Cultura

Fardão cobiçado

Acirra-se a disputa pela cadeira de Jorge Amado na ABL

A sucessão à vaga de Jorge Amado mais parece um romance do escritor baiano. De início, a paulista Zélia Gattai, 85 anos, finalmente convencida pelos filhos a se candidatar, era pule de dez. Só que, dois dias depois de a autora de Anarquistas graças a Deus entrar no páreo, apareceu um concorrente de peso. O jornalista e escritor sergipano Joel Silveira, 82 anos, chegou entrando de sola, chamando sua concorrente de “literata de terceira ordem”. Entre os acadêmicos, há quem garanta que Zélia já tenha 25 votos (o mínimo para entrar são 20), entre eles o de Antonio Olinto, Arnaldo Niskier, João Ubaldo e Lygia Fagundes Telles. Passado o calor da emoção da morte de Amado, porém, muita gente pensa que a ilustre escritora não deveria ocupar a vaga deixada pelo marido, como se fosse herança. Por essas e outras, Silveira pode ganhar espaço.

Autor de 39 livros, entre os quais História dos pracinhas, sobre a Força Expedicionária Brasileira, ele atrai a simpatia de acadêmicos como Rachel de Queiroz, Josué Montello, Ledo Ivo e Celso Furtado. Mas há forças mais mágicas. Pouco antes do falecimento de Amado, o imortal Roberto Marinho lançou informalmente a candidatura de Paulo Coelho num jantar em sua casa. Hábil e diplomático, Coelho desconversou sua intenção. “Recebi um aviso que veio do mar, quando andava na praia de Copacabana”, lembra o autor de Brida, que um dia pretende se candidatar, mas não agora. Até Jô Soares – autor de apenas dois livros – chegou a pensar em concorrer à imortalidade. Diante dos fatos, resolveu esperar momento mais apropriado. Uma intriga da oposição espalhou que Zélia teria desistido, depois de saber que enfrentaria concorrência. Não é verdade. Ela faz questão de deixar claro que concorre à cadeira 23 – que pertenceu a Machado de Assis e José de Alencar – pelos seus mais de 200 mil exemplares vendidos. Quando surgiu a nova vaga, foi sondada pelo acadêmico Marcos Vilaça e respondeu que ainda era cedo para pensar nisso. Agora concordou e não abre mão.