Brasil

Pokémon? Digimon? Não, é Malutrom

Um time paranaense novo, de nome esquisito e sem torcida, vive sonho entre os grandes na Copa JH

Nena conheceu Mirtillo, que apresentou Sinibaldo a Itália, que ficou feliz quando Marino se apaixonou por Dide, que disse maravilhas de Ítalo para Lucinha. Os homens, todos primos, pertencem ao clã Malucelli, um dos mais tradicionais do Paraná. As moças, todas primas, têm em comum o sobrenome Trombini. Dessa união incomum nasceu a maior surpresa da Copa João Havelange. Até o domingo 19, fora os torcedores paranaenses, pouca gente no Brasil tinha ouvido falar do Malutrom. O título dos Módulos Verde e Branco da JH e a classificação às oitavas-de-final da Copa deixaram uma dúvida: que diabo é esse Malutrom? Virou piada, é claro. Digimon, Pokémon, mome de remédio, marca de eletrodoméstico… A derrota para o Cruzeiro, por 3 a 0, na quinta-feira 23, praticamente acabou com a ilusão de classificação para a próxima fase. Se não golear o mesmo Cruzeiro por uma diferença de quatro gols no domingo 26, o que seria quase um milagre, deixará a competição. Mas já está bom demais. O Malutrom saiu da clandestinidade. Deixou para trás os milionários e desclassificados Santos, Flamengo e Corinthians.

Pelada – O Malutrom nasceu de uma das mais arraigadas insituições brasileiras: a pelada. Malucellis e Trombinis (Malu + Trom) se reuniam todos os finais de semana para bater uma bolinha. Nasceu daí a idéia de montar o time. “Isso deve ter sido coisa de alguma bebedeira”, brinca Juarez Malucelli, fundador e hoje presidente do clube empresa. Apesar do mesmo sobrenome, Sérgio Malucelli, o sócio do ex-técnico da Seleção Brasileira Wanderley Luxemburgo, nada tem a ver com o clube. Primo distante de Juarez e Joel, ele administra o Iraty, time do interior paranaense. Além de uma série de acusações, Sérgio é réu em dois processos criminais em Curitiba.

A brincadeira começou a se tornar séria em 1992, ano da inauguração da primeira escolinha de futebol. Muitos alunos eram crianças carentes que perambulavam pelas ruas de Curitiba. Depois vieram o dente-de-leite e as categorias mirim, júnior e juvenil. Cinco anos depois, ocorreu o grande salto. Surgiu o Malutrom S/A, um clube-empresa adaptado às normas da Lei Pelé. A sociedade conta hoje com 20 cotistas fixos. O equilíbrio financeiro é questão de honra. A folha de pagamentos do time não passa dos R$ 60 mil. Isso mal dá para pagar o salário do goleiro Clemer, do Flamengo, ou do zagueiro Scheidt, do Corinthians. O teto é R$ 3 mil.

Mascote vira-lata – O jogo contra o Cruzeiro trouxe um pequeno batalhão de repórteres ao Centro de Treinamento do bairro Santo Inácio, no início da Rodovia do Café. Em meio à pequena balbúrdia, uma cena chamou a atenção. O técnico Amauri Knevitz reuniu seus jogadores no centro do gramado. Sem ser chamada por ninguém, a vira-lata e mascote Malutra resolveu participar da conversa. Ganhou carícias e afagos enquanto Knevitz dava as instruções. Ficou ali por uns dez minutos. Cansada do papo, saiu com o mesmo rabo empinado que entrara. Ninguém no Malutrom esperava ir tão longe. O atacante Calmon que o diga. No começo do ano, prometera à noiva Cristiane que, se o time fosse campeão, ele finalmente iria casar-se com ela. O atacante esqueceu-se do trato. A moça, não. Logo após a conquista, ligou para o atacante cobrando o prometido. Calmon não sabia o que fazer. Enrolar a moça não dava mais. “Tinha até me esquecido disso. Então, vamos ver”, diz, tentando se esquivar do assunto.

O Malutron agora quer torcida. O clube quase não tem seguidores. Os que vão aos seus jogos são na maioria do Atlético-PR, Coritiba e Paraná Clube. O que mais se via no estádio Durival de Brito, no jogo com o Cruzeiro, eram camisas dos três grandes do Paraná. O presidente da única torcida uniformizada do time, a Falcão Azul, é o exemplo acabado do torcedor malutroense. O comerciante João Carlos Fernandes, 31 anos, é corintiano. Até 1998, nunca havia posto os pés em um estádio de futebol. Dono de uma fábrica de material esportivo, resolveu unir o útil ao agradável. “Sentia que o pessoal de São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba e onde o time manda os seus jogos, tinha grande simpatia pelo time. Resolvi montar uma torcida”, diz. O esperto Carlos fabrica as camisetas da Falcão Azul. Cada uma sai por R$ 12,90. Ao seu lado, na arquibancada, uma possível futura torcedora do time. No colo da mãe, a balconista Marizete Mendes da Luz, a pequena Gabrielle, apenas cinco meses de idade, é levada a todos os jogos do Malutrom. Quando crescer, poderá formar a futura geração de torcedores do time. Até lá, o clube quer deixar de ser alvo de gozações e não ter mais o nome confundido com “remédio para dor de cabeça”. Quem faz a piada é o próprio Joel Malucelli, patrono do time.