Artes Visuais

Poesia da terra arrasada

Anselm Kiefer - Paintings/ White Cube, SP/ até 20/6

Poesia da terra arrasada

“Abril é o mês mais cruel, cultivando Lilazes na terra morta, misturando memória e desejo, remexendo raízes morosas com a chuva da primavera”. Esta livre tradução da primeira frase do poema “The Waste Land”, escrito por T.S. Eliot em 1922, poderia ser um segmento da pintura recente do alemão Anselm Kiefer. Suas cinco pinturas em grande formato atualmente em exposição na galeria White Cube São Paulo são como capítulos de uma história de fogo, morte, cinzas, trovões, destruição, chuva e renascimento, e que encontram um eco distante nas cinco partes do poema de Eliot.

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Apontado pela crítica como um dos mais importantes artistas contemporâneos do mundo, Kiefer é um pintor a quem se atribuem habilidades alquímicas e que efetivamente extrai de seu trabalho a potência do ferro e do fogo. Mais que uma arte puramente visual, sua pintura pode chegar a ser uma experiência sensorial e física. Especialmente se o espectador se deixar tocar pela pela grande dimensão da tela e pela abundância e qualidade da matéria que cobre sua superfície.

Os trabalhos em exibição em São Paulo combinam camadas de tinta acrílica com metal, sal e sedimentos eletrolíticos não fixados, que continuam se transformando fisicamente durante toda a existência da pintura. Ou seja, são obras vivas. Referem-se à história da Alemanha. Mais especificamente a uma passagem dos anos pós-guerra no país, o Plano Morgenthau, concebido pelos EUA para desmantelar os centros industriais germânicos e recolocar o país em condição de nação agrícola. Em vez de Lilazes, visitamos cinco campos de trigo em meio à turbulência e destruição. Somos posicionados em um ponto de vista de dentro da vegetação, o que nos reduz à insignificância do espectador das grandes tragédias e atrocidades do mundo.

A sensação física de arrebatamento diante das pinturas de Anselm Kiefer – irmanada à sensação sublime provocada pelo Romantismo alemão – atinge o ápice na última tela da exposição, feita com sulfato de cobre verde e folhas de ouro. Como um epílogo, revela a pintura em toda sua potência, explodindo em luz e aproximando-se dos mitos de fertilidade, abundância e vida.