Brasil

Madonna tropical

Comparada a Xuxa e Cindy Lauper, La Trevi foi a mais popular artista do México

"Yo me le entrego a un hombre solamente si estoy muy enamorada.” Pode até parecer, mas a declaração da pop star Gloria Trevi, 31 anos, nada tem a ver com a confusão em que se meteu nesta temporada no Brasil. A cantora, apresentadora, modelo, manequim e atriz mexicana costumava repetir, em quase todas as entrevistas dadas antes de ser presa, a mesma história para falar de sua juventude. Contava que aos 19 anos, meses antes de se tornar um dos maiores fenômenos musicais em seu país, ela se via no limite da pobreza. Dos pertences que costumava vender para matar a fome, não sobrara nada. Chegou a pedir esmolas nas ruas e até ouvir propostas indecentes: cien mil pesos por una noche. “Prefiro dormir en las banquetas antes que venderme”, respondia nessas ocasiões. A vida de Gloria de los Ángeles Treviño Ruíz é recheada de acontecimentos que remetem aos mais variados gêneros da ficção. Teve uma infância de Cinderela, a adolescência de uma heroína de dramalhão mexicano e agora vive seus dias de romance policial.

Gordinha – Em Monterrey onde nasceu, a pequena Gloria aprendeu cedo a lidar com as dificuldades ao lado dos quatro irmãos, da mãe batalhadora e do pai, tão severo que batia na mulher e nos filhos se ousassem chegar em casa após oito da noite. A boa comida não dava para todos. Só o pai, Manuel, tinha direito à carne. A mãe, Gloria, garantia a escola das crianças graças às aulas de dança que dava na cidade. Foi com ela, inclusive, que a menina aprendeu o ofício indispensável para o futuro sucesso. Seus primeiros passos no balé eram desajeitados. Gloria era obesa, o que lhe rendia apelidos maldosos por parte dos coleguinhas. Mas a adolescência veio e, com ela, a semelhança do físico invejável da mãe. As madeixas loiras eram o que faltava para vencer um concurso de televisão que buscava garotas parecidas com a personagem Chispita – novela mexicana do início dos anos 80, que também fez sucesso por aqui. Aos 14 anos, mudou-se para a Cidade do México e descolou um curso de atriz na Televisa, a maior rede de tevê do país. A fada madrinha havia aparecido. De clone de Chispita, Gloria foi convidada para integrar o grupo musical infantil Boquitas Pintadas. O sucesso, porém, durou apenas seis meses. Mas foi nessa breve passagem pelo mundo musical que conheceu o produtor Sérgio Andrade, com quem se envolveria num dos maiores escândalos do país tempos depois. Fora do Boquitas, aos 16 anos, Gloria voltou ao ostracismo e aos problemas financeiros. A carruagem havia virado abóbora.

Os primeiros capítulos da novela mexicana surgiram com a aparição do médico-galã Alejandro, que conhecera numa academia de dança onde fazia bicos como professora. Ele tinha 32 anos e ela mal completara 17. Aos poucos, o príncipe se revelava um homem agressivo. No início, proibiu-a de falar com a família. Depois, nem sequer permitia que ela trabalhasse. Gloria ficava em casa e, quando ele recebia visitas, tinha que andar olhando para o chão tamanho era o ciúme. Cada briga vinha seguida de um pedido de desculpas que ela aceitava prontamente. O fim do romance se deu no auge da violência, quando ele a trancou no banheiro por uma semana. Desempregada, Gloria viveu a época em que teve de pedir esmola e recusar a prostituição. Em 1989, voltou para casa atrás do apoio da família e do dinheiro para continuar em busca de seus sonhos. A futura cantora sabia que o passaporte para voltar aos palcos estava com Sergio Andrade, o antigo produtor. Procurado por ela, ele a transformou em Gloria Trevi. Aos 19 anos, foi lançada no mercado fonográfico e virou o fenômeno musical da década de 90 no México.

La atrevida – Os três primeiros discos, Que hago aqui, Tu angel de la guarda e Me siento tan sola, venderam mais de cinco milhões de cópias entre 1990 e 1992. Rebelde, virou heroína das crianças e dos adolescentes. Dançava, tocava piano, falava de sexo e camisinha com pitadas de feminismo. Já os adultos perdiam o fôlego com suas poses estampadas nos “trevi-calendários”, com tiragens de 500 mil exemplares. O lançamento de seu quarto CD dois anos depois, Mas turbada que nunca (o trocadilho dispensa a tradução), rendeu-lhe o apelido de la atrevida. Participou de novelas, filmes e ganhou um programa de televisão. Seus shows arrastavam multidões e, nos Estados Unidos, chegou a ser comparada com Cindy Lauper e Janis Joplin. “Apesar de um comportamento entre o erótico e o vulgar, ela influenciava milhões de adolescentes porque era diferente”, define o jornalista Ernesto Polanco, editor do jornal El Heraldo do México. “Era uma artista de personalidade agressiva, com um jeito atraente”, acrescenta. Tinha a popularidade de uma Xuxa no Brasil, mas seu comportamento estava mais para uma Madonna. O final feliz da novela, no entanto, deu lugar a outro gênero literário: a narrativa policial.

O escândalo teve início em 1998 com a publicação do livro La gloria por el infierno”, escrito pela ex-mulher de Sergio Andrade, Aline Hernández, que acusava o empresário e a pop star de corrupção de menores. O caso foi parar na Justiça. Glória se defende dizendo que tudo não passa de uma armação de Salinas Pliego, presidente da TV Azteca, com o intuito de sujar seu nome. Pliego teria incentivado Aline a fazer as acusações, depois de a pop star ter firmado contrato de exclusividade com a concorrente Televisa. Em abril de 1999, porém, a situação de Gloria e seu empresário agravou-se com a denúncia dos pais da adolescente Karina Yapor. Aos 12 anos, a menina entrou para a equipe da cantora e, aos 15, ficou grávida de Sérgio. Karina, num primeiro momento, negou as declarações dos pais. Três meses depois, voltou atrás para reforçar a tese de que eles exploravam as menores contratadas para as turnês. Também foi acusada a assistente de Gloria, Mari Boquitas, ou Maria Raquenel Portillo, que hoje divide a cela com a pop star.

Mistérios – Quando, enfim, o trio recebeu ordem de prisão, a polícia mexicana não os encontrou por lá. Estavam no Rio de Janeiro, onde foram pegos em janeiro de 2000. Três meses antes, nascera no Brasil seu filho com Sérgio, mas a criança teria morrido com um mês de vida, acidentalmente sufocada no berço, depois de uma crise de vômito. Gloria diz que veio ao Brasil a passeio e negou que estivesse fugindo. A história não pára por aí. Na Polícia Federal, em Brasília, aguardava a decisão sobre sua extradição, quando revelou que estava grávida. A identidade do pai da criança? Isso fica para os próximos capítulos.

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