Entrevista

Marcelinho

”Dei porrada no Vanderlei”

”Dei porrada no Vanderlei”

Desafiado pelo técnico do Corinthians, Marcelinho dá sua versão para as brigas que o afastaram do time e relata pancadarias na concentração

Eduardo Marini e Mario Simas Filho
Edição 05/09/2001 - nº 1666

O meia Marcelinho Carioca e o técnico Vanderlei Luxemburgo possuem vários pontos em comum. Os dois são polêmicos, vencedores, marqueteiros, ambiciosos e extremamente vaidosos. Exibem uma capacidade espantosa de se envolverem em confusão. E desejam a mesmíssima coisa: o posto de estrela número 1 entre os milhões de torcedores do Corinthians, um dos clubes mais amados do planeta. Por isso, as ocasiões em que bateram de frente resultaram em barracos monumentais. Nesta entrevista, concedida a ISTOÉ no Armani Cafè, um restaurante chique de São Paulo, Marcelinho revelou que nesses barracos, além de bate-boca e garotas de programa, rolou muita pancadaria. “Enchi o Vanderlei de porrada”, afirma o craque. Não é à toa que o colunista Fernando Calazans, de O Globo, escreveu recentemente: “O Marcelinho é o Vanderlei dos jogadores e o Vanderlei, o Marcelinho dos técnicos.”

No último quiproquó, ocorrido há cerca de um mês na cidade mineira de Extrema, Vanderlei afastou o desafeto do elenco do Corinthians. O jogador teria acusado o colega Ricardinho de ser o “traíra” do grupo. No futebolês, traíra significa o judas que entrega o conteúdo das conversas dos atletas aos dirigentes e à comissão técnica. Com a aparente solidariedade do grupo, Vanderlei desafiou: “Quero ver se o Marcelo tem coragem de contar o que aconteceu quando eu o puni, em 1998.” Sem responder, Marcelinho rebateu no mesmo dia. “Devolvo o desafio: quero ver ele contar o que ocorreu na madrugada anterior à final da Copa do Brasil 2001, vencida pelo Grêmio”, disse o jogador. Nesta entrevista, Marcelinho aceitou o desafio e deu a sua versão para as confusões ocorridas em 1998, que incluíram cenas de pugilato entre o jogador e o técnico em hotéis de Salvador e São Paulo. Em alguns momentos, deixou a impressão de não querer revelar detalhes que poderiam comprometê-lo, mas deu um depoimento corajoso. Disse que não mencionou o nome de Ricardinho nas reuniões com os colegas, negou que tenha comentado o assunto com jornalistas e rebateu a acusação de ter chamado garotas de programa para os hotéis em que o time estava concentrado. “Se eu quisesse sair com mulher, iria avisar ao Vanderlei e tenho certeza que ele iria junto.” Ele se recusou, porém, a revelar o que o técnico teria feito de tão grave antes da final da Copa do Brasil. “Se eu contar isso, nunca mais jogo em time nenhum. Quero ver se o Vanderlei é macho para responder.” Na semana passada, enquanto Marcelinho finalizava com seus advogados a estratégia para conseguir na Justiça o direito de jogar em outro clube, algumas agências informaram que diretores do Corinthians estariam trabalhando pela volta de Marcelinho e a demissão de Vanderlei.


ISTOÉ

 Luxemburgo fez um desafio. Ele fala que você não é homem para dizer por que foi punido em 1998, durante o torneio Maria Quitéria, disputado em Salvador (BA)…

Marcelinho Carioca

 Tenho problemas com o Vanderlei desde 1991, no Flamengo. Já trabalhei com 15 técnicos e só tive problemas com ele. Os outros 14 estão errados? Ele já brigou com o Romário, com o Edmundo, com o Antônio Carlos, com o Edílson, com o Vampeta e até com o Leonardo, na Seleção. Será que todos estão errados? O Vanderlei está colocando o seu estrelismo acima dos interesses do Corinthians. A torcida não irá perdoá-lo por isso.

Marcelinho Carioca

 Vou contar. Em julho de 1998, no torneio Maria Quitéria, estávamos no mesmo hotel da equipe do Luciano Huck e a produção do Programa H. Na noite anterior ao jogo contra o Palmeiras, encontrei o LP, produtor do Luciano e o cara que fez minha primeira fita, Batendo bola com Marcelinho. Estávamos produzindo a segunda fita. Depois do jantar, fui ao quarto do LP para discutir o projeto. Deveria estar no meu quarto às 23h, mas só voltei por volta das 23h30. Quando cheguei, o segurança Chicão estava me procurando feito um maluco, dizendo que o Vanderlei havia dito que eu estava num quarto com duas primas do Rodrigo (antigo lateral direito do Corinthians). Muito bonitas, aliás.

ISTOÉ

Na época, se dizia que você tinha passado a noite com duas dançarinas do H. Outra versão dava conta de que sua companhia era a Tiazinha…

Marcelinho Carioca

Isso seria maravilhoso, um prêmio. Respeito o Eriberto, marido dela, mas seria um prêmio para qualquer homem ter saído com a Tiazinha. Só que isso não aconteceu. Voltando ao caso, o Chicão disse que o Vanderlei havia dito que eu estava com as mulheres. Fiquei furioso com isso e resolvi ir ao quarto dele para explicar as coisas. Cheguei até a fazer comentários com o Edilson. Fiz isso porque conheço o esquema do Vanderlei. Sempre que há um jogo difícil, ele coloca uma carta na manga. Se o time perder, ele diz que a culpa foi disso ou daquilo. Naquela noite, resolvi que ele não iria me colocar como uma carta na manga de jeito nenhum.

ISTOÉ

Então você foi tirar satisfação com ele?

Marcelinho Carioca

Cheguei no quarto dele e bati na porta. Não sei se ele estava sozinho, mas demorou para atender e veio com cara de cansado, embora não estivesse dormindo. Fui cobrar o que ele estava dizendo. Ele começou a discutir e fui para cima dele. Saímos para as vias de fato. Dei porrada no Vanderlei. Ele não tem moral para me cobrar nada. Se eu tivesse que sair com mulher, iria avisá-lo e tenho certeza de que ele iria junto.

ISTOÉ

Mas a coisa foi séria…

Marcelinho Carioca

 O pau comeu pra valer. Rolamos pelo corredor até a porta do elevador. Os outros jogadores ouviram e foram nos separar. Fui punido e ele alimentou os boatos de que eu estava com as mulheres. Mas a verdade é que fui punido porque dei porrada nele. Isso ele não tem coragem de falar.

ISTOÉ

E depois?

Marcelinho Carioca

 Fiquei afastado 19 dias e resolvi afagar o ego dele. Fui lá e pedi desculpa, inclusive em programas de televisão. Ele se sentiu grandão e fizemos aquele jogo de cena de beijar o técnico depois dos gols. Tudo representação, coisa de dois trouxas, dois babacas. Nunca houve diálogo nem uma amizade entre nós.

ISTOÉ

Correm boatos de que, em outubro, também de 1998, você voltou a trocar tapas com o técnico. É verdade?

Marcelinho Carioca

Isso aconteceu no Hotel Wall Street, em São Paulo. É um hotel que o Vanderlei adora. Ele conhece todas as faxineiras, as camareiras e o dono. Bom, nos concentramos no sábado para jogar com o São Paulo no dia seguinte. Desci às 22h10 e o segurança Chicão veio na minha cola. Eu ia ao banheiro, ele vinha atrás, eu ia para o restaurante, ele ia atrás…

ISTOÉ

Por que você desceu?

Marcelinho Carioca

 Fui levar uma camisa que havia prometido para um amigo. Telefonei e o rapaz veio buscar. Isso é normal. Acontece sempre, mas o Chicão não largava do meu pé. Expliquei para ele que estava esperando um amigo para dar a camisa e pedi para ele sair do meu pé, pois estava no hotel e dentro do meu horário. Começamos a bater boca e saiu uma pancadaria. Ele disse que eu ganhava R$ 150 mil só para bater falta. Respondi que ele ganhava R$ 12 mil só para me sacanear, e começou a pancadaria.

ISTOÉ

Nesse caso, a imprensa divulgou que o Chicão pegou no seu pé porque você teria chamado, por telefone, as garotas de programa para a concentração…

Marcelinho Carioca

 Negativo. Veja bem. Se eu tivesse que ficar com mulheres, não faria isso no hotel, na concentração, onde há olhos por todos os lados. Eu tenho tanto tempo livre. Sou cobra com veneno. No dia seguinte, na hora do almoço, o Vanderlei chegou na minha orelha e falou assim: “Quem manda aqui sou eu e você não tem que brigar com o Chicão.” Respondi que ele não tinha nada a ver com isso e que, se o Chicão continuasse a me perseguir, a porrada iria rolar de novo. Então, ele deu um tapão na mesa. Levantei, fui para cima dele. Chegamos de novo às vias de fato, com muita porrada. Os outros jogadores separaram e eu fui afastado outra vez. Peguei um táxi e fui para casa. Depois, ele novamente espalhou a história de mulheres, que não aconteceu. Não tenho vergonha de dizer isso, mas quero que ele responda o que aconteceu na véspera da final da Copa do Brasil deste ano.

ISTOÉ

O que aconteceu?

Marcelinho Carioca

 Respondi o desafio que ele me fez em detalhes. Quero ver ele responder isso. A coisa foi muito grave e eu não sou traíra.

ISTOÉ

Mas não é hora de abrir o jogo todo?

Marcelinho Carioca

 Às 22h, eu estava no saguão do hotel com o meu psicólogo, Jacob Goldemberg. Quando subi, vi toda uma situação criada. Havia mulheres de São José do Rio Preto na recepção. Então, peguei no braço do segurança e disse: “Olha, você vai me levar para o quarto.” Falei para o André Luiz (ex-lateral do Corinthians) que iria ter confusão e resolvemos trancar a porta. Foi uma bagunça geral. De dentro do quarto, ouvíamos a andança no corredor e as portas se abrindo e fechando. De madrugada, bateram em nossa porta. Abrimos e mostramos ao segurança que estávamos só os dois dentro do quarto. À 1h30, o telefone tocou. Era o Vanderlei convocando uma reunião que durou quase até as 3h. Ele que conte o que ocorreu nessa reunião. A coisa é muito grave e não é à toa que não jogamos nada contra o Grêmio. O time entrou em campo com medo, não passava uma agulha em nenhum jogador. Mas quero ver se o Vanderlei é homem para dizer o que aconteceu na reunião. Eu não vou dizer porque não sou traíra.

ISTOÉ

O seu afastamento, que parece definitivo, se deu em razão de problemas ocorridos em Extrema (MG), na preparação para o campeonato brasileiro e para a Copa Mercosul. O que aconteceu?

Marcelinho Carioca

 Estávamos treinando em Extrema e fui chamado pelo diretor Roque Citadini. Vim para São Paulo e ele me deu uma dura por causa das declarações que eu vinha dando para a imprensa. Estava reclamando de três coisas: falta de reforços para o time, favorecimento que a Hicks (patrocinadora do Corinthians) estava dando ao Cruzeiro e falta de empenho do departamento jurídico, que não lutou para que eu pudesse jogar contra o Colo-Colo no Chile. Respondi que as declarações não eram só minhas, mas de todo o grupo. E me comprometi a ficar calado, como realmente fiquei.

ISTOÉ

Então qual foi o problema?

Marcelinho Carioca

Citadini disse que ficava sabendo de tudo o que se passava entre os jogadores. Quando voltei para Extrema, fui para o pau.

ISTOÉ

O que você fez?

Marcelinho Carioca

 Conversamos com vários atletas. Eu falei com o Scheidt, com o Otacílio, com o Paulo Nunes e com o Batata. O Gleguer falou com o Rogério, com o Andrezinho, com o Gil. Enfim, vários atletas falaram entre si e resolvemos que as coisas não poderiam continuar vazando. Essas conversas foram tidas à noite, nos quartos dos jogadores. Chegamos a um consenso de que deveria ser feita uma reunião no dia seguinte, com todos presentes, para colocar as coisas em pratos limpos. Assim foi feito. Na reunião, colocamos vários assuntos.

ISTOÉ

 Existe a versão de que você disse, na véspera, para o Scheidt, que o traidor era o Ricardinho e, no dia seguinte, diante dos colegas, não teve coragem de repetir o que havia falado…

Marcelinho Carioca

Não disse o nome do Ricardinho com o Scheidt nem na reunião do dia seguinte. Nunca o acusei de nada. A reunião foi em uma sala ao lado do comitê de imprensa. Tivemos a preocupação de fechar as janelas, mas nos esquecemos dos basculantes do banheiro. O Andrezinho chegou atrasado. Disse que os jornalistas estavam rondando a sala e que poderíamos estar sendo ouvidos do lado de fora. Acho que foi assim que vazou. A reunião foi tensa, todos falaram um monte de coisas, mas não foi citado nenhum nome. Em toda a minha carreira jamais entreguei o nome de algum atleta. Isso não é do meu caráter. Na reunião, os jogadores mais experientes, inclusive eu, disseram que o traidor seria descoberto e que teria porrada. Foi um clima bem tenso, mas ninguém falou no nome de ninguém.

ISTOÉ

Não é estranho que numa reunião onde se ameaça pancadaria nenhum nome seja citado?

Marcelinho Carioca

 Foi o que aconteceu.

ISTOÉ

O Ricardinho falou o que nessa reunião?

Marcelinho Carioca

 Ele falou que tudo aquilo poderia ser uma armação da diretoria.

ISTOÉ

Um funcionário da Bandeirantes afirma que você ligou para ele e contou que Ricardinho era o traidor do grupo e que ele teria apanhado de alguns jogadores.

Marcelinho Carioca

 Isso foi uma atitude covarde, uma vingança. Esse sujeito terá de provar o que disse na Justiça. Meus advogados já estão preparando os processos.

ISTOÉ

Vingança por quê?

Marcelinho Carioca

 Eu estava para fazer um programa de tevê na Bandeirantes. O programa ia se chamar Só garra com Marcelinho Carioca. Estava estudando a proposta e apresentei minha turma de personagens (A Turma do Pé de Anjo). Cheguei a fazer um programa piloto, só que eles registraram um personagem alusivo a mim sem a minha autorização e me ofereceram apenas 20% dos rendimentos. Não aceitei e também disse que o programa seria feito com os meus personagens, já registrados. Não houve acordo e depois fiquei sabendo que a emissora nem sequer sabia das negociações feitas com esse sujeito e isso ficou muito ruim para ele.

ISTOÉ

Mas os jogadores do time ficaram ao lado do técnico…

Marcelinho Carioca

 Eles foram obrigados a fazer aquilo. Só falaram o Luxemburgo, o Scheidt e o Ricardinho. Os demais são novos, são cobras sem veneno e foram obrigados a fazer aquilo. Mas o Ricardinho e o Scheidt também serão processados. Dois atletas não podem representar todo o grupo. Fui punido em cima de fofocas e agora os que me atacaram terão de se explicar na Justiça.

ISTOÉ

Qual será o seu futuro?

Marcelinho Carioca

 Não gostaria de sair do Corinthians. Não tenho problemas com a diretoria, nem com os jogadores, nem com a torcida. Também não quero deixar São Paulo. Como o Santos fez uma proposta concreta, espero obter na Justiça o direito de continuar a trabalhar para jogar lá. Recebi a proposta do Santos com o maior carinho.





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