Tecnologia & Meio ambiente

Nos bastidores

Livro de ex-diretor da Aol esquenta polêmica sobre indenizações

Aos 52 anos e uma carreira de sucesso como especialista em reorganizar empresas, o americano Sean Duggan teve a infelicidade de estar no lugar errado na hora errada. Em março, assumiu o cargo de diretor de comunidades virtuais da America Online (Aol), o motor que transformou a empresa no maior provedor de internet dos EUA, com mais de 22 milhões de assinantes. O fato de ser a quarta pessoa indicada para o cargo em um período de dois anos não o desanimou. Pelo contrário. Duggan mudou-se de Seattle, no extremo Oeste dos EUA, onde morava com a mulher e perto dos filhos, para o outro lado do país, na pacata Dulles, nos arredores da capital Washington, onde fica a sede da Aol.

Sua missão era dirigir e tornar lucrativas as comunidades virtuais, onde ficam os fóruns de discussões, os murais de confraternização e de troca de mensagens eletrônicas. O que parecia ser mero desafio profissional tornou-se um pesadelo. Duggan durou exatos 75 dias na empresa, onde foi alvo de investigação interna, demitido sem justificativa e proibido por contrato de revelar o que lhe aconteceu.

Sem emprego, sem casa – vendeu a de Seattle – e com o casamento em frangalhos por conta da mudança frustrada, Duggan rompeu o sigilo contratual e escreveu um livro sobre a experiência. Enquanto o executivo não encontra uma editora para publicar o relato, Fiddlers at the top (algo como Impostores no comando) pode ser baixado da internet gratuitamente no endereço www.fiddlersataol.com.

Duggan só jogou mais lenha numa disputa entre ex-voluntários e a Aol. Um grupo de 1.300 pessoas exige na Justiça americana o pagamento retroativo de salário pelos serviços executados em benefício das comunidades, que a Aol considera “o DNA da internet”. Os voluntários reivindicam o salário pelo trabalho de policiar as salas de debate, ajudar os novatos a navegar pela rede e organizar os grupos de discussão.

“A America Online insiste em chamar essas pessoas de voluntários, quando na verdade eles eram trabalhadores”, resume o advogado americano Leon Greenberg, que representa um grupo de 30 ex-colaboradores do maior provedor de acesso dos EUA. “A lei garante a todo trabalhador um salário mínimo de US$ 5,15 por hora”, diz Greenberg. “Os líderes das comunidades passavam por treinamento, trabalhavam várias horas por semana e recebiam uma assinatura gratuita do site em troca”, completa.

Em sua defesa, a America Online diz que o trabalho voluntário é comum nas empresas pontocom. “Damos a chance para que as pessoas com o mesmo interesse se unam e daí emergem os líderes”, afirma Richard Damato, porta-voz da companhia. “Ser voluntário é um sinal de prestígio”, diz o porta-voz. “A vasta maioria se dedica às comunidades virtuais por paixão”, completa.

A queda de Sean Duggan foi precipitada justamente por ele querer dar algo em troca dessa paixão. De acordo com o ex-executivo, seu plano fez água, pois recompensar os voluntários poderia chamar a atenção do Departamento americano do Trabalho, que abriu uma investigação para apurar as queixas dos ex-voluntários.

“Meu contrato terminou porque questionei a forma como os executivos estavam lidando com as comunidades ao não investir mais e não torná-las mais fortes. A Aol está com medo das ações judiciais e de ter de pagar salário a milhares de voluntários que realmente construíram a companhia”, disse Duggan a ISTOÉ. Por essas e outras é que a fusão entre America Online e Time Warner, prevista para ser concretizada até o final do ano, parece mais enrolada do que a eleição presidencial na Flórida.