Cultura

Pina colada

Tanztheater Wuppertal, a badalada companhia comandada pela alemã Pina Bausch, se apresenta em São Paulo trazendo duas brasileiras no elenco de um espetáculo totalmente dedicado ao Brasil

Há pelo menos quatro meses, as bailarinas Ruth Amarante e Regina Advento, as brasileiras da companhia de dança alemã Tanztheater Wuppertal, uma das mais importantes da atualidade, comandada pela coreógrafa Pina Bausch, se dedicam a um passatempo que as ajudam a matar a saudade da língua materna. A pedido da coreógrafa de 61 anos, mente criativa da trupe sediada na pequena cidade de Wuppertal, as duas dançarinas ficam à cata de palavras em português que soem curiosas e musicais ao ouvido alemão. Da infinidade de termos, deveria sair o título do elogiadíssimo espetáculo de três horas, totalmente inspirado no Brasil, que será mostrado quatro vezes no Teatro Alfa, em São Paulo, a partir da sexta-feira 31, com o título provisório de Uma peça de Pina Bausch. “Na minha pesquisa descobri nomes maravilhosos, como forrobodó, que, além de baile popular, significa caos, confusão”, conta a carioca Ruth, 38 anos. “Isto sempre acontece com os novos trabalhos, que às vezes ficam um, dois anos sem nome”, explica a bailarina, que integra a companhia desde 1991, quando abandonou a medicina para se dedicar exclusivamente à dança.

Regina, 36 anos, também está às voltas com sua listinha de nomes. No Tanztheater desde 1993, depois de dançar sete anos no Grupo Corpo, a mineira de porte nobre é uma figura que polariza atenções. Como sua colega, ela integra o elenco de Uma peça de Pina Bausch entrando em cena envolta em luzes pisca-pisca. O irreverente figurino surgiu de uma idéia dela e do bailarino colombiano Jorge Puerta, a partir das decorações natalinas que impressionaram a todos quando eles estiveram no Brasil em dezembro passado. “Já na Alemanha, durante o período de improvisações, eu vi o Jorge passando com um punhado de luzes e perguntei o que ele ia fazer com aquilo. Eu havia pensado em usá-las, mas tinha medo de provocar um curto-circuito,” lembra ela.

Cotidiano – Cenas como esta são comuns nos trabalhos de Pina Bausch, especialmente os que vem desenvolvendo desde 1986 sobre diferentes cidades do mundo. A partir da observação do cotidiano, a coreógrafa leva ao palco gestos e comportamentos às vezes desapercebidos pelos habitantes dos lugares retratados. No caso brasileiro, são o cumprimento com dois beijinhos no rosto ou a forma dos pedreiros se equilibrarem nas escadas. Recriados por sua dança-teatro, as situações geram passagens de beleza plástica e carga emocional deslumbrantes. Emílio Kalil, diretor de projetos do Brasil Connects e cicerone de Pina Bausch e seus bailarinos durante o período de pesquisas brasileiras, conta que ela observa tudo. “Pina tem um olhar atento às mínimas coisas, fica fascinada, por exemplo, com o jeito como o cara vende frutas no mercado ou a garota coloca a toalha na praia.” Para colher material, Pina e mais oito bailarinos passaram dez dias em São Paulo e quatro em Salvador conhecendo exclusivamente locais populares. Na capital paulista, ela foi ao mercado central, fez um tour pelas ruas apinhadas de casas noturnas do centro e se arriscou a observar garotos de programa nas esquinas.

Ruth Amarante não participou da criação da nova coreografia. Casada com um bailarino da companhia, estava de licença maternidade. Regina Advento só deu sua contribuição na fase baiana. Em São Paulo, ficava no hotel cuidando da filha, Jasmin, dois anos, fruto do casamento de uma década com um economista alemão. “O pessoal adorou chupar cana num mercado de frutas, perto do porto”, diverte-se Regina. Apesar de tão familiarizada com os singulares métodos de criação da coreógrafa, a bailarina tem certa dificuldade em explicá-los. Na fase de improvisações, quando se começa a trabalhar o material colhido no contato com as pessoas de uma cidade, Pina faz perguntas aos dançarinos, que respondem da maneira que quiseram – com uma cena, uma palavra, uma história. Numa destas sessões, Pina lançou para Regina uma pergunta provocativa. Disse apenas a palavra favela. Filha de pedreiro e nascida num morro de Belo Horizonte, ela respondeu ao estímulo com uma bela cena de traição e ciúme, na qual puxa o cabelo da amiga e depois agride o marido como se batesse numa criança. Pina gostou da idéia e a manteve no espetáculo.