Artes Visuais

Universos em reencontro

Figuração e abstração se entrelaçam em individual do pintor Paulo Pasta, que tem como campo de exploração as paisagens do interior paulista

Universos em reencontro

Paulo Pasta – Há um fora dentro da gente e fora da gente um dentro/ Galeria Millan e Anexo Millan, SP/ até 19/12

Na Galeria Millan, uma nova série de pinturas geométricas em grande dimensão. Em outro edifício, a cem metros dali, no recém inaugurado Anexo Millan, ampliação da sede original, estão instaladas algumas dezenas de pinturas de paisagens. Embora fisicamente separadas, Paulo Pasta garante que não há uma distância real entre as duas séries expostas em sua nova individual “Há um fora dentro da gente e fora da gente um dentro”. Assim como no verso emprestado do poeta mineiro Francisco Alvim – que dá título à exposição –, na obra do pintor paulista as linguagens da figuração e da abstração estão intimamente entrelaçadas e mutuamente comprometidas.

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MEMÓRIA
Pasta retorna ao gênero da paisagem 3 anos depois 

 

“Toda arte é abstrata”, diz Pasta à Istoé. “Na pintura, a paisagem é filtrada pela memória, é um deslocamento do real, um artifício. O que temos na tela é um rumor do mundo, uma rememoração”, diz o pintor, que retorna agora ao gênero da paisagem após 30 anos de pesquisa no campo da abstração geométrica.

Segundo Pasta, o processo de leitura do mundo realizado durante o exercício da pintura figurativa repete-se na composição de seus esquemas geométricos. Cada um dos elementos estruturais que compõem suas telas – as ogivas, as colunas, as vigas, os cacos e as cruzes –, também são memórias. Embora regidos por um pensamento racional, são sempre rumores do mundo.

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RUMOR
Telas geométricas são esquematizações do mundo

Outro fator que amalgama as pinturas abstratas e as paisagens do interior paulista que Paulo Pasta reencontra é a atmosfera, propiciada pela cor. A luminosidade do céu e das nuvens, ou o escurecimento da terra, pintados de acordo com a hora do dia, se refletem na vibração cromática das cruzes e dos vácuos geométricos.

Até mesmo um novo tema que surge nas geometrias, a linha diagonal – decorrente da investigação formal que o artista vem realizando sobre o tema da Anunciação, sintetizando as representações renascentistas da anunciação do anjo à Virgem Maria –, guarda uma relação forte com os eventos celestiais, que se precipitam do céu à terra. Tudo amanhece, entardece e anoitece na pintura ambiental de Paulo Pasta.

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Fotos: Everton Ballardin