Artes Visuais

De Pirapora a Juazeiro

A rota das carrancas é revisada em exposição de fotografias e esculturas concebidas para navegação no rio São Francisco

De Pirapora a Juazeiro

VIAJANTES Gautherot documenta carrancas do rio São Francisco, em foto de Pierre Verger, companheiro de viagem ()

A VIAGEM DAS CARRANCAS/ Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP/ até 18/10
Instituto Moreira Salles, RJ/ de 5/12 a março de 2016

As figuras esculpidas em proas de barcos – as populares carrancas, assim chamadas no Brasil e em Portugal desde o século 16 – são tradição milenar, com registros entre gregos, fenícios, cartagineses, romanos, vikings e ibéricos, desde a antiguidade. No Brasil, essa arte escultórica é um fenômeno geográfica e temporariamente delimitado entre 1870 e os anos 1940, nas águas navegáveis do Rio São Francisco, entre Pirapora, Minas Gerais, e Juazeiro, na Bahia. Este é o roteiro perseguido em “ A Viagem das Carrancas”, mostra organizada pelo Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro (IIPB), que realiza a proeza de reunir 41 carrancas de coleções públicas e particulares e 42 fotografias de Marcel Gautherot, pertencentes ao Instituto Moreira Salles.

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VIAJANTES
Gautherot documenta carrancas do rio São Francisco,
em foto de Pierre Verger, companheiro de viagem

É notável que muitas das esculturas aqui apresentadas foram flagradas in loco pelas lentes de Gautherot, em 1946, durante viagem com Pierre Verger. Vê-las lado a lado – imagens e peças – é uma experiência que potencializa a imaginação, reascendendo a visão das peças em atividade, sob o sol a pino, rio abaixo, corredeira acima, à mercê das intempéries. Às fotos de Gautherot, publicadas em 1947 na revista O Cruzeiro, atribui-se a popularização da arte das carrancas. Depois dessa data, que coincide com a chegada dos barcos motorizados ao São Francisco, as esculturas passam a ser feitas para colecionadores e turistas.

É clara a distinção entre as carrancas navegadas e não navegadas. As primeiras têm a aura mágica da função de proteção em viagens, uma incrível variedade de estilos, que remontam a técnicas e traços arcaicos. Há muita história talhada nas crinas e bigodes desses “bichos estranhos”, chamadas assim por Carlos Drummond de Andrade.

As segundas, produzidas a partir dos anos 1950, e guardadas em ambientes protegidos, preservam a pintura e, acima de tudo, alcançam uma unidade de estilo.

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BICHOS ESTRANHOS
Carranca navegada de autoria do Mestre Guarany
em exibição na mostra organizada pelo IIPB

Grande parte das peças expostas é de autoria de Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1882-1985). Descendente de jesuíta espanhol e índia guarani, ele personifica a identidade híbrida desta arte do Médio Chico, que absorvia influências dos navios transoceânicos que aportavam no litoral baiano e sergipano. Figuras de proa na forma de leões, por exemplo, eram usadas em navios ingleses, espanhóis, franceses e portugueses – origem da tradição no Brasil. Referências a dragões, cavalos e cachorros também são discernidas. “Guarany é um inventor. Deve-se a ele a criação do tipo fundamental da carranca são-franciscana: nem aterradora nem cordial, nem homem nem bicho, mas um pouco de tudo isso, graças a um equilíbrio sempre muito bem calculado de elementos discordes”, escreve o curador Lorenzo Mammi, no livro “A Viagem das Carrancas” (Editora Martins Fontes, 288 págs., R$ 148). Ao colocar Guarany como “ o primeiro artista moderno da arte popular brasileira”, Mammi acerta o tom do que tem se mostrado o objetivo das ações do IIPB: a reavaliação estética e crítica da arte popular. “O IIPB foi criado em 2006 por um grupo de pessoas que discutiam a questão da arte popular, preocupados com a divulgação e a preservação desse imaginário”, diz à Istoé a colecionadora Vilma Eid, presidente do instituto e diretora da Galeria Estação, em São Paulo.

Crédito: foto Andrew Kemp