Medicina & Bem-estar

O novo drama nordestino

A região vive um aumento inédito de casos de microcefalia que pode ser causado pelo zika vírus. E o temor é o de que a doença se espalhe pelo País

O novo drama nordestino

ANGÚSTIA

De janeiro deste ano até a terça-feira 17, 399 bebês nordestinos nasceram com uma grave doença cerebral. O tamanho do cérebro dessas crianças no momento do nascimento foi inferior aos 33 centímetros. O normal é que ele meça de 34 a 37 centímetros. A característica é a principal marca da microcefalia, enfermidade congênita que na maioria dos casos leva ao retardo mental. O número de casos – registrados em sete Estados do Nordeste – é assustador quando comparado à média anual do País, que até agora variava de 100 a 120.

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ANGÚSTIA
Em Pernambuco, uma mãe e seu bebê esperam para ser avaliados.
As crianças nascem com o cérebro menor do que o normal

O que pode estar por trás desse novo drama nordestino é a infestação da região pelo zika vírus. O agente é transmitido pelo Aedes Aegypti, o mesmo que propaga o vírus da dengue. Na semana passada, pela primeira vez na história da ciência, ele foi associado à malformação fetal. Sabia-se que o zika causava complicações no sistema nervoso central, mas sua capacidade de provocar seqüelas em fetos nunca havia sido avaliada.

A forte evidência de que isso é possível ficou constatada a partir da detecção do vírus no líquido amniótico de duas gestantes que tiveram contato com o agente infeccioso e cujos bebês nasceram com microcefalia. A pesquisa foi feita no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. “A descoberta contribuirá para o entendimento desta questão emergente de saúde pública”, afirma a virologista Ana Maria Bispo, pesquisadora do Laboratório de Flavivírus do instituto.

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PIONEIRO
No Instituto Oswaldo Cruz, cientistas detectam o vírus
no líquido amniótico pela primeira vez na ciência

O rápido crescimento do número de casos levou os cientistas a suspeitar da relação entre o zika e a doença. “O padrão de disseminação sugeria ser algo transmitido por vírus”, explica o médico Carlos Brito, pesquisador da Fiocruz e integrante do comitê do Ministério da Saúde criado para acompanhar e traçar opções de combate ao problema. Depois da confirmação da presença do zika no líquido amniótico, o ministério o apontou como a principal hipótese para a súbita e rápida elevação de casos.

O achado colocou autoridades e especialistas em alerta. Como o zika é transmitido pelo Aedes Aegypti e o mosquito está espalhado em todo o País, o temor é o de que os casos de microcefalia se multipliquem também. “O zika tende a atingir os outros Estados. É um risco real”, diz Brito.

 

Para o médico Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis, do Ministério da Saúde, a situação é de fato de extrema gravidade. “Mas não é possível prever como será a circulação do vírus no próximo verão”, diz. Segundo ele, as secretarias estaduais de todo o País já foram chamadas a participar de uma força-tarefa cujo objetivo é reduzir a proliferação do Aedes e, assim, diminuir os riscos. Além disso, Maierovitch e Brito recomendam que as mulheres de Pernambuco – Estado mais atingido – adiem planos de gravidez.

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Fotos: Edmar Melo/JC Imagem; Gutemberg Brito/IOC/Fiocruz.