Brasil

Voz na contramão

O polêmico brigadeiro Piva defende a indústria bélica nacional e critica a dependência do mercado americano

Há 30 anos o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, paulista, 73 anos, acumula duas funções: expert em vinhos e em pesquisas espacial e nuclear. No intervalo de um curso sobre a bebida na adega Domaine Sainte Marie, em São Paulo, ele falou sobre as pesquisas do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e a cooperação que manteve com o Iraque. O brigadeiro já foi classificado de “perigoso” pela CIA, em função da ajuda tecnológica que deu ao regime de Saddam Hussein, do Iraque, quando dirigia o CTA. Piva também coordenou as pesquisas da instituição para a fabricação do Veículo Lançador de Satélites (VLS), tornando-se, nas Forças Armadas, um líder do movimento da tecnologia própria de defesa. “Na década de 80, o Brasil precisava de apenas três anos para fazer uma bomba atômica”, revela. Para Piva, “uma nação com os recursos naturais e a importância estratégica do Brasil não pode depender de um bazar americano”. Ele critica a adesão do Brasil ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares: “Por que só as superpotências podem ter o direito de fazer a bomba atômica, quando todos deveriam renunciar a ela?”

ISTOÉ – O que levou o Brasil a pensar em bomba atômica nas décadas de 70 e 80?
Hugo Piva –
Na época, o País sofria muita pressão, especialmente dos EUA, da França e do Reino Unido. Mas a posição do governo e, em particular do então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos, era a de que nós deveríamos continuar as pesquisas para termos condições de construir a bomba. Não havia, ainda, uma intenção de fazê-la, mas era preciso ter condições de fabricá-la, se necessário.

ISTOÉ – Houve algum momento que justificasse essa preocupação?
Piva –
Sim, principalmente em relação à Argentina. Em certo momento, os argentinos comunicaram oficialmente ao governo brasileiro que tinham dominado a tecnologia do enriquecimento de urânio. Logo, o País tinha que alcançar o mesmo grau de progresso nuclear. Caso contrário, haveria um desequilíbrio estratégico no Cone Sul. Hoje essa preocupação não tem sentido.

ISTOÉ – Então, o que justificaria continuar fazendo investimentos em tecnologia militar?
Piva –
A garantia da soberania e de uma defesa efetiva dos interesses nacionais. Se não tivermos tecnologia e uma indústria militar moderna, nunca poderemos assumir posições que interessem ao País. O Brasil tem de ter poder para desestimular violações à nossa soberania. Ficamos com uma força aérea submetida, nos últimos anos, a um sucateamento. Não podemos comprar tudo em um “bazar” de produtos militares, mas, sim, produzir o que precisamos. Falta juízo às elites que dirigem o País para sentirem que não adianta comprar na indústria americana, ainda que vários componentes possam ser estrangeiros.

ISTOÉ – Para um país carente, essas pesquisas não são muito onerosas?
Piva –
Não. Elas são um ganho para segmentos civis, porque exigem o domínio de tecnologias avançadas. Veja o caso do forno microondas. Ele é resultado de pesquisas espaciais. A pesquisa militar tem de atingir o estágio máximo da tecnologia e da ciência, porque só com o elevado domínio destas áreas é que se pode preservar a soberania. O caso atual da Colômbia mostra a necessidade de se ter uma defesa própria. Há outras coisas que custam bem mais caro. A corrupção impõe um custo elevado e parece não ter solução. Todo país precisa ter uma indústria de defesa forte. Sem megalomania, sem exageros, mas uma indústria com tecnologia própria. Ninguém passa certas tecnologias.

ISTOÉ – Mas no caso do Programa Espacial brasileiro, não houve ajuda americana?
Piva
– Os americanos boicotaram nosso programa espacial, assim como outras potências, e tivemos que aprender a dominar a tecnologia com a inteligência de engenheiros brasileiros, civis e militares. A propósito, vale lembrar o que disse o ex-secretário de Defesa dos EUA e ex-presidente do Banco Mundial, Robert McNamara: “A melhor maneira de manter um povo pobre e subdesenvolvido é fornecer-lhe tecnologia pronta.” Por isso alguns países não querem que o Brasil tenha um caça supersônico baseado em projeto brasileiro.

ISTOÉ – Mas como o Brasil poderia enfrentar as pressões de Washington para comprar material dos americanos?
Piva –
Fidel Castro enfrentou pressões muito maiores. Os EUA não são nossos inimigos, mas defendem seus interesses. Nós temos de defender os nossos. Acordos como o de assistência militar que o Brasil tinha com os EUA – denunciado em 1977 – eram desastrosos. Eles só nos mandavam material obsoleto. O Brasil ainda tem uma indústria aeronáutica forte, mas perdeu a capacidade de produção de carros de combate para o Exército. Com a globalização, temos de ter acesso às duas vias, do contrário ela só vai valer para os ricos. Por isso o Mercosul é importante. Temos de pensar como nação sul-americana, em termos de economia mundial.

ISTOÉ – O sr. foi pressionado a dar explicações aos americanos sobre a cooperação técnico-militar do Brasil ao Iraque na década de 80?
Piva –
Houve muita pressão e polêmica durante a Guerra do Golfo, quando tivemos que retornar ao Brasil. Depois da guerra algumas fontes americanas pretenderam pôr em nós a responsabilidade pelo apoio militar que o Iraque havia recebido. Alegaram que cedemos a Bagdá tecnologias especiais de foguete e tecnologia nuclear. Pelo que eles especulavam, parecia que éramos gênios…

ISTOÉ – O sr. foi interrogado pelos americanos sobre essa cooperação?
Piva –
Como está no livro Do Fortran à Internet, de Tércio Pacitti, tive a iniciativa de esclarecer à Embaixada americana qual cooperação fornecemos ao Iraque. Mas, pessoalmente, sempre tive a convicção de que a CIA tinha conhecimento sobre a tecnologia que passamos. A CIA, sem dúvida, estava no Iraque naquela ocasião. Como está em São Paulo, e, creio, quase, em toda parte
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