Brasil

Ruivinha generosa

Revelação de propina de US$ 15 milhões pode levar à anulação da compra pela Petrobras da enferrujada Pasadena. Investigação da PF levanta suspeita sobre outras refinarias adquiridas pela estatal em 2008

Ruivinha generosa

No início do ano, a Polícia Federal enviou ao juiz Sérgio Moro um pedido para ter acesso a e-mails trocados entre o ex-diretor internacional da Petrobras Nestor Cerveró e seu auxiliar Agosthilde Mônaco de Carvalho. Ambos estavam lotados na Diretoria Internacional em 2006, quando a estatal adquiriu a refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Embora estivesse longe dos holofotes, ao contrário de Cerveró, Mônaco exercia um papel fundamental no órgão: era um dos técnicos encarregados de avaliar o empreendimento. Após uma série de viagens aos EUA, o engenheiro elétrico concluiu que a negociação deveria seguir adiante. Por isso, vasculhar as conversas eletrônicas da dupla conferia grande potencial elucidativo. Moro concordou com a quebra do sigilo telemático e a iniciativa contribuiu para precipitar uma nova delação premiada. Ao negociar com o Ministério Público Federal um acordo para colaborar, Mônaco ajudou a traçar o mapa da propina. Até aqui, o organograma indica a distribuição de US$ 15 milhões, repassados a executivos da Petrobras e operadores. “Foi um péssimo negócio com muitos beneficiários (de propina)”, disse o procurador regional Carlos Fernando dos Santos Lima, integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. “Quem sabe, com essas provas, consigamos talvez anular a compra.”

Comprada em abril de 2008 por US$ 71 milhões, numa outra
operação questionável, a refinaria Nansei, em Okinawa,
Japão, também entra no radar da PF

O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que a compra da refinaria resultou em prejuízo de quase US$ 800 milhões, contrariando o discurso dos ex-presidentes da estatal Maria Graça Foster e Sérgio Gabrielli de que fora um bom negócio. A Petrobras pagou à Astra Oil, antiga proprietária, US$ 360 milhões por 50% da refinaria, valor bem superior aos US$ 42,5 milhões que a empresa desembolsara um ano antes pela compra do empreendimento inteiro. Em 2012, após uma briga judicial, a estatal ainda foi obrigada a adquirir o restante e pagar à Astra mais US$ 820 milhões. Na segunda-feira 16, uma nova fase da Lava Jato, a vigésima, batizada de Operação Corrosão, trouxe a “ruivinha”, – como foi apelidada internamente a refinaria de Pasadena por causa das instalações enferrujadas –, de volta ao noticiário. A linha de investigação passou a contar com informações fornecidas por delatores, incluindo Mônaco e o lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano e apontado como elo do PMDB no Petrolão. Mônaco disse aos procuradores ter ouvido Cerveró dizer que a compra da refinaria foi feita para “honrar compromissos políticos” de Gabrielli. “Não se meta, Mônaco, isso é coisa da Presidência”, teria dito o ex-diretor. Com isso, os investigadores tentam chegar ao núcleo político beneficiado pela propina.

ISTOÉ identificou entre os mandados de busca e apreensão expedidos pelo juiz Moro um endereço com potencial para levar a investigação a outras camadas da propina. A PF visitou o número 15 da Rua João Atanásio de Mendonça, em Rio Bonito (RJ). Não é a primeira vez que o local entra no radar dos agentes federais. Em julho de 2007, o endereço apareceu vinculado a  um dos alvos da Operação Águas Profundas, que desbaratou fraudes em licitações da Petrobras para reparos em plataformas de exploração. Um dos investigados era o empresário Ruy Castanheira de Souza. Na semana passada, a PF dirigiu-se ao endereço atrás da empresa Cezar Tavares Consultores Ltda. Pode não ser coincidência. A PF suspeita que o endereço esteja vinculado a alguma incubadora de empresas fantasmas.

A Cezar Tavares Consultores é uma empresa ligada a três ex-funcionários da Petrobras acusados de receber propina no caso Pasadena: Cezar de Souza Tavares, Rafael Mauro Comino e Luís Carlos Moreira da Silva. Citados tanto por Mônaco como por Baiano, os três foram acusados de receber valores que variaram de US$ 800 mil a US$ 2 milhões. O portfólio divulgado pela Cezar Tavares chama atenção da PF. De acordo com o documento, a empresa é uma especialista em prestar consultoria envolvendo grandes projetos no setor de energia. Nele aparece Pasadena. Figura também uma consultoria supostamente prestada a Petrobras na aquisição da refinaria Nansei em Okinawa, Japão. Assim como Pasadena, o negócio na Ásia foi aprovado pelo Conselho de Administração quando a presidente Dilma o comandava. Nansei foi comprada em abril de 2008 por US$ 71 milhões, outra operação questionada internamente. A refinaria exigiu investimentos milionários para a solução de problemas ambientais e operacionais.

"(Pasadena) Foi um péssimo negócio com muitos beneficiários"
Procurador regional Carlos Fernando  dos Santos Lima

O trio de “consultores” menciona ainda assessoramento em negócio envolvendo uma termelétrica no México, tendo a Petrobras como cliente, e refinarias de combustíveis em Angola, em consultoria supostamente prestadas para a angolana Sonangol, parceira da estatal em negócios no continente africano. A Petrobras foi procurada pela reportagem, mas até o fechamento desta edição não respondeu a questionamentos sobre uma eventual relação comercial com a Cezar Tavares Consultores.

No caso de Pasadena, as suspeitas de irregularidades começaram a ser investigadas no Rio de Janeiro, foram transferidas para o Paraná e, agora, ganham novo fôlego com as revelações de Mônaco e Baiano. Além dos três “consultores”, houve propina para Baiano (US$ 4 milhões), para os ex-diretores Paulo Roberto Costa (US$ 1,5 milhão) e Cerveró (US$ 2,5 milhões), além do delator Mônaco (US$ 1,5 milhão). A investigação feita pela PF ao pedir a quebra do sigilo telemático do ex-auxiliar de Cerveró pode levar a Lava Jato a terrenos ainda não totalmente explorados. Depois de deixar a Diretoria Internacional da Petrobras, os dois se transferiram para a Diretoria Financeira da BR Distribuidora. Numa mensagem, de fevereiro de 2011, Cerveró conversa com um interlocutor de nome “Eduardo”. O diálogo é travado em espanhol. O ex-diretor da Petrobras cobra informações sobre algum projeto de energia eólica no Uruguai e afirma que está sendo pressionado por uma empresa interessada no projeto. Numa resposta enviada a “Eduardo”, Cerveró remete cópia para Mônaco. Os policiais separaram alguns diálogos entre os dois para uma análise mais aprofundada por causa das menções a empresas, algumas delas consultorias.

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Fotos: Richard Carson/PETROBRAS IMAGE BANK