Das eleições que se encerram no domingo 29 dizia-se que seriam as mais frias, entediantes e com a menor participação popular dos últimos tempos. Não foi o que se viu. Apesar da legislação que trava o debate, dificulta a renovação e favorece o espetáculo em detrimento do conteúdo, nas últimas semanas os brasileiros mergulharam em acaloradas discussões sobre a importância dos deputados, a qualidade dos governadores e a gestão da Presidência da República. Houve comícios numerosos, passeatas concorridas e debates televisivos com bons índices de audiência. O povo, mais esta vez, cumpriu à risca seu papel. Quanto aos políticos, cada um agiu fiel ao seu próprio estilo. Um festival de bobagens assolou o País, é certo, mas despontaram algumas caras novas, boas surpresas e fortes decepções. Os caciques, com todos os seus cocares, muitas vezes se atrapalharam.

O caso mais emblemático dessa atrapalhação está, sem dúvida, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo sem ser candidato a nada, ele tornou-se uma das estrelas da campanha em razão de suas declarações sempre polêmicas. Ele conseguiu tachar o presidente Lula de fanfarrão, o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, de ruim de voto e o próprio candidato tucano Geraldo Alckmin de pior concorrente do que seu amigo pessoal José Serra. E mais: escreveu e divulgou uma carta aos militantes do PSDB que rachou as opiniões dentro do próprio partido e estilhaçou a aliança com o PFL. Em pleno segundo turno, foi atribuída a ele uma posição a favor da privatização da Petrobras. O ex-presidente alegou ter sido mal interpretado. Escolha a versão da sua preferência.

Entre os remanescentes do coronelismo, Antônio Carlos Magalhães, na Bahia, e José Sarney, no eixo Maranhão-Amapá, tiveram destinos diferentes. Mesmo sem
ter seu próprio mandato em jogo, ACM tornou-se o mais emblemático derrotado
das eleições estaduais quando o petista Jaques Wagner atropelou, em primeiro turno, o governador Paulo Souto, legítimo representante do carlismo. Com Sarney, aconteceu o contrário. Ele não se deixou atropelar pela alternativa de esquerda ao Senado pelo Amapá e, ainda, alçou a filha Roseana à reta final para voltar a ser governadora do Maranhão.

Uma forte decepção também foi representada pelo governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul. Ele começou o ano em alta, na condição de postulante à Presidência da República pelo PMDB, mas entra em dezembro com os dias contados para deixar o governo gaúcho. Os eleitores não lhe concederam nem o direito de disputar o segundo turno.

Entre mortos e feridos, salvou-se o prefeito do Rio de Janeiro. Cesar Maia conseguiu manter seu filho Rodrigo como um dos mais votados deputados federais do Estado e não se comprometeu com uma possível derrota do tucano Alckmin. Afinal, Maia
deu tantos conselhos, fez tantas críticas ao candidato que, mesmo se Alckmin surpreender as pesquisas e vencer, o prefeito não terá muito o que comemorar. Ou lamentar.

Entre os deputados eleitos, três recordistas de votos se destacaram. A novata Manuela D’Ávila, no Rio Grande do Sul, fez 271 mil votos e, com 25 anos de idade, expressão juvenil e as cores quentes do PC do B na bandeira, chega à Câmara, em janeiro, debaixo de uma interrogação: está nascendo uma popular deputada de esquerda ou a política ganhou apenas mais uma militante do protesto? A mesma pergunta já foi feita em relação ao jornalista Fernando Gabeira, que renovou seu mandato de deputado federal pelo Rio de Janeiro por meio de 293 mil votos e também liderou a fila dos eleitos. Havia, no passado, a dúvida sobre se Gabeira seria apenas mais um político folclórico, mas sabe-se agora que ele é uma real alternativa de poder, cotado até mesmo para presidir a Câmara a partir de 2007. Um momento de alta que está sendo experimentado também pelo ex-ministro Ciro Gomes. Dono de 667 mil votos pelo Ceará, ele tornou-se, proporcionalmente, o mais votado do Brasil, com 16,19% da votação em jogo. De quebra, viu seu irmão Cid eleger-se governador do Ceará. Nasceu, assim, uma nova oligarquia política.

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