Comportamento

Balé da cidadania

Experiências educacionais bem-sucedidas usam a dança como instrumento de inclusão social

Durante muitos anos, a bailarina e coreógrafa cearense Dora Andrade ouviu comentários pouco lisonjeiros. Sempre que saía às ruas de Fortaleza, pessoas abastadas costumavam cochichar: “Ih, lá vem Dora e seus pobres.” Era o início dos anos 90 e seu trabalho à frente da Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente (Edisca) dava os primeiros passos. Usando a dança como instrumento de inclusão social, a Edisca transformou-se num dos mais bem-sucedidos projetos de educação e arte do País. Seus espetáculos, que usam o Nordeste como cenário e seu povo como protagonista, são hoje consagrados no Brasil e no Exterior. Dora vem provando nos palcos que é possível reescrever o destino de crianças que tinham os pés calejados pelo solo estorricado da região. “Sempre gostei de dançar, mas nunca achei que poderia ser bailarina. Pensava que balé era coisa de gente rica”, lembra Aline Patrício, 17 anos, os últimos nove passados na Edisca.

Depois de participar de mais de uma dezena de espetáculos, Aline hoje é uma adolescente viajada. Além das principais capitais brasileiras, conheceu a França e a Itália. “Já vi muita coisa bonita, mas não fico deslumbrada. Somos 18 irmãos e meu pai está desempregado há oito anos. Tenho consciência de que meu trabalho é o sustento da minha família”, diz Aline. Além da bolsa-educação de R$ 130 que recebe na Edisca, Aline já dá aulas de balé para crianças menores em outro projeto na periferia de Fortaleza. Como instrutora, recebe mais R$ 120. O fantasma da fome que povoa o lar de Aline não é exceção. A realidade familiar dos alunos da Edisca (um total de 258 alunos) é idêntica. Na tentativa de interferir nesta situação, a escola oferece aulas de história da arte, oficina de teatro, canto coral e artes plásticas. Também dá atendimento médico, odontológico e psicológico, orientação sexual, noções de higiene e alimentação, além de programas de apoio à escola formal. “Estamos rompendo dois preconceitos: estético, porque nossos alunos não têm o biotipo de bailarinos; e sócioeconômico, porque as crianças que sobem no palco são muito pobres”, avalia Dora.


O projeto da Edisca virou exemplo até para duas das mais consagradas companhias de dança moderna do País: o Stagium, de São Paulo, e o Grupo Corpo, de Belo Horizonte, que implantaram projetos nos mesmos moldes.

Outra iniciativa bem-sucedida é a Associação Dançando para Não Dançar, no Rio. A bailarina carioca Thereza Aguilar ensina desde 1993 balé clássico para moradores de sete das maiores favelas da cidade: Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Rocinha, Chapéu Mangueira, Morro dos Macacos, Babilônia e Mangueira. “Trabalhamos com crianças que vivem em situações de risco. Apesar das adversidades, elas estão preparadas para enfrentar os palcos do Teatro Municipal”, orgulha-se Thereza Aguilar, que atende 140 crianças, de sete a 15 anos.

A experiência desenvolvida nestas favelas espalhou-se pelo mundo. Há dois anos, a Staatliche Ballettschule, de Berlim, na Alemanha, convidou sete alunos para um estágio de 15 dias. Duas destas crianças ganharam bolsas de estudo para ficar lá por mais dois anos. A Staatliche é considerada uma das melhores escolas de balé do mundo. “Sempre gostei de pagode e samba, mas agora aprendi a ouvir música clássica”, comenta Paulicéia Borges, 12 anos. Moradora da Mangueira, a menina é considerada uma aluna promissora. Sua rotina é puxada: ela ensaia durante quatro horas por dia na Vila Olímpica da Mangueira, em um outro grupo de balé no morro do Cantagalo e recentemente também começou a participar das aulas da Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Paulicéia está gastando a sapatilha para atingir seu objetivo maior, que é tornar-se bailarina do Municipal. Outras 32 crianças, entre meninos e meninas, saídas do Dançando para Não Dançar, estão agarrando-se com todas as forças a esta oportunidade.

Transformação – A Edisca e o Dançando para Não Dançar hoje têm como fontes de financiamento empresas e fundações e também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES – (leia quadro à esq.). Não é o caso da Cia Étnica de Dança e Teatro, do Rio. A coreógrafa autodidata Carmem Lux lembra que aprendeu a dançar nos rituais em homenagem aos orixás. Desta primeira experiência, nasceu o desejo de tornar-se profissional. “Sonhava em ser bailarina clássica, mas acabei virando performer”, declara Carmem. Com a bagagem acumulada na graduação em literatura, na pós-graduação em teatro e nos cursos de dança moderna, Carmem acabou desenvolvendo um projeto no Morro do Andaraí, zona norte do Rio. “Juntamos movimentos oriundos das danças clássica, afro-brasileira, indígena, oriental e até das lutas”, explica Carmem, que trabalha atualmente com 60 adolescentes. “Não faço uma dança inocente”, garante ela, que usa e abusa dos movimentos corporais para discutir questões sociais de extrema gravidade. Convencida de que através da arte é possível transformar a sociedade, ela estimula seus alunos a usar os espaços públicos. Depois de seis anos de atividade praticamente sem nenhum tipo de apoio ou patrocínio, a Cia Étnica de Dança e Teatro impressiona pelo profissionalismo. Carmem acredita que, agora, o período de penúria vai chegar ao fim. Ela recebeu o sinal verde do BNDES, que estuda um projeto de financiamento para o grupo. “Meu sonho é abrir um centro de dança moderna com a galera do morro”, afirma. 

A fundo perdido
Carlos Magno
Grupos como o Projeto Luar, do Rio, aguardam ajuda do BNDES

Transformar a realidade de crianças carentes e impedir que elas repitam o ciclo vicioso da miséria enfrentada por suas famílias não é uma tarefa fácil. Nem basta uma boa idéia e dedicação exclusiva. Para viabilizar os projetos é preciso, sobretudo, recursos financeiros. Há três anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passou a apoiar a fundo perdido dezenas de projetos de cunho social. Entre eles, estão 81 iniciativas na área de arte-educação, espalhadas por 26 Estados. Cerca de dois milhões de crianças e jovens já foram beneficiados com um total de R$ 128 milhões. Uma exigência é fundamental: todas as crianças precisam frequentar a escola. Os projetos de arte-educação também recebem ajuda de outras organizações. A Edisca, por exemplo, conta com o apoio dos institutos Ayrton Senna e Credicard, além de outras empresas. O Dançando para Não Dançar obteve recursos da Petrobras, Nestlé e Lufthansa. Outras entidades continuam na fila para ter acesso às verbas do BNDES. Como o Projeto Luar, do Rio de Janeiro, que oferece aulas de dança clássica e contemporânea para 700 crianças e jovens de Duque de Caxias e São João do Meriti, na Baixada Fluminense, e já tem o apoio da Shell. “Investir em projetos sociais hoje é certeza de retorno para as empresas e para toda a sociedade”, diz a coreógrafa do projeto Rita Serpa.