Artes Visuais

Novos navios negreiros

Africa Africans/ Museu Afro Brasil, SP/ até 30/8

Novos navios negreiros

Num momento em que a África está na agenda internacional da arte – com a Bienal de Veneza sob a tutela de um curador africano por primeira vez em 120 anos de história –, e se mantém à berlinda da pauta geopolítica – com um assustador crescimento de mortes de refugiados naufragados no mar Mediterrâneo – vale atentar para uma mostra de arte contemporânea africana que o Museu Afro Brasil, em São Paulo, apresenta até o final de agosto.

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Com curadoria de Emanoel Araújo, diretor do museu e dono de importante coleção de arte africana que fica permanentemente ao alcance do público, a exposição “Africa Africans” é irregular. Tem momentos altos, como a apresentação de “Skylines” (2008), escultura monumental de El Anatsui, ganês radicado na Nigéria e vencedor do Leão de Ouro na 56ª Bienal de Veneza, em cartaz até 22/11. Trata-se de uma excelente oportunidade de entrar em contato com a obra de um artista de importância reconhecida, que trabalha materiais flexíveis e reciclados, que se adaptam visualmente a cada instalação. A presente obra assemelha-se não apenas a uma paisagem urbana, mas a um imenso e luxuoso manto tribal.

Outra obra de interesse é “The British Library”, de Yinka Shonibare MBE (foto). Nascido na Nigéria e residente em Londres, ele tem o pós-colonialismo e a imigração entre seus temas de pesquisa. Composta por 6.225 livros encapados por tecidos tradicionais africanos e dispostos em prateleiras, a instalação ganha intensidade e sentido se o visitante atentar aos vídeos dispostos em monitores sobre mesas. São extratos de documentários e reportagens produzidos pela televisão britânica sobre desaparecimentos no mar durante travessias ilegais. Trágicas histórias e depoimentos de sobreviventes ou familiares de vítimas desses que são hoje autênticos navios negreiros. Mas nesta mostra que se apresenta como um panorama da produção visual do continente, lamenta-se a ausência de nomes relevantes como Romuald Hazoumé, do Benim, que realiza uma obra de forte acento crítico sobre a miserável realidade africana, que atira seus habitantes para o mar, em busca de uma vida mais digna.