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Síndrome dos Bálcãs

Urânio de munição usada no Golfo e Iugoslávia pode ter causado câncer em soldados e civis


O conceito de “guerra limpa”, criado a partir dos bombardeios ditos cirúrgicos e com mínimas baixas, efetuados pelas forças militares ocidentais na Guerra do Golfo Pérsico e nos Bálcãs, está se mostrando tão impreciso quanto a pontaria dos artilheiros que dispararam muitos petardos sem acertar os alvos desejados nessas operações. A idéia de que se poderia fazer uma guerra aérea sem vítimas entre os soldados americanos e seus parceiros nos ataques ocidentais ao Iraque (1991), à Bósnia (1995) e ao Kosovo (1999) se estilhaçou como uma bomba de fragmentação depois que países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) começaram a computar vítimas tardias entre suas forças. Nada menos do que 19 soldados, de diversos países europeus, morreram desde que participaram daqueles conflitos. E eles foram atingidos não pelas balas inimigas, mas por vários tipos de câncer – notadamente a leucemia –, numa versão moderna de “fogo amigo”, quando soldados morrem pelos disparos dos próprios companheiros. As suspeitas são de que esses contingentes, que entraram no teatro de operações depois dos bombardeios, sofreram consequências tardias do uso de munições que utilizam urânio empobrecido. Este é um tipo de urânio com menor radioatividade, mas ainda assim radioativo. Devido à sua grande resistência e capacidade de penetração, essa substância é empregada em projéteis disparados de metralhadoras de aviões ou tanques com o objetivo de destruir blindados e abrigos de concreto. No Kosovo, cerca de 31 mil desses projéteis com urânio foram despejados pela Otan em áreas sérvias; na Bósnia foram cerca de dez mil.

O Pentágono insiste que não há relação de causa e efeito entre as moléstias que atingem os soldados europeus – a maioria, italianos que participaram de operações terrestres realizadas depois dos bombardeios – e as munições com urânio empobrecido. Mas o Departamento de Defesa dos Estados Unidos se apressou em lembrar também que alertou seus aliados da Otan. “Foram feitos vários comunicados sobre as precauções que deveriam ser tomadas no contato com urânio empobrecido pulverizado durante os ataques”, disse a ISTOÉ um porta-voz do Pentágono. O simples fato de que esse tipo de alerta tenha sido necessário indica que há problemas decorrentes do uso deste material.


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Já em 1998 o jornal inglês The Independent publicava histórias de centenas de crianças e adultos civis da região de Basra, no Iraque, acometidos de uma estranha epidemia de câncer, principalmente leucemia. O médico iraquiano Jawad Khadim al Ali mostrou mapas nos quais assinalou locais em que a doença quadruplicou no pós-guerra. As comparações entre as áreas bombardeadas e as de incidência de câncer mostraram que havia muito mais do que mera coincidência em sua superposição. Nos últimos dias da Guerra do Golfo, Basra e arredores foram encobertos pela poeira radioativa resultante dos projéteis despejados por lá.

O Department of Veteran Affairs, órgão do governo americano que trata dos assuntos relativos a veteranos de guerra, computou mais de três mil casos de ex-combatentes no Iraque vitimados por uma suposta síndrome do Golfo. A incidência de câncer e outras moléstias indica que havia algo mais além dos aviões nos ares da região. Foram levantadas suspeitas de que as vacinas para imunizar os soldados contra os efeitos de armas químicas eram responsáveis pela situação. Também se acusou o ditador iraquiano Saddam Hussein de ter usado secretamente seu arsenal químico. Mas não se conseguiu provar nada. Na semana passada, a jornalista francesa Marie-Claude Dubin, que cobriu o Iraque e os Bálcãs, denunciou que sofria dos mesmos males que afligem soldados americanos e britânicos que atuaram nesses conflitos.

Ossos do ofício – Soldados e correspondentes de guerra sabem que a morte ou danos irreparáveis à saúde fazem parte dos ossos do ofício. Mas o mesmo não acontece com as populações civis involuntariamente envolvidas em conflitos armados. As crianças do Iraque agora têm a companhia de kosovares, bósnios e sérvios que experimentam os efeitos retardados dos projéteis com urânio empobrecido. A elas podem se juntar também insuspeitados comensais italianos, que tiveram às suas mesas os peixes do mar Adriático. É possível que os cardumes da região tenham sido contaminados pelas centenas de bombas não disparadas ou desativadas, despejadas naquelas águas pelos aviões americanos da Otan de volta a sua base em Aviano, no Norte da Itália. E os países da União Européia nem sequer começaram a anotar os casos de câncer em Belgrado do pós-guerra. A capital iugoslava é bem mais populosa do que outras cidades do país, e foi severamente castigada durante o conflito. Lá, o trabalho de limpeza depois dos bombardeios foi feito em tempo recorde, mas pode ser que tenha sido meramente cosmético.

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