar para a plateia mista de índios e visitantes de vários estados brasileiros no seminário Cosmovisão Yanomami, no dia seguinte à inauguração. Com 1600 m2, a galeria abriga mais de 400 imagens realizadas pela artista entre 1970 e 2010 na Amazônia – grande parte delas inéditas – adquiridas pela coleção do Inhotim. “O acervo conta a história do envolvimento de Claudia com os Yanomami e com a paisagem amazônica. Mostra como seu trabalho é inovador em termos do paradigma de uma fotografia realista”, diz Rodrigo Moura, diretor artístico do Inhotim e curador da mostra, à Istoé.

O ineditismo de grande parte das imagens em exposição deve-se ao fato de muitas terem sido realizadas com fins editoriais para revistas como Realidade, Claudia, LIFE e The New York Times Magazine e, portanto, publicadas em número restrito. Com o trabalho do curador Rodrigo Moura, ao longo de 5 anos, as séries foram revisitadas e reorganizadas em conjuntos de imagens, ampliando ao espectador a percepção do contexto e que foram criadas. À parte dos retratos, que expressam a intimidade que a fotógrafa atingiu com os interlocutores da floresta, são de particular impacto as fotografias de rituais xamânicos. Em séries como O Extremo, Êxtase, Sonhos Voados e Dança das Mulheres, todas de 1974 e inéditas, a artista demonstra, além da subversão do realismo fotográfico, um grau de envolvimento e confiança nunca vistos antes.

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ESPELHO
Acima e abaixo, integrantes de tribos retratadas pela fotógrafa
foram conhecer a mostra permanente

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A exposição está dividida em três grandes grupos de imagens que mostram o caráter essencialmente humanista da vida e da obra de Andujar. Se nos retratos e nas imagens de natureza a cultura Yanomami é representada em seu estado puro, no segmento Contatos ela documenta os estragos produzidos pela mineração, o extrativismo e a construção de estradas, que levou epidemias, violência e destruição ao coração da floresta. O ápice dessa fase é a série Marcados (1981-83), parte de um trabalho da CCPY com a participação de médicos, que percorreu a totalidade do território indígena. A função de Claudia era retratar cada um dos pacientes, identificados por números. “Os judeus eram marcados com a estrela de Davi para morrer. Eu estava marcando os Yanomami para que eles sobrevivessem”, conta ela. 

Andujar nasceu na Suíça, viveu na Hungria e passou a adolescência fugindo da perseguição nazista, que exterminou sua família por parte paterna. Chegou ao Brasil em 1955 e, à Amazônia, em 1970, enviada para uma reportagem. Na longa permanência entre os Yanomami, ganhou o apelido de “não-indígena”, ou “estrangeira”. Agora a estrangeira apresenta o Brasil aos brasileiros. O rótulo de fotógrafa não dá conta de sua trajetória. Mas suas “imagens amorosamente caçadas na floresta” – como definiu o militante Ailton Krenak – , em exposição permanente no lindo pavilhão construído no Inhotim, vão funcionar como uma flecha, defendendo a integridade e a vitalidade dos povos amazônicos.

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XAMÃ
Claudia Andujar: uma vida dedicada a tribos indígenas remotas

“O que eu quis dizer é quem são os Yanomami. Essa mensagem vai ficar aqui para sempre”, diz ela.

Fotos: Paula Alzugaray; Daniela Paoliello; William Gomes 

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