Brasil

Ria à vontade

Cientistas afirmam que rir por qualquer motivo é um elixir da saúde e mostram a eficácia das terapias para elevar o astral em hospitais

Até agora, a filosofia e a psicanálise tinham se ocupado mais da risada do que a medicina. Pensadores como Aristóteles e Platão e até o psicanalista Sigmund Freud já tentavam decifrar os efeitos dessa reação. Mas uma safra de novos estudos está trazendo informações suficientes para sensibilizar o mais sisudo dos médicos em relação aos benefícios clínicos do bom humor. Na semana passada, pesquisadores da Universidade de Maryland, em Baltimore, anunciaram as conclusões de um estudo, mostrando que a capacidade de rir com vontade das adversidades do cotidiano (aqueles contratempos que têm o dom de irritar a maioria dos cidadãos, como manchar a roupa com café antes da reunião ou trocar pneu na chuva) é um tônico inigualável para a saúde. A pesquisa comparou 150 pessoas que tinham passado por problemas cardiovasculares com um grupo da mesma idade e boa saúde. Descobriu-se que os pacientes cardíacos têm menos facilidade de achar graça das mesmas situações que as pessoas saudáveis e também apresentam mais dificuldade de usar o humor para superar situações difíceis.

Um dos cientistas envolvidos na pesquisa, o cardiologista Michael Miller, declarou ter esperanças de que a habilidade de rir tenha utilidade, no futuro, como recurso para prevenir doenças. O interesse científico pelo riso também trouxe mais pistas para explicar suas origens. O neurocientista americano Robert Provine, que estudou as reações cerebrais de homens e de primatas usando exame de ressonância magnética, acaba de lançar um livro defendendo que rir é uma evolução de sons prazeirosos emitidos pelos macacos durante as lutas de brincadeira. Notou ainda que é mais fácil rir de piadas faladas do que lidas. E que as mulheres riem mais do que os homens.

Emoções – O estudo de Baltimore traduziu em números algo que os médicos observavam no dia-a-dia. “As pessoas mais risonhas ou bem-humoradas têm saúde melhor. Quem coleciona preocupações e ressentimentos ou convive com alguns sintomas de depressão, como solidão ou irritabilidade, tem maiores chances de adoecer”, endossa o médico Marco Aurélio Dias da Silva, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, e autor do livro Quem ama não adoece (Ed. Best Seller). Aconselhada pelo médico, a tradutora paulista Márcia Maluf, 47 anos, passou pela experiência de combater o mau humor e cultivar o sorriso para sobreviver. Anos depois de uma separação cheia de mágoas, colocou um marcapasso e fez um transplante de coração. “Precisei de um novo coração para entender que deveria ter outra atitude. Sou mais maleável com a vida”, conta. Quando o mau humor se torna constante, pode estar associado a uma forma mais leve de depressão, a distimia, que afeta 5% das pessoas. “É comum essas pessoas se queixarem de dores inespecíficas e cansaço sem causa física. Tratar a distimia com remédios e psicoterapia melhora a saúde geral”, explica o psiquiatra Ricardo Moreno, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Em muitos hospitais, as teorias sobre as virtudes medicinais do riso já se convertem em iniciativas diversificadas para elevar o ânimo dos pacientes. No Baptist Hospital, de Miami, nos Estados Unidos, a tarefa de distribuir medicamentos às crianças, por exemplo, é cumprida por robozinhos engraçados. Em outras instituições americanas, os pacientes podem assistir a filmes divertidos nas chamadas salas de riso. Em São Paulo, uma das mais belas e sólidas aplicações dos benefícios do riso é o trabalho dos Doutores da Alegria, um grupo de palhaços que ministra doses semanais de diversão em dez hospitais infantis. Seus integrantes se apresentam como médicos besteirólogos e tratam os outros doutores por colegas. A psicóloga Morgana Masetti, que dá apoio emocional ao grupo, entrevistou 142 pessoas, entre pais, médicos, enfermeiras e atendentes para avaliar as mudanças provocadas na realidade hospitalar por essas intervenções. “Depois das visitas, as crianças ficam mais ativas, se movimentam e se comunicam mais, além de se alimentarem melhor e diminuírem a resistência a fazer exames”, explica. Para que o efeito se mantenha, os encontros precisam ser constantes. A convivência com as crianças fez os doutores da alegria perceberem que efeitos parecidos com os benefícios do riso também podem ser conseguidos pela troca de afeto. “Há encontros que proporcionam contentamento interior, aumentam a energia e a felicidade de existir”, explica Morgana.

Uma revisão recém-publicada pela Universidade da Califórnia confirma que o estado de espírito e do humor agem diretamente na imunidade. O trabalho reforça a idéia de que é maior a incidência de câncer em pessoas desgostosas, como pessoas que perderam seus parceiros. “Quem acha tudo difícil e complicado tende a sentir mais dificuldade de enfrentar as doenças. Pacientes mais bem-humorados e tranquilos melhoram antes e mostram mais persistência no cumprimento das recomendações médicas”, afirma o infectologista Artur Timerman, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Há outras explicações sobre os efeitos positivos de sorrir. Uma risada vigorosa chacoalha a musculatura facial, dos braços e do tórax. O ensaísta Mario Satz, da Universidade de Barcelona, aposta nisso e dá palestras na Argentina, França e Suíça, ensinando exercícios coletivos para gargalhar. “O ato de rir massageia os músculos envolvidos na respiração (eles se contraem e relaxam mais rapidamente), aumentando a quantidade de oxigênio e sangue para irrigar tecidos e órgãos”, costuma explicar Satz.

Imunidade – O humor age na bioquímica do organismo. Se ocorrer uma reação positiva, entram em campo as endorfinas, substâncias que agem nas terminações nervosas das células e às quais credita-se a sensação de relaxamento depois de uma boa risada. O estímulo ruim age de um modo diferente. Nesse caso, o cérebro mantém elevada a produção de corticóides, adrenalina e noradrenalina para ficar em estado de alerta. Por tempo prolongado e em excesso, esses hormônios prejudicam os centros produtores de linfócitos (os glóbulos brancos que caçam invasores no organismo). É por isso que cai a resistência de pessoas com depressão ou daquelas eternamente mal-humoradas.

Como se vê, quem ri, portanto, seus males espanta. Se você anda se divertindo pouco e precisa achar mais graça na vida, tente pensar como reagiria daqui a uns dez anos às dificuldades e situações irritantes de hoje. Cenas ridículas dão boas piadas.