Cultura

O terror dos totós

Nem os adoráveis cãezinhos conseguem roubar a cena de Glenn Close como a divertidíssima Cruela De Vil, de 102 dálmatas

Você pode até não concordar para não assustar seus filhos pequenos, mas as personagens mais deliciosas dos filmes e desenhos infantis, adaptados ou criados por Walt Disney, são as vilãs. Lembre como a Rainha Má é muito mais bela que a chata da Branca de Neve; como a Maga Patalógica, com seu vestido preto básico, supera em elegância e sagacidade o sovina do Tio Patinhas; ou como Cruela Cruel – conforme foi chamada na versão nacional do desenho A guerra dos dálmatas –, com seus casacos de pele, mecha branca nos cabelos, limusine preta envenenada e piteira soltando fumaça amarela, é mais impulsiva e vital que o entediado casal dono dos cachorrinhos. Pois a vilã mais punk de Disney está de volta sob o nome de Cruela De Vil – uma brincadeira com devil, demônio em inglês – no filme 102 dálmatas (102 dalmatians, Estados Unidos, 2000), com estréia nacional na sexta-feira 1º, continuação do bem-sucedido 101 dálmatas, de 1996. Glenn Close é quem novamente dá vida nas telas à maligna e divertidíssima estilista que tem como maior ambição um casaco feito da pele dos animais daquela raça.

Figurino drag queen – Glenn está impagável. É impressionante a capacidade da atriz de transitar entre o drama, psicológico ou não, e a comédia. Nesta versão fresquinha dos dálmatas, que terá uma campanha nacional de divulgação estimada em R$1,5 milhão, o espectador toma contato com Cruela na prisão. Consagração de uma experiência comportamental do Dr. Pavlov, na qual espécies antagônicas de animais passam a viver pacificamente, Cruela agora é uma nova pessoa. Adora cachorros e ganha liberdade condicional para desespero dos pintados de quatro patas. Em sua nova fase, manda seu empregado Alonso (Tim McInnerny) trancafiar as dezenas de casacos de pele, trata todos com delicadeza e quer ser chamada apenas de Ela. O passado de maldades, segundo Ela, está enterrado. Tanto que acaba usando parte de sua fortuna para tirar da desgraça um abrigo de cães comandado por Kevin (Ioan Gruffudd), que tem como companheiros inseparáveis cães das raças mastin, border terrier e borzoi, além da arara Sansão, que pelo convívio só com cachorros pensa ser um deles. Até late e rosna.

Acontece que a agente da condicional Cloe Simon (Alice Evans) fica desconfiada do bom comportamento de Ela. Com toda a razão, já que o Dr. Pavlov tardiamente descobriu um erro inimaginável na sua experiência: as badaladas do Big Ben londrino. São elas que despertam o diabo interno naqueles com índole maligna. E é aí que Glenn Close dá um show, ajudada por perucas e um figurino de matar de inveja qualquer drag queen. Suas roupas são um espetáculo à parte. Na pele de Ela, o visual não é tão frenético, nem por isso menos exuberante. Seu uniforme de prisioneira, por exemplo, é totalmente estilizado e chique e as algemas são adornadas de pérolas e diamantes. Mas é quando Cruela volta à velha forma que entram em cena modelitos tão feéricos quanto os dos destaques de escola de samba. É assim que a vilã sai literalmente vestida para matar os adoráveis cãezinhos e enfim confeccionar seu ambicionado casaco. Para a empreitada, ela conta com a ajuda do estilista francês Jean Pierre Le Pelt – Gerard Dapardieu, engraçadíssimo –, famoso e odiado por usar muitas peles naturais em seus desfiles de inverno.

Os dois precisam de vários dálmatas, mas querem principalmente Rabão – filho do casal Pongo e Perdita, do primeiro filme – e sua fêmea Dottie, além dos filhotes. Quem, contudo, joga areia nos planos da dupla é a cadelinha Albina, que nasceu sem as pintas características da raça. Albina é o 102º dálmata do título. Todos eles estiveram sob o comando de Gary Gero, considerado o treinador mais respeitado do mercado cinematográfico. A produção garante que pensou nos mínimos detalhes para garantir a segurança dos animais. Assim, espalharam redes protetoras de malhas finas para impedir que eles caíssem, construíram uma escadaria com degraus de apenas dez centímetros de altura e armaram “camarins” dignos de estrelas. O resultado são cenas bem-elaboradas cujo ápice acontece numa fábrica de pães e doces onde surpresas nada agradáveis aguardam Cruela De Vil. 102 dálmatas, como quase toda continuação, não causa o mesmo impacto do primeiro filme, que, por sua vez, não tinha o charme do desenho original. Mas só por Glenn Close é uma diversão e tanto.