Artes Visuais

Fotografia expandida

João Castilho - Porcelana e Vulcão/ Zipper Galeria, SP/ até 12/9

Fotografia expandida

João Castilho é um artista mineiro que nos últimos nove anos vem investigando as possibilidades da imagem técnica, trabalhando com vídeo e mídias fotográficas. Na individual “Porcelana e Vulcão”, na Zipper Galeria, em São Paulo, ele expande sua atuação para a escultura e a pintura, mas mantém nesses novos campos procedimentos e questões fundamentais da fotografia.

A primeira delas, a representação. Nas esculturas que se distribuem no piso da galeria, Castilho opta pela representação hiperrealista de um cachorro mordendo a própria cauda e de três jabutis imobilizados pela posição invertida. Os objetos foram esculpidos a partir de fotografias tiradas de animais reais. O “Cão” (2015) efetivamente existe e morde o próprio rabo. Sua escultura em resina comporta-se, portanto, como uma fotografia em três dimensões.

ARTES-03-IE1.jpg

A segunda questão fundamental da fotografia que se reflete nas esculturas de Castilho é sua analogia com a morte, tema explorado por Roland Barthes no texto clássico da teoria da fotografia, A Câmara Clara. Não é apenas em sua inversão imóvel que os jabutis em terracota da série “Irreversíveis” (2014) (foto) se aproximam do limiar da vida. É também por sua cor negra, de cinza vulcânica, que evoca o título da exposição, “Porcelana e Vulcão” e remete aos corpos congelados e as vidas suspensas por grandes erupções.

Castilho argumenta que os trabalhos da exposição orbitam em torno da leveza da porcelana e do peso e da fúria do vulcão, oscilando entre quietude e agitação. A foto-instalação “O Caminho do Samurai” (2015), composta por 92 fotografias tiradas de frestas de esculturas públicas de Amílcar de Castro, em Belo Horizonte, executa essa proposta à perfeição, transmitindo em rasgos de imagens a ideia de uma espada que corta o espaço. Com isto, o trabalho escapa à fotografia e faz-se gesto performático.

Para completar o ciclo de foto-esculturas, o vídeo “Alvo” (2015) torna-se uma peça escultórica, na medida em que é posicionado em um monitor no chão, entre o cão e os jabutis. Sua imagem – também cinzenta como fumaça de vulcão – ganha, assim, a dimensão material e o peso de objeto. PA