Brasil

História macabra

Biografia do delegado Fleury mostra como o matador de bandidos virou o mais terrível carrasco de presos políticos

“Eu sabia que um dia você iria me procurar.” A frase foi dita pela advogada Leonora Rodrigues de Oliveira por telefone ao jornalista Percival de Souza em junho do ano passado. Leonora foi a grande paixão secreta do delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury, símbolo da repressão política instaurada no Brasil após o golpe militar de 1964. Percival é autor do livro-reportagem Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que será lançado pela Editora Globo na terça-feira 28 em São Paulo e que remonta a trajetória do homem mais poderoso da polícia nos anos de chumbo. A obra de 700 páginas conta segredos do conflito entre a luta armada e a ditadura que, entre 1969 e 1973, resultou em pelo menos 500 mortes e faz revelações surpreendentes de um período sombrio da vida nacional.

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Prensa Três

O livro descreve o delegado Fleury como um misto de policial destemido e torturador frio. Desde que ingressou como investigador no Dops, Departamento de Ordem Política e Social, em 1956, até chegar a diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo, o Deic, 22 anos depois, ele consolidou aos poucos sua imagem de implacável. Chegou a ser temido pelos marginais de São Paulo. Criminosos que não se entregassem sabiam que as chances de escapar com vida eram reduzidas. A expressão “vamos chamar o Fleury” se tornou uma ameaça usada nos distritos policiais para assustar os bandidos. O delegado foi comandante do Esquadrão da Morte, grupo responsável pela execução sumária de centenas de criminosos comuns e que agia acobertado por um intenso tráfico de influência. Sua equipe retirava os presos das cadeias para eliminá-los nas estradas durante a noite. A prática de Fleury em caçar ladrões acabou utilizada pelo regime militar para combater os integrantes das organizações de esquerda que optaram pela luta armada. Logo, o delegado tornou-se senhor da vida e da morte de quem caísse sob suas mãos. À frente do Dops, comandou em 1969 o cerco a Carlos Marighela (morto com quatro tiros, um deles com seu revólver), no ano seguinte liderou a ação que terminou com a morte de Joaquim Câmara Ferreira e, em setembro de 1971, participou da caçada a Carlos Lamarca no sertão da Bahia – três dos maiores líderes da chamada subversão.

Alan Rodrigues
Revelações Percival e a capa de seu livro

Coveiro secreto – Uma das principais revelações do livro é a criação por Fleury de um cargo de coveiro oficial secreto do Dops. A indicação do homem que desaparecia com os cadáveres de quem morria em combate ou pela tortura surgiu depois de uma consulta do 2º Exército ao então delegado do Serviço Secreto do Dops Romeu Tuma (hoje senador pelo PFL). O escolhido foi o delegado Alcides Cintra Bueno, conhecido como “Porquinho”, um católico fervoroso que se confessava depois dos sepultamentos clandestinos e denunciava os padres identificados com a linha de pensamento marxista na Igreja. “Porquinho vacilou apenas quanto à sua formação religiosa. Além de enterrar, ele agiria de forma piedosa, como se encomendasse aquelas almas, embora não fosse sacerdote”, diz um trecho do livro. Para não serem reconhecidos, os corpos tinham os dedos cortados, impedindo qualquer tentativa de identificação. Percival desnuda a trágica realidade descrevendo episódios como a reação histérica da mulher de um policial que voltou para casa com o dedo de um dos mortos no bolso. “Houve casos em que as cabeças foram decepadas e costuradas em outros corpos”, diz o jornalista.

O livro procura traçar um perfil de Fleury com imparcialidade. Esmiúça um lado desconhecido e intrigante do homem que personificou a violência nos anos 70. A sua relação amorosa com Leonora, com quem o delegado viveu um tempo mesmo sendo casado, revela um Fleury romântico e até dócil. Leonora, que se dizia anarquista e é irmã do jornalista Raimundo Pereira, antigo militante de esquerda, entregou ao jornalista um calhamaço de cartas escritas pelo delegado entre 1976 e 1979, algumas em papel timbrado do próprio Deic. Parte delas está no encarte de documentos e fotografias inéditas publicados em Autópsia do medo. Longe dos porões do Dops e do Deic, Fleury era chamado pela amante de “ronc-ronc”. “Ela dizia que ele roncava muito”, conta Percival.

Fleury teve uma morte misteriosa na madrugada de 1º de maio de 1979, aos 46 anos, em Ilhabela, litoral paulista. Era a viagem inaugural do barco do policial, o Adriana I, comprado por ele uma semana antes. Após beber muito no iate de um amigo, no píer do Iate Clube de Ilhabela, o delegado retornava para o Adriana I quando escorregou e caiu no mar. Foi retirado ainda com vida, mas morreu poucos minutos depois. Até hoje sua morte continua cercada por circunstâncias nebulosas que sustentam a tese de assassinato: não foi realizada necropsia do seu corpo e Fleury era um exímio nadador. Depois de entrevistar no ano passado, já à beira da morte, o delegado Celso Telles, chefe da polícia que proibiu a necropsia, Percival constatou que o inquérito foi mal elaborado e não contém dados que comprovem uma suposta morte criminosa. O jornalista também colheu pela primeira vez o depoimento do casal que passou as últimas horas ao lado de Fleury e remontou com detalhes a cena em que um garçom lhe oferece champanhe. O delegado provou um pouco e deixou o resto. Voltou para o seu barco onde ia dormir, caiu e morreu. “Os indícios de crime são fortes”, diz Percival, levantando mais uma vez a hipótese de queima de arquivo.

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