Cultura

Chororô, chororô

Lágrimas rolam nas novelas e nos programas de auditório

Circunspecto, o apresentador Gugu Liberato olhou para a câmera às 19h43 do domingo 26 e sentenciou: “Parece novela, mas é história da vida real.” Fora do alcance dos olhos do espectador, boa parte da equipe de seu Domingo legal chorava, enquanto a audiência batia nos 30 pontos. Roberto Manzoni, diretor-geral do programa, exagerou em sua euforia. “Paramos o Brasil, até minha mãe chorou. Foi barra pesada, foi forte”, exulta. A comoção geral se concentrou durante uma hora e dez minutos no quadro Um dia de princesa, apresentado pelo pagodeiro Netinho, que acompanhou a vida trágica da presidiária Alessandra Lopes Ferreira, detida por tráfico de drogas. Além dos prêmios dados pela produção, o que Alessandra mais queria era o perdão do pai, que aconteceu, claro, num encontro regado a choros convulsivos. Em outro canal, enquanto cantava no Domingão do Faustão, Roberto Carlos também chorava. Só que pela perda da sua mulher Maria Rita. Era mais um domingo de lágrimas, depois de uma semana na qual o espectador quase se afogou com tanto chororô na novela global Laços de família e até nos agitados Superpop, da Rede TV!, e Programa livre, do SBT, sem contar as novelas periféricas mexicanas do SBT. Necessidade catártica? Busca sadomasoquista pela audiência? As duas alternativas estão corretas, porque nunca se chorou tanto na televisão brasileira como nos últimos tempos.

Mas o fenômeno lacrimoso tem explicação. Flávio Ferrari, diretor executivo do Ibope, lembra que o controle remoto provocou uma mudança radical no hábito de se ver televisão no País, daí a necessidade de exibir atrações que prendam o espectador até seu desfecho. E mostrar gente chorando é uma estratégia perfeita. “Além disso, de um modo geral os latinos adoram acompanhar a vida alheia”, diz Ferrari. Na falta de histórias lacrimejantes, as emissoras recorrem até a casos requentados. Carla Lima, por exemplo, uma garota da zona sul carioca, se apaixonou e casou com o jogador de futevôlei Gilbert Leal. Chegou a morar na favela da Rocinha e passou a ser discriminada pelos pais. Ela já levou seu drama para programas da Rede Globo e da Rede Record. Há três semanas, é o trunfo do Superpop, da Rede TV!. “Acho importante sensibilizar as pessoas, porque isso pode acontecer com muita gente”, justifica Carla.

Numa de suas aparições implorou pela reaproximação com os pais, chorou, evidentemente, e fez a apresentadora Fabiana Saba desabar. “Não me preocupo em me emocionar em público, porque não é teatro, foi espontâneo. As pessoas do programa são sinceras, não fazem sensacionalismo”, afirma Carla. O diretor do Superpop, Fernando de Almeida, chama as frequentes aparições do casal Carla-Gilbert de novela-verdade. Diante de tais histórias, não por acaso, nas novelas-ficção colocam-se chorões em penca. Ultimamente, a boa audiência da chatíssima Laços de família tem sido atribuída aos dramalhões que permeiam sua trama. O que não deixa de ter um certo toque de humor negro, pois são exatamente as lágrimas dos espectadores que rendem anunciantes e consequentes cifrões em quantidade para as emissoras.