Comportamento

A culpa é do chefe

Pesquisa mostra que humilhação no emprego não só afeta a produção como pode provocar doenças

Alfinetadas homeopáticas, desapreço pela tarefa realizada e comentários agressivos feitos em tom de brincadeira no ambiente de trabalho podem acabar com a saúde dos funcionários. A humilhação exercida não só por chefes mas também por colegas de profissão não é novidade, mas só nesta década seu poder de destruição está sendo reconhecido. As consequências vão muito além do ranger de dentes no fim do dia, o choro escondido no banheiro ou o desabafo na mesa de bar. Durante quatro anos, a médica do trabalho e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Margarida Barreto, ouviu 2.072 pessoas com problemas relacionados ao exercício da profissão. A partir do relato de 870 delas – 494 mulheres e 376 homens –, a pesquisadora constatou que 80% sofriam de dores no corpo, 67%, de distúrbios do sono, 45% de aumento da pressão arterial, 40% de perda do desejo sexual e 30% de dependência do álcool. Em todas elas, a depressão era um sintoma constante.

Margarida notou que as mulheres são as vítimas preferenciais das investidas demolidoras de egos. Mas são os homens quem mais sucumbem a elas, tentando até o suicídio. “Quando ele vai mal na profissão, se sente acabado. Ao contrário da mulher, raramente divide com alguém seu sofrimento”, explica ela. O eletricista R.S., 54 anos, chegou a pedir emprestado uma arma para se matar. Depois de um acidente no trabalho, que lhe tirou o movimento de um dos braços, ele começou a ser tratado pelo chefe como “imprestável e preguiçoso”. “Me viam como um frouxo, como se não fosse mais homem para trabalhar”, diz ele. O soldador de um estaleiro carioca, Teobaldo Barbosa Filho, 49 anos, nunca teve problemas no emprego. Até virar dirigente sindical. Os chefes passaram a vigiá-lo e o colocaram para trabalhar com aprendizes. “Na minha frente, eram só sorrisos, mas só sossegaram quando me puseram para fora”, conta ele. Para não levar para casa o problema, Barbosa Filho ficava andando pela rua até se acalmar.

Sutileza – Neste processo destruidor, são muitos os que confundem o valor profissional com o pessoal. Até porque há muitas formas de exercer a perversidade no trabalho. Quanto mais sutis, mais difíceis de serem detectadas. Esse tipo de relação doentia foi descrita há dois anos pela psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen no livro Assédio moral – a violência perversa no cotidiano (Bertrand Brasil). “Existe um movimento na Assembléia Nacional para aprovação de uma lei específica sobre assédio moral na França. Com ela, haveria mais vigilância e mais denúncia”, diz Marie-France. Ela define o assédio moral no trabalho como qualquer conduta abusiva – palavras e gestos que possam trazer dano à personalidade, dignidade ou à integridade física ou psíquica de alguém, pôr em perigo o emprego ou degradar o ambiente de trabalho. Controlar, fazer censuras generalizadas, emitir longos suspiros de cansaço ou bocejos enquanto o outro fala, dar risinhos irônicos e sarcásticos, pedir trabalhos inúteis ou abaixo da competência do empregado, induzir ao erro e sonegar informações são as estratégias mais usadas.

Algumas pessoas conseguem detectar essa situação e pular fora antes de um grande estrago. A relações públicas carioca Mariléia Kurahayashi, 31 anos, demitiu-se para livrar-se de um chefe cruel e descontrolado. “Ele gritava o tempo todo. Cansei de ser chamada de incompetente”, afirma Mariléia. Ela chegava em casa chorando todos os dias, tinha pesadelos e vivia aos sobressaltos. “Esbarrava em tudo, quebrava as louças. Ao acordar, a idéia de encontrá-lo me torturava”, diz. Mariléia pediu a conta, mas não deixou barato. Mandou um e-mail para o dono da empresa contando tudo e criou há um mês o site www.assediomoral.f2s.com. “Só nos primeiros dez dias recebi 250 visitas. Me escreveram do Nordeste, do Sul e até de Portugal”, revela.

No caso de Mariléia, foi fácil perceber que o desequilíbrio estava no chefe. Além disso, ela tinha segurança financeira para quebrar a relação distorcida de poder. Nem sempre isso é possível. No Centro de Referência em Saúde do Trabalhador André Grabois, em São Paulo, encontram-se diariamente grupos de até 18 pessoas para terapia. O diagnóstico: “sofrimento mental” e “fadiga crônica”, provocados por longas jornadas de trabalho, pressão por produtividade e ofensas morais. Elisa Freire de Carvalho, 41 anos, é uma das pacientes. Em 1994, ao voltar da licença-maternidade, foi rebaixada de assistente de vendas a auxiliar de arquivo. “Se reclamava, ouvia coisas do tipo: ‘olha, faz tudo direitinho. Você tem filho para criar!’”, conta ela. Também teve que encarar um chefe histérico. “Ele me tratava aos berros. Perdi o prazer de trabalhar. Tive gastrite e arritmia cardíaca”, desabafa ela. Há dois anos, Elisa foi afastada do trabalho pelo INSS com depressão profunda. “Estou em tratamento e jurei que ninguém mais vai gritar comigo. Nunca mais vou abaixar a cabeça”, promete.

Igualmente dramático é o depoimento da operária Míriam da Silva, 47 anos. O desrespeito e a excessiva carga de trabalho a obrigaram a uma aposentadoria precoce por tendinite crônica nos braços e nos ombros. Quando as dores forçavam uma parada, o chefe dizia que ela estava enrolando. Além disso, era obrigada a varrer o chão e limpar os banheiros. Míriam lançou mão dos calmantes e anti-depressivos. “Perdi até a vontade de transar com meu marido ”, diz Míriam, que acabou perdendo o emprego.

Direito de reclamar – Algumas empresas já perceberam que o preparo acadêmico e a eficiência em cargos de chefia não são garantias de um bom relacionamento com os subordinados. As mais estruturadas adotam as chamadas avaliações 360°. Ou seja, todo mundo avalia todo mundo. Outras criaram a figura do ouvidor, gerente de gente ou ombudsman. O importante é ter a quem recorrer caso surjam dificuldades de relacionamento. Na Kodak, por exemplo, o Programa Portas Abertas garante aos 1.500 funcionários a possibilidade de apelar para qualquer instância, inclusive a presidência. Este ano, uma reclamação contra um chefe chegou a gerar sua demissão. “Mesmo que a denúncia seja uma suspeita, a empresa investiga e dá um retorno ao empregado”, diz Maria Eugênia Pinto Lopes, consultora de Recursos Humanos da Kodak.

Por muitos anos, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, foi o todo-poderoso diretor de operações da Rede Globo. Boni nega ser adepto do autoritarismo e garante não ter humilhado ou desrespeitado ninguém em sua gestão. “Quem humilha ou demite subordinados submetidos a pressões é incompetente ou covarde”, define Boni, hoje consultor da presidência da emissora.

As empresas nacionais de médio porte e escoradas em estruturas familiares são as que costumam apresentar o maior índice de chefes perversos por metro quadrado. E os chefes malvados, porém produtivos, são protegidos com a desculpa de atingirem as metas da empresa. Não importando os meios. A avaliação é de Gladys Zrncevich, 44 anos, diretora adjunta da Corn/Ferry, que faz recrutamento de executivos. “Ao identificar a presença de chefes com essa conduta, bons profissionais limpam as gavetas e vão atrás de outro emprego. Novos modelos de gestão diluíram o poder, tornando obsoleta a figura do ditador do escritório”, diz Gladys. O assédio pode se iniciar com um gesto tão inofensivo que a vítima fica constrangida de reagir. E aí o agressor pode tomar fôlego maior. A dúvida dá ainda mais espaço para a arquitetura de crueldades. “O assediador retira da vítima o senso crítico. Se ela tenta uma conversa sincera, ele nega aquela situação. Diz que ela está imaginando coisas. A pessoa começa a achar que está paranóica”, aponta a médica Margarida. No fundo, quem humilha utiliza a posição de poder para esconder sua insegurança e seu medo do fracasso. Para o psiquiatra Márcio Versiani, que coordena o programa de ansiedade e depressão da Universidade Federal do Rio de Janeiro, são tipos egoístas que não suportam o sucesso alheio. “Manipuladores, eles desenvolvem um sentido especial para descobrir o ponto fraco do outro”, explica ele. Uma boa forma de encará-los é manter o bom humor e a firmeza. Em caso extremo, não descarte apelar para a Justiça. 

Colaboraram: Celina Côrtes, Clarisse Meireles (RJ)
e Sara Duarte (SP)