Comportamento

Revolução na escola

Estudantes usam o computador como ferramenta para criar projetos comunitários em todo o País

Duas reprovações seguidas no primeiro ano do ensino médio transformaram Cleiton Becker, 17 anos, em um “aluno problema”. Os professores o criticavam porque “só pensava em computador” e não queria saber das disciplinas tradicionais. O jovem, que mora em Porto Alegre, trocou de colégio e começou a mudar. Matriculou-se na Escola Estadual Elmano Lauffer, uma das 20 vencedoras, em 1999, do concurso Sua Escola a 2000 por Hora, criado pelo Instituto Ayrton Senna. A Elmano, como é conhecida, recebeu como prêmio um laboratório de informática com sete computadores, softwares e livre acesso à internet. Depois, juntou alunos e professores para criar projetos e pesquisas inovadoras. “Levei um susto no primeiro dia em que fui ao laboratório. Os monitores eram alunos. Por entender um pouco de computador, fui logo integrado ao time”, lembra Cleiton, que encontrou novo estímulo para estudar. “Os projetos ajudam nas matérias tradicionais, pois qualquer tema escolhido exige pesquisas detalhadas na internet”, afirma.

O sucesso da Elmano Lauffer e de outras 55 escolas públicas do ensino fundamental e ensino médio na utilização de computadores está ligado a uma mudança mais ampla. Primeiro, as escolas precisam apresentar um projeto que inclua a participação dos alunos, dos pais e da comunidade. “A idéia é que os estudantes aprendam a usar computadores e também dêem certo na vida”, diz Adriana Martinelli, coordenadora do programa. No primeiro ano, participaram 1.100 escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Ceará e Distrito Federal. Foram premiadas 20. No ano passado, foram 1.600 dos mesmos Estados, além de Minas Gerais, Paraná, Bahia, Mato Grosso e Tocantins, e 36 selecionadas.

O Centro de Ensino 07, da cidade satélite de Ceilândia, em Brasília, por exemplo, iniciou experiência com um software de comunicação para alunos deficientes auditivos. O projeto, que adapta ao computador a linguagem de sinais, foi um dos 20 vencedores da primeira edição do programa. Na Escola Estadual José Lins do Rego, em Vila Remo, na periferia de São Paulo, alunos trocaram as rodas de bate-papo no intervalo das aulas pela leitura de clássicos de William Shakespeare, como Hamlet e Macbeth. A mudança ocorreu depois da chegada de 12 computadores instalados pelo programa. Os alunos haviam apresentado a proposta de pesquisar na internet a obra completa do escritor inglês e, daí, montar peças de teatro, espetáculos musicais e de dança, além de vídeos, grafites, redações e histórias em quadrinhos.

O resultado de dois anos do concurso Sua Escola a 2000 por Hora foi apresentado no início do mês em um workshop de informática, durante o 21º Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, em Fortaleza. A Elmano Lauffer mostrou que o processo de integração com a comunidade foi além da proposta de descobrir como o computador pode ser empregado no ensino. Os projetos de alunos e professores incluíram temas como o meio ambiente, globalização, mídia e o futuro do capitalismo. “Tenho 32 anos de magistério e sempre achei que alunos e professores não estavam felizes com os métodos de ensino. Agora, vivemos uma revolução”, afirma Vera Queiroz, 52 anos, coordenadora pedagógica da escola. Michael Martins, 17 anos, aluno do terceiro ano e monitor de informática, concorda. “Antes, entrar na sala do diretor, só quando havia problema. Hoje, faz parte de nossa rotina. Falamos e somos ouvidos”, garante.

Surpresa – As experiências repercutem também no sertão do Ceará. “Nas reuniões de diretores, colegas me perguntam, espantados: ‘Os alunos ficam sozinhos na sala dos computadores? E não quebram tudo?’ Eles se surpreendem quando digo que os alunos são os responsáveis pelo projeto”, conta Luiza de Marillac, diretora da escola Estado da Bahia, no município de Crato. “Hoje, discutimos com os professores até mudanças no processo pedagógico”, ressalta Juliana Pereira, 17 anos, aluna do terceiro ano do ensino médio.

Na cidade vizinha, Juazeiro do Norte, o colégio Dona Maria Amélia Bezerra também se destaca. Selecionada na segunda edição do concurso, apresentou o projeto de recuperação de uma reserva natural, o Parque das Timbaúbas. Meio ambiente também foi tema do colégio estadual Padre Cláudio Morelli, de Curitiba. O projeto O Lago Azul Pede Socorro foi criado por um grupo de alunos e professores, para conseguir a despoluição de um lago em Umbará, na zona sul de Curitiba. As experiências vão se transformar em tecnologia social. “Não buscamos uma fórmula mágica, mas, sim, um conjunto de dados indicativos dos acertos e erros cometidos pelos vários grupos”, explica Adriana Martinelli. Depois da apresentação das experiências de dez escolas em Fortaleza, ocorreu um debate pela internet entre as 56 participantes do programa. O objetivo é incentivar a criação de trabalhos coletivos. O Instituto Ayrton Senna faz o acompanhamento mensal desses projetos, através de orientadores. Os parceiros da organização no programa são a Microsoft, com os softwares, a Gateway, que fornece os computadores, e a TCO Celular.

Colaborou Gilberto Nascimento

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