Brasil

Supermáquina do ABC

Claudecir, Ademar e o ex-presidiário César brilham na João Havelange e levam o paulista "Sanca", o Azulão de São Caetano, à Copa Mercosul

As roupas espalhadas pelos beliches. Velhas panelas empilhadas no fogareiro elétrico. Garrafas de refrigerante vazias nas mesas. Chinelos jogados pelo chão. Pregado à porta, um poster da Tiazinha cover, em pose para lá de ousada. O cenário descrito é o do xadrez nº 1 do presídio de Franco da Rocha, cidade vizinha de São Paulo. Até 28 de abril, esse foi o endereço de César Aparecido Rodrigues, o César, lateral-esquerdo revelação do time surpresa da Copa João Havelange, o empolgante São Caetano.

Ainda que o final da tarde de domingo 17 marque a eliminação do time paulista da Copa João Havelange, na segunda partida contra o Grêmio, em Porto Alegre, o “Azulão” terá colocado seu nome na história do futebol brasileiro. Para chegar às semifinais, o desconhecido São Caetano passou por bichos papões como Palmeiras e Fluminense. A classificação entre os quatro primeiros já garantiu a participação do “Sanca” na Copa Mercosul 2001. Será o primeiro torneio internacional da história do clube. César, o volante Claudecir e o atacante Ademar são os destaques de um time proletário, brigador e, acima de tudo, humilde. Dos três, Claudecir já foi negociado. Defenderá o Palmeiras em 2001. César interessa ao Flamengo. Ademar tem seu nome cogitado por vários clubes grandes. Se consumadas, as transferências podem render US$ 5 milhões aos cofres da equipe do ABC.

A história de César, o ex-detento matrícula 151.397 do Estado de São Paulo, se confunde com a de milhares de adolescentes pobres e cheios de ambição. Dia 17 de maio de 1994, 9h30, rua Javari nº 177, capital paulista. Dali a duas horas, um grupo de jogadores do Juventus dividiria US$ 100 mil como prêmio pela conquista do acesso à primeira divisão do Campeonato Paulista. O dinheiro, em espécie, foi levado por um dos diretores do clube. Ao parar o carro no estacionamento, foi abordado por dois homens. Um deles, armado com um revólver 38, ordenou que entregasse o dinheiro. A poucos metros dali, César treinava. Horas depois ele foi até a casa de um dos assaltantes. Queria pegar a sua parte, US$ 33 mil. O hoje jogador do São Caetano tinha passado a “fita”, ou seja, dado as informações para o assalto. As investigações levaram a seu nome. Mesmo não tendo participado diretamente do roubo, foi enquadrado no artigo 157, assalto à mão armada.“Não precisava daquilo. Meu pai tinha um bom emprego. Mas era moleque. Tinha ambição de ter mais”, diz César.

Para complicar, na mesma época a namorada, Denise, hoje esposa do jogador, ficou grávida. Sorte que os sogros foram compreensivos. Do assalto à condenação passaram-se quase quatro anos. No dia 6 de fevereiro de 1998, César entrou na carceragem do 29º DP, na Vila Diva, zona leste de São Paulo. Tinha cinco anos e seis meses de cana pela frente. Pouco tempo depois, foi transferido para a Penitenciária do Estado, no barril de pólvora chamado complexo do Carandiru. Ficou lá até agosto de 1999, quando ganhou o direito de cumprir pena em regime semi-aberto. Em Franco da Rocha, tinha condições de voltar a jogar. Antes da prisão, teve seu passe comprado pelo São Caetano. O ex-diretor do clube, José Carlos Molina, hoje procurador, conseguiu reintegrá-lo à equipe. Agora era com ele.

Medo do passado – O craque do São Caetano, avaliado em US$ 2 milhões, procura não demonstrar mágoa. Mas não entende como Edinho, o filho do rei Pelé, e o atacante Edmundo, ambos condenados por terem causado mortes em acidentes de trânsito, ainda estão em liberdade. “São situações de Justiça. Mas duvido que eles sejam presos. Já eu, não. Era o César. Não tinha nome”, reclama. O bom comportamento e o trabalho reduziram sua pena. Em dois anos e quatro meses, ganhou o mais precioso dos bens: a liberdade. César quer esquecer. A cadeia é um assunto quase proibido. Ele teme que uma possível transferência seja atrapalhada pelo passado. “Assumo e não tenho vergonha do que fiz. Mas isso já passou. Da cadeia tirei uma lição. Agora, sei valorizar cada segundo da minha vida. Entrei e saí do mesmo jeito. Não fui corrompido pelo sistema e provei que um preso tem recuperação”, afirma. “Ele sabe o que é sofrer. Por isso, joga por amor à camisa. Não é como esses caras que só querem saber da grana”, diz F., ex-companheiro do xadrez. Condenado pelo mesmo crime de César, assalto à mão armada, tem quatro anos de prisão pela frente. Ainda não dá para cantar o refrão da música do grupo de samba Fundo de Quintal, a preferida do amigo agora famoso. “Podemos sorrir, nada mais nos impede…