Brasil

Os fundos na roubada

Previ, Petros, Funcef e outros já perderam R$ 129 milhões em operações com a Coteminas

Em outubro do ano passado, o analista de investimentos Cláudio Motta de Faria encaminhou uma solicitação à Secretaria de Previdência Complementar. Queria saber se fundos de pensão haviam participado do aumento de capital da indústria têxtil mineira Coteminas, realizado em 4 de dezembro de 1997. Faria tinha ficado com a pulga atrás da orelha ao verificar que a operação acontecera num dos momentos de maior valorização das ações na história da empresa. Os papéis, vendidos a R$ 370 por lote de mil ações, despencaram depois do lançamento e hoje valem R$ 116. Quem entraria nessa roubada?

Mais de um ano depois, a resposta, encaminhada não diretamente ao investidor, mas sim ao Ministério Público, confirma a suspeita: os fundos de pensão Previ, Funcef, Petros, Fapes e Cedae compraram, em dezembro de 1997, R$ 180 milhões em ações com direito a voto (ordinárias) da Coteminas. Participaram do aumento de capital, confirmou Josué Christiano Gomes da Silva, superintendente-geral da empresa, semana passada ao jornal Folha de S. Paulo. Gomes é filho do senador José Alencar (PMDB-MG) e sua empresa foi contratada, nove meses após a operação, para fornecer camisetas ao comitê de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Parte das camisetas foram doadas – e não declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Giovani Pereira/Folha Imagem
Toninho Almada/Jornal Hoje Em Dia
ADIVINHOU Faria desconfiava da participação dos fundos de pensão na empresa de Alencar. E acertou

Mas apenas um terço das ações ordinárias compradas pelas entidades de previdência privada em dezembro de 1997 tem origem no aumento de capital. Também não foi na bolsa paulista que elas adquiriram os papéis: o volume negociado naquele mês foi aperitivo para tamanho apetite das fundações. No dia 17 de dezembro, houve uma operação de conversão de ações preferenciais (sem direito a voto) em 481,5 milhões de ações ordinárias. Supõe-se que Previ, Funcef e Petros, os fundos com maior peso no capital da Coteminas, compraram ações preferenciais e converteram suas ações em ordinárias. Faz sentido: era forte naquela época o desejo das caixas de previdência das estatais de ter voto e poder de decisão nas empresas em que detinham participação. Ainda está para ser desvendado o seguinte mistério: quem foram os felizardos que venderam suas ações preferenciais às fundações e evitaram a debacle?

Se tivessem aplicado os R$ 180 milhões em CDBs, as fundações teriam hoje R$ 312 milhões. Mas, com o investimento empacado nas ações da Coteminas, o valor reduziu-se para R$ 51 milhões. Os controladores da empresa, o senador e seu filho, além do ex-deputado federal Luiz de Paula Ferreira, ao que tudo indica, não colocaram um tostão a mais no capital da empresa. Sua participação relativa diminuiu naquela época. Mas aumentou recentemente: em 22 de novembro de 1999, houve nova operação de aumento de capital, só que em ações preferenciais. Alencar e seu filho, desta vez, parece que resolveram apostar no negócio. De acordo com registro na bolsa paulista, não possuíam ações preferenciais em dezembro de 1998. Em abril deste ano, última data em que os dados estão disponíveis, aparecem com 31,3% do capital não votante.

Garantias – Nesta última operação, a oferta foi de R$ 150 o lote de mil ações, menos da metade do que o valor de 1997. Quem já tinha papéis sem direito a voto teve preferência na subscrição, mas não houve interesse. Afinal, as ações estavam sendo negociadas em bolsa por um preço bem mais camarada – por volta de R$ 140. Se não fosse esse detalhe, talvez os controladores não conseguissem participar do aumento de capital, porque, como só tinham até então ações ordinárias, estavam habilitados a arrematar apenas as chamadas sobras.

Há quem argumente que a desvalorização das ações da Coteminas depois da operação de 1997 foi inesperada. A empresa era então a queridinha do mercado de capitais, elogiada por revistas internacionais de prestígio como The Economist e Business Week. Mas, naquele dezembro, tal era a valorização da empresa em bolsa que só quem se dispusesse a esperar 30 anos pelo retorno do capital comprava suas ações. Também não dá para culpar as sucessivas crises cambiais pelo planeta. Se assim fosse, o mercado teria sofrido em escala parecida. No entanto, o índice que mede as ações mais negociadas na bolsa paulista, Ibovespa, subiu desde então mais de 40%. Na mesma época em que ocorreram as polêmicas operações, a Coteminas comprava uma parte da Artex, dos sócios do então Banco Garantia. A Artex vinha passando por dificuldades há algum tempo e foi um problemão para a Coteminas. Aliás, foi o Garantia, comprado pelo suíço CS First Boston, o organizador do aumento de capital e da conversão de ações preferenciais em ordinárias.