Comportamento

Acordes na surdina

Instrumentos silenciosos permitem estudar música sem medo dos vizinhos

Pais e principalmente os vizinhos de adolescentes podem comemorar. Foi-se o tempo das enlouquecedoras bandas de garagem. Não é que os estridentes acordes de guitarra ou as batidas insistentes de bateria não ecoem mais entre cabelos compridos e rostos cheios de espinhas. É que as garagens minguaram e as famílias se mudaram para apartamentos cada vez menores. Mas a tecnologia veio em socorro da irreverência juvenil. Hoje, cabeludos ou carecas, os roqueiros podem criar seus arranjos até mesmo em um quarto-e-sala sem incomodar ninguém. Com instrumentos silenciosos e tão versáteis quanto seus donos, tocam de tudo, até piano, sem que um único som corte o espaço. Basta plugar um fone de ouvido ou acionar uma tecla. O candidato a superstar também pode tocar guitarra numa ilha deserta ou no meio do mato sem se preocupar com instalações elétricas. É só usar um instrumento a pilha. As novidades nesta área são muitas e foram apresentadas na 18ª Feira Internacional de Música, a Expomusic 2001, realizada esta semana no Expo Center Norte, em São Paulo. Um evento que costuma atrair grande público, não só pelos lançamentos, mas também pelos workshops e shows de guitarristas famosos.

Caixa de ovos – Diante dos lançamentos, os novatos se encantam com o design e com a potência e os veteranos não conseguem evitar a comparação com o passado. “Na adolescência fazíamos de tudo para driblar os vizinhos. Colocávamos isopor na parede da garagem, cobertor e até caixa de ovos para abafar o som. Virava uma sauna e não adiantava quase nada. Os pais tinham que aguentar as reclamações dos vizinhos”, lembra, divertido, Demerval Correia Filho, 26 anos, vocalista da Banda Tropa de Shock há oito. Hoje, Don, como é conhecido, e seus quatro colegas fazem seus arranjos em um apartamento sem incomodar ninguém. “Adaptamos equipamentos trazidos do Exterior e produzimos aqui todas as músicas de nosso quarto CD, The other side, ainda a ser lançado”, conta ele. Agora, outros músicos poderão conseguir o mesmo feito sem recorrer a gambiarras. Um dos novos lançamentos é o miniestúdio PS-02, da fabricante de pedais Zoom. Trata-se de um gravador digital com várias pistas, sintetizador eletrônico de bateria e baixo e processador de efeitos. “Para se ter um estúdio caseiro investe-se no mínimo R$ 3 mil e o PS-02 sai pela metade, cerca de R$ 1,4 mil. Além disso, cabe em qualquer lugar”, enfatiza Luís Sacoman, gerente de vendas da Royal, importadora do produto.

Outro instrumento prático é a guitarra AMG10, da Aria Pro. Com um amplificador embutido, ela é um estímulo aos jovens compositores, já que pode acompanhá-los em aventuras pelo litoral ou pela mata. A bateria de nove volts dura até duas horas e o instrumento pode ser silenciado com um fone de ouvido. “A guitarra seduz muito os adolescentes. O ideal é torná-la tão portátil quanto o violão”, enfatiza Adriana Ochoa, gerente de vendas da Importadora Habro. A feira apresentou outras novidades, como a guitarra em acrílico transparente Kramer Vanguard, nas cores vermelha e vinho, e atrações como a bateria mais cara do mundo, a DW Collector´s Series Ice Birch, que custa cerca de R$ 25 mil. O charme desta bateria é o fato de ela ser feita com madeira da floresta de Baltic Birch, região que fica entre a Finlândia e a Rússia. As árvores têm mais de 300 anos e não podem ser derrubadas, por isso só são usados os troncos caídos naturalmente.

Mas, se a questão for mesmo adaptar o interesse musical – adolescente, jovem, balzaquiano ou maduro – à vida urbana, há uma extensa linha de produtos silenciosos. Foi graças a este recurso que o jovem Guilherme Tenório Schildberg, 15 anos, conseguiu realizar seu sonho de estudar bateria. “Eu queria desde os dez anos, mas minha mãe insistia no violão. Até tentei. Fiz algumas aulas mas estava a ponto de desistir. Aí falei para ela das baterias eletrônicas silenciosas e ela cedeu”, conta ele. A relutância tinha razão de ser. Afinal, o garoto mora num grande condomínio de São Paulo. E o apartamento é sob medida. “Além do barulho, me preocupava o espaço. São três quartos para um casal e três meninos. Ficou meio entulhado, mas aperta daqui e dali e conseguimos”, diz resignada a pedagoga Nilza, 49 anos, mãe de Guilherme.

Os músicos mais ortodoxos têm arrepios quando se fala em sintetizadores, mas o fato é que os instrumentos com esses recursos estão cada vez melhores. A bateria digital TD-6K, da Roland, por exemplo, é uma cópia doméstica do modelo utilizado por Omar Hakin, baterista da estrela Madonna. Com fone de ouvido. “Com ela, pode-se estudar de madrugada, tendo várias baterias em uma, de jazz, rock ou pop, com som digital”, informa Lucas Shirahata, diretor executivo da empresa. O modelo ainda grava tudo que foi tocado, não precisa de afinação e pesa cerca de seis quilos (uma standard com nove peças). O preço também é outro atrativo – a TD6K custa cerca de R$ 3 mil e uma profissional, R$ 7,5 mil.

A linha de instrumentos silenciosos vai além. Até um tocador de tuba pode estudar no meio da noite sem assombrar os outros. A Yamaha, tradicional produtora de instrumentos musicais, tem esse recurso em quase todo tipo de instrumento. É a linha Silent, que funciona até em violinos e violoncelos. Nesse caso, o segredo está em substituir a caixa de ressonância por um captador de som ligado ao fone de ouvido. Outra vantagem é que esses instrumentos pesam no máximo cinco quilos e custam cerca de R$ 3,5 mil e R$ 6,6 mil, respectivamente, quase o mesmo custo dos violinos e violoncelos comuns. Mais surpreendente ainda é o piano. Seu mecanismo acústico silencia ao se plugar um fone de ouvido. Ninguém ouve os acordes, a não ser o pianista e, se for o caso, o professor. O modelo do piano MP16, com 1m12 de altura, custa em média R$ 20 mil (R$ 5 mil a mais que um equivalente sem o recurso). Nos instrumentos de sopro usa-se a surdina eletrônica, uma espécie de copo que se acopla à boca do instrumento. Utilizado por músicos em viagens e para um treino de última hora em testes e apresentações, o recurso não é novo. Mas virou apetrecho essencial. O estudante de trompete Amílcar Nogueira Martins, 22 anos, não passa sem ela. “Com a faculdade e o trabalho, só ensaio à noite”, explica o músico, que toca na Orquestra Jovem Tom Jobim, da Universidade Livre de Música de São Paulo. Não seria exagero dizer que, na vida agitada da cidade, ser músico só mesmo na surdina.

Vale começar cedo

O aprendizado de qualquer instrumento depende da musicalidade, ou seja, de como a pessoa lida com ritmo e melodia. A escolha depende mais do gosto e da maturidade do aluno do que de exigências técnicas. Em tese, qualquer pessoa pode tocar qualquer instrumento, desde que tenha condições físicas para tanto. Seja qual for a idade do aluno, é primordial que ele persista nas aulas por pelo menos um ano e meio. “Depois disso, o aluno começa a tocar e, se parar, não perde o que aprendeu. Se desistir antes, volta à estaca zero”, adverte o músico Pedro Mourão, que comanda a Escola Domus de Música e dá aulas para todas as idades. Com a criança, deve-se respeitar seu amadurecimento e ampliar o leque de opções. Quanto mais ela experimentar, mais certa estará ao escolher um instrumento. Cada uma deve ser avaliada individualmente, mas em geral cada fase tem sua indicação, como segue:

Até os 5 anos – Seu contato com a música é físico. As aulas são de musicalização e feitas em grupo. Ela deve fazer barulho, bater, chacoalhar, observar os efeitos de seus movimentos e de seus colegas

Dos 7 aos 10 anos – A criança muda muito com a alfabetização, adquire controle motor e já consegue tocar alguma coisa. Pode aprender teoria, mas deve continuar experimentando. Se escolher um instrumento, deve-se avaliar sua disposição para as seguidas repetições de uma aula individual.

Dos 10 em diante – Em geral, todo adolescente segue bem as aulas. Mesmo assim, é preciso persistência e força de vontade. Não esquecer também que nem todos se transformarão em músicos, mas que muitos podem fazer do instrumento um bom companheiro.

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