Artes Visuais

A esfinge Ismael Nery

Os abismos e a mística da obra do artista que se manteve marginal ao modernismo brasileiro, em exposição em São Paulo

A esfinge Ismael Nery

Ismael Nery- Em busca da Essência/ Galeria Almeida e Dale, SP/ até 12/12

Nos anos 1920, quando Tarsila do Amaral enveredava pelo interior de São Paulo, à caça das cores fortes que iluminavam a vida e as tradições caipiras, Ismael Nery projetava em suas telas as sombras da alma humana. Enquanto Di Cavalcanti revelava a graça e as curvas da mulher carioca, Nery meditava sobre os mistérios da alma e desenhava figuras negras, longilíneas e satânicas. Enquanto Mario de Andrade rodava o Brasil em viagens de impulso etnográfico, Nery escrevia poemas metafísicos, em tom de confissão religiosa. Se a tônica dos modernistas era afirmar uma identidade brasileira (devorando e processando as influências europeias), Ismael Nery (1900-1934) era tão moderno quanto, mas andava na contra-corrente. “Nery ocupa uma posição marginal, no sentido positivo do termo, o que o transforma em antítese do lugar-comum”, afirma Denise Mattar, curadora de Ismael Nery – Em Busca da Essência.

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LUZ E SOMBRAS
Pintura à óleo ‘Autorretrato com Adalgisa’

A mostra reúne na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo, cerca de 60 obras garimpadas pela curadora de coleções particulares, e que não estão à venda. Nery teve vida e carreira breves, pintou cerca de cem telas apenas e morreu aos 33 anos, de tuberculose. Desenhou muito. Mas encarava os desenhos como esquemas para telas que afinal nunca chegaram a ser pintadas. Sua obra, concisa, ficou muito tempo esquecida, até ser redescoberta em 1966, numa retrospectiva em galeria comercial, quando alcançou súbita valorização no mercado de arte e acabou sendo adquirida quase exclusivamente por coleções particulares. Daí a importância desta mostra, uma oportunidade rara para desfrutar e discernir os mistérios de Ismael Nery.

Longe de ser unanimidade, ele não fazia grande sucesso com o público e intrigava a crítica. Ignorado por Oswald de Andrade – “Não vi e não gostei”, dizia o intelectual paulista –, Nery não pintava para os outros. No leito de morte, pediu ao poeta Murilo Mendes, grande amigo e companheiro de saraus, que se desfizesse de seus trabalhos por considera-los íntimos e intransferíveis.

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MUSA
‘Retrato de Adalgisa’, outra obra que marca a escolha marginal de Nery

O ser humano, e seus mistérios, foi seu grande tema, segundo a curadora. “A fusão é também tema constante de sua obra. Corpos que se entrelaçam, entrecruzam, entredevoram, renascendo numa outra forma”, aponta Denise Mattar. A figura com quem o artista mais apaixonada e afirmativamente se fundiu foi sua mulher, Adalgisa Nery. Com ela, realizou inúmeros autorretratos compartilhados, entrelaçando suas naturezas masculina e feminina. A liberdade com que manifestou fantasia, sonho, misticismo e devaneio, tanto em pintura quanto em poesia, fazem de sua obra um prato cheio para a leitura psicanalítica e aproximam-no das poéticas surrealistas. Há muito a divagar e a decifrar em Nery. 

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FUNDO NEGRO
‘Figura Cubista’, guache sobre cartão