Comportamento

Os sobreviventes do massacre de Realengo

Quatro anos depois da tragédia que assombrou o País, as vítimas contam histórias de superação, dor e revolta

Os sobreviventes do massacre de Realengo

Os disparos parecem ainda ecoar em Realengo, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, cenário de uma tragédia que horrorizou o Brasil. Em 7 de abril de 2011, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, passou tranquilamente pela portaria da Escola Municipal Tasso da Silveira. Na seqüência, vieram momentos de pavor, com crianças banhadas em sangue, que traumatizaram o País. Nos quase 12 minutos em que descarregou os dois revólveres, de calibres 32 e 38, comprados meses antes para o objetivo macabro, Wellington ceifou a vida de doze estudantes e deixou 17 feridos. Quatro anos depois, ISTOÉ voltou ao bairro. Dentre os quatro sobreviventes que levaram tiros, uma garota ficou paraplégica, um menino perdeu a visão de um olho e os outros lidam com sequelas menos drásticas. Os familiares também foram atingidos. Duas mães enfrentam graves desequilíbrios emocionais, pelo menos três parentes sofreram infarto, sendo um deles fatal. Já a escola escolheu o pior caminho, segundo especialistas: adotou a lei do silêncio.

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CORAGEM
Luan Santos fez três cirurgias no cérebro e não tem mais a visão no olho
direito por causa dos dois tiros que levou. Curado da depressão,
quer estudar engenharia


Thayane Tavares, hoje com 17 anos, era uma assídua praticante de atletismo antes de três balas se alojarem em sua coluna vertebral e deixá-la paraplégica. Impressionante exemplo de superação, a jovem continua atleta e hoje faz canoagem. “Não vou parar minha vida por estar em cima de uma cadeira de rodas. Tive os sonhos adiados, mas ainda os tenho”, afirma a aspirante a advogada que aguarda ansiosa pelo próximo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Atualmente, ela faz progressos na fisioterapia e acredita que voltará a andar.

O boné, que há quatro anos não sai da cabeça de Luan Santos, 17, esconde a cicatriz que lhe percorre o crânio. Ele ficou cara a cara com o assassino, que colocou a arma em sua face e atirou duas vezes. Uma bala atingiu seu olho direito e o cegou. O garoto perdeu massa encefálica, enfrentou três cirurgias e a depressão, mas emergiu. Afirma que, mais do que nunca, gosta de comemorar seu aniversário, no dia 29 e março, jogando futebol com amigos. Apesar de reconhecer que nunca conseguirá esquecer o horror que viveu, Santos diz ter enfrentado o trauma com o apoio dos amigos, da família, de terapia e de “ajudinhas especiais”, como a visita dos ídolos Ronaldinho Gaúcho e Cafu ao hospital. O antigo bom aluno acabou repetindo dois anos do colégio. Hoje, quer mais é que venha o futuro. “Serei engenheiro. Gosto muito de matemática e química. E, o que quero, consigo.”

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NEGAÇÃO
Depois das cenas de horror em suas salas de aula, a Escola Municipal
Tasso da Silveira passou por uma reforma. Mas se recusa a tocar
no assunto e proíbe seus alunos de fazê-lo

Apesar das jovens vítimas lutarem para seguir em frente, a memória da tragédia é patente. Edson Clayton, 18, não esquece cada detalhe dos minutos de agonia passados no chão da sala de aula onde permaneceu deitado com duas balas no abdômen e uma no maxilar. “Estava na primeira sala em que ele entrou. Não atirava a esmo nem demorava, mirava e logo apertava o gatilho. Não escolhia ninguém, era quem estivesse na frente. O último tiro que levei foi cara a cara. Depois disso fiquei encolhido com muita dor, mas não apaguei.” Ao completar a maioridade, neste mês, ele teve acesso à indenização concedida pelo município e pretende comprar uma casa com o dinheiro. De resto, o fatídico 7 de abril mudou sua forma de encarar a vida. “Hoje penso mais nos outros e vivo intensamente”, diz Clayton, que alimenta o sonho de ser paraquedista do Exército.

Duas ex-alunas, Bruna Lopes, 16, e Tainá Bispo, 19, viveram experiências similares. Conseguiram escapar dos disparos, mas ficaram com sequelas emocionais por perderem pessoas muito importantes. Tainá machucou a coluna ao cair na escada perto do atirador, mas não levou tiro e fugiu. Porém, sua irmã mais nova, Milena, então com 14 anos, morreu. “Ele me tirou a irmã e também a inocência da infância. Passei a ver o mundo de forma fria. É triste admitir isso, mas me tornei uma pessoa seca”, diz. Já Bruna estava no terceiro andar do prédio e precisou correr muito com outros 40 estudantes para fugir das balas. Todos se comprimiram em uma sala que teve a porta trancada e bloqueada por móveis. “Quando o policial bateu, entramos em pânico por achar que era o assassino”, lembra. Ao sair, porém, soube que a melhor amiga, Géssica Guedes, 15 anos, tinha falecido. O golpe levou Bruna a precisar de tranquilizantes para manter a rotina.

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Segundo a psicanalista carioca Monica Donetto, o tempo e a reação de cada pessoa frente a um trauma com este grau de violência podem variar muito. “As relações familiares e as experiências prévias, em geral, ditam a reação. Se era uma criança protegida no seio familiar e que não presenciava eventos mais fortes, o choque pode ser maior”, afirma. Para enfrentar o luto e se ajudarem mutuamente, as famílias envolvidas na tragédia criaram a Associação Anjos de Realengo. Hoje, a instituição carrega bandeiras como a conscientização dos profissionais de educação para identificar alvos de bullying — por este motivo, o assassino teria voltado à sua ex-escola em um funesto acerto de contas — e a presença de psicólogos e seguranças em todas as escolas.

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Adriana Silveira, presidente da associação e mãe de Luiza Paula, uma das vítimas fatais, encontrou forças na causa pela qual agora dedica a vida. “Confesso que machuca saber que nenhuma providência foi tomada para que a morte deles não fosse em vão. Ainda não há proteção nas escolas”, afirma. “Ao se matar, ele nos tirou até a possibilidade de brigar por justiça.” A criação de uma associação ou similar é a melhor ferramenta para seguir em frente, aponta Andréa Junqueira, coordenadora do grupo de estudo independente Formação Freudiana. Suely Guedes, mãe de Géssica, confirma. “Só eles entendem completamente a minha dor.” Segundo a psicanalista, a pior coisa a se fazer é transformar o assunto em um tabu. “Quem sofreu diretamente vai viver com esse fantasma e precisa conversar. O luto tem que ser vivido para se construir possibilidades de reagir e lidar com o trauma.”

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Contrariando as indicações dos especialistas, o massacre que arrasou a escola em 2011 se tornou assunto proibido dentro da Tasso da Silveira. Em um sarau, no ano passado, uma das alunas iniciou uma homenagem aos colegas mortos e o microfone teve o som cortado abruptamente. Ao final, ela teria sido repreendida pela diretoria. “Disseram que os nomes daquelas crianças não deveriam ser falados dentro do colégio”, disse uma testemunha à ISTOÉ, que não pôde entrar nas dependências da instituição e foi informada que a atual diretora não dá entrevistas. 

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