Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais
Edu Lopes
Sandy declarou que não irá mais discutir virgindade. “Gente, eu cresci”

Uma faz 18 anos em 28 de janeiro e já tem dez milhões de discos vendidos. A outra acaba de completar 19 e comemora a marca de 20 milhões de cópias no mercado internacional. A primeira não sai de casa sem o irmão mais novo a tiracolo. A segunda, sem a mãe. Mais recatada nos movimentos e na maquiagem, embora o umbiguinho esteja quase sempre de fora, a morena apela para mensagens politicamente corretas em seus shows. A loira desfia uma infinidade de palavrões atrás das cortinas e abusa da sexualidade, vestida em roupas micro. As duas se autroproclamam virgens, mas estão longe do estereótipo de careta, tímida e desajeitada que sempre acompanhou meninas, digamos, inexperientes. A paulista Sandy e a americana Britney Spears reuniram um público de 200 mil pessoas, a maioria de adolescentes fanáticos, na noite teen do Rock in Rio. Na fantasia de muitos desses jovens, capazes de passar horas de estômago vazio cantando e dançando ao ritmo de suas musas, a valorização da virgindade faz parte do pacote felicidade.

AP
Britney não fala mais sobre sexo desde que engatou namoro com o cantor Justin

Como fãs que se prezem, incondicionais, eles seguem o exemplo do ídolo até dentro do quarto e reverenciam a idéia de manter-se imaculados para a pessoa e a ocasião certas. “Transar no primeiro encontro ou sem confiar na relação com o namorado não está com nada”, prega a carioca Renata Barros, 18 anos. Por causa da semelhança com Britney, Renata foi escolhida pela gravadora Virgin Records – o nome não poderia ser mais apropriado – para ser cover oficial da cantora. Sem namorado, a moça descarta a idéia de sair ficando com os garotos. À espera do príncipe encantado, Renata elabora uma tese capaz de destruir castelos de muitos outros fãs de Britney: “Quando ela transar, não vai admitir em público. Será que já aconteceu?”, desconfia. A virgindade da pop star virou motivo de piada. Desde que começou a namorar o cantor Justin, do grupo N’Sync, ela desconversa quando o tema é sexo. Sandy também se diz desgastada com o assédio da imprensa. “Gente, eu cresci. Não vou ficar discutindo minha virgindade com jornalista”, vocifera.

Era uma vez – A virgindade das estrelas também seduz os rapazes. “Sandy é um exemplo de que é possível ser famosa e sensual sem ser vulgar”, analisa o fã William Koike, 15 anos, que já assistiu a 16 shows da cantora e guarda com carinho uma camiseta autografada. Membro do fã-clube Era uma vez, William também é virgem. “Nunca tive uma namorada firme, por isso ainda não rolou. Se a Sandy quisesse perder a virgindade comigo, não pensaria duas vezes”, desmancha-se.

Helcio Nagamine
Fã de Sandy e virgem, William adoraria se a cantora topasse ter a primeira relação sexual com ele

Mesmo entre jovens que não ligam a mínina para Sandy e Britney, a castidade tem sido defendida com convicção e naturalidade. Ser virgem não é mais obrigação, nem vergonha. Filhas de pais liberais de classe média alta e amigas inseparáveis, Juliana Cunha, 18 anos, Márcia Silva, 20, e Júlia Bahia, 19, ainda não se consideram “prontas” para o grande dia. Júlia namora há dois meses, dorme com o namorado na casa dos pais e ganha deles preservativos, mas não transa. Como as amigas, acredita que a perda da virgindade deva acontecer com um homem que entenda a importância desse momento para a mulher. “Acho que encontrei a pessoa certa, mas preciso me sentir mais segura”, diz Júlia. Volta e meia, a obstinação do trio é alvo de provocações. “Dizem que ficamos histéricas ou estressadas porque não transamos e recomendam um bom sexo pra relaxar”, divertem-se Juliana e Márcia.

Os estudantes João Dória, 18 anos, e Maria Mazzaglia, 19, namorados há mais de um ano, decidiram entregar-se aos prazeres da carne só depois do casamento. Prova de amor, para eles, é segurar os impulsos quando o “tesão aperta”. “Há muitas coisas para se conhecer no outro antes do sexo: os gostos, as reações, os planos”, diz ele. “Não acho certo se entregar aos pedaços. A entrega total deve ser no casamento. Dá muita vontade, mas respeitamos os limites”, completa ela.

André Durão
Cover de Britney, Renata questiona se a musa ainda se mantém casta. “Ela não vai admitir em público”

Abstinência – Nos Estados Unidos, alguns defensores da castidade são tão radicais que fundaram o Movimento de Abstinência Sexual, que encoraja adolescentes a se preservarem para o casamento. “Esse grupo está vinculado a correntes religiosas direitistas e tem gasto fábulas em sua meta de preservar a virgindade”, conta a americana Susan Dominus, editora da revista eletrônica Nerve, especializada em cultura e sexo. Até imprimem camisetas com as frases “Virgem com orgulho” e “O verdadeiro amor espera”. O movimento vem ajudando a alavancar as cifras de clínicas especializadas na “restituição” do hímen (leia quadro). A nova-iorquina Ridgewood Health Beauty Center, por exemplo, reconstrói os hímens de cerca de 30 mulheres por mês. A virgindade ameaça voltar, literalmente. “Do total da clientela, 60% são adolescentes e jovens de até 25 anos com motivações religiosas. Muitas são muçulmanas, para quem a perda da virgindade pode provocar a morte”, diz Esmeralda Vanegas, diretora da clínica. Há também dezenas de garotas cristãs que fizeram a promessa de abstinência e apelam para a reconstrução do hímen para dar um caráter mais sério a seu compromisso. Para tanto, as futuras virgens desembolsam entre US$ 3 e US$ 10 mil.

Alan Rodrigues
Juliana, Márcia e Júlia têm de ouvir que são estressadas porque não transam

Cúmplices – No Brasil, a operação é considerada antiética pela comunidade médica, apesar de não haver leis que a proíbam. O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Luís Carlos Garcia, explica: “Não queremos ser cúmplices de garotas que, para agradar o marido, tentam se passar por virgens.” Ele relata ainda que muitas mulheres recorrem ao sexo anal para preservar o hímen intacto. “Esse tipo de relação aumenta os riscos de doenças sexualmente transmissíveis”, previne Garcia.

A recente onda de castidade é encarada como retrocesso pela psicanalista carioca Teresa Palazzo. “Os filhos de uma geração em que tudo era permitido agora têm uma reação conservadora”, observa Tereza. “Na década de 70, ter vários namorados e transar com todos eles era um orgulho. Hoje, mais do que a virgindade, o que preocupa as meninas é o medo de se tornar vulgar e ser alvo de comentários maldosos”, pondera a psicanalista. A seu ver, há uma preocupação maior com a seleção dos parceiros, provocada em parte pela aids.

Hormônios – A psicanalista carioca Regina Navarro Lins, coordenadora do site interativo sobre sexo Cama na rede, não se impressiona com o culto à virgindade e aposta que ele será passageiro. “Por mais que idolatrem a virgindade de Sandy e Britney, dificilmente alguém pensará nisso quando o clima estiver esquentando. O ídolo não tem força para competir com os hormônios em ebulição e com o bombardeio de apelos sexuais por todos os lados”, afirma. De fato, pesquisas mostram que a garotada continua se rendendo aos mistérios do sexo. E cada vez mais cedo. Em 1984, o Ministério da Saúde registrava que 35% dos jovens do sexo masculino e 14% do sexo feminino haviam iniciado a vida sexual antes dos 15 anos. Em 1998, em outra pesquisa encomendada pelo Ministério ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, esse universo havia saltado para 47% dos homens e 32% das mulheres.

Uma terceira pesquisa, da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash) – realizada com 3.650 entrevistados nos centros urbanos do País – revelou que as mulheres têm se lançado às aventuras sexuais mais cedo do que os homens: 65,1% delas declararam ter perdido a virgindade entre os 15 e 19 anos, enquanto 55,9% deles disseram ter tido a experiência entre os 20 e 24 anos. Uma explicação para a iniciação sexual precoce das meninas é que elas estão menstruando cada vez mais cedo. Um dos responsáveis por essa mudança seria a má alimentação. “A gordura dos sanduíches fast-food, por exemplo, acelera a produção dos hormônios”, afirma Simone Nogueira, do Centro de Estudos da Sexualidade Humana – Instituto Kaplan, de São Paulo. Assim como a castidade, a iniciação sexual é igualmente assumida com convicção e menos culpa do que no passado. A carioca Rosana Alves (nome fictício), 15 anos, perdeu a virgindade no ano passado, depois de nove meses de namoro. “Minha mãe queria que eu casasse virgem e não gostou muito. Mas eu estava com vontade”, diz. O romance acabou. Depois dele vieram outros sete. Marcela confessa ter transado com todos. “Quem não experimenta não sabe como é bom”, aconselha.

Enquanto meninas como Rosana assumem a experiência com tranquilidade e empolgação, os rapazes têm vivenciado cada vez menos cobranças para que iniciem a vida sexual cedo e com garotas de programa. Muitos, como o carioca Diego Maximiano, esperam para dividir a experiência da primeira noite com a namorada. Aos 14 anos, ele idealiza transar com uma menina que o ame. Prostituta? Nem pensar. “Fico com muitas meninas, mas não transo. Só vai acontecer quando aparecer alguém de quem eu goste muito. Meus pais dão força”, planeja.

Alcir N. da Silva
Yajaira reconstituiu o hímen para que seu marido experimentasse o gosto da primeira vez

Embora muitos pais ainda se sintam desconfortáveis para falar sobre sexo com os filhos, de maneira geral eles estão mais abertos ao diálogo e vêm substituindo a imposição pela orientação. Mas qual a idade ideal para a iniciação sexual? Biologicamente, a mulher está pronta para gestar a partir da primeira menstruação, entre 11 e 12 anos. É nessa fase também que os meninos experimentam a primeira ejaculação. A maturidade física feminina completa, entretanto, só se dá dois anos depois. Mas, psicologicamente, a hora certa pode demorar muito mais. “Geralmente, essa percepção é alcançada no final da adolescência, entre 17 e 18 anos. Não há nada de errado em perder a virgindade antes disso. O erro pode estar nas motivações”, diz o presidente da Sbrash, Nelson Vitiello.

Honra – Resíduo embriológico da formação dos órgãos genitais, o hímen começou a ser valorizado com o surgimento da propriedade privada. Preocupado com o patrimônio de seus herdeiros, o homem fazia questão de copular com uma virgem e mantê-la fiel após a relação, garantia de paternidade sobre a prole. Entre os gregos, era comum o hábito de oferecer virgens aos deuses em sacrifício. Com o tempo, passaram a ser ofertadas como presente. “Além de ser uma honra para o marido, também é motivo de orgulho para os pais ostentar que a filha se preservou até as bodas. No Sul da Itália, uma tradição medieval fazia com que os pais pendurassem o lençol manchado de sangue na janela de sua casa após a noite de núpcias, para que todos pudessem atestar a honra da ex-donzela”, lembra o filósofo Mário Sérgio Cortella. Também na Idade Média, algumas jovens eram obrigadas pelos pais a usar cinto de castidade. “O casamento era um negócio lucrativo. Manter a virgindade da filha garantia sucesso na transação”, diz Cortella.

Idolatria – Ao associar valores morais à integridade do hímen, nossa cultura acabou se tornando himenólatra, na opinião de Nelson Vitiello. Por isso, na prostituição, virgens costumam ser oferecidas em leilão. No último dia 16, a seção de classificados de um jornal de Minas Gerais anunciou a oferta de Vanessa, uma suposta virgem de 18 anos. O leilão foi organizado por uma casa de prostituição de Belo Horizonte, que espera arrecadar mais de R$ 3 mil com a empreitada. Foi esse fetiche em torno do hímen que levou Yajaira Hernandez, 18 anos, residente em Nova York, a economizar para dar ao marido um presente dos deuses: seu hímen reconstituído. A primeira vez de Yajaira foi aos 16 anos, antes de conhecer o marido. “Ele nunca tirou a virgindade de uma mulher. Resolvi fazer uma surpresa para o Dia dos Namorados (14 de fevereiro para os americanos)”, conta a moça. O bolorento Código Civil brasileiro – datado de 1916 – contém até um dispositivo que permite a anulação do casamento se o marido descobrir que a esposa chegou deflorada à noite de núpcias. Desde 1975, no entanto, tramita no Poder Legislativo um projeto para substituir o Código Civil atual, que promete acabar com regras antiquadas como essa.  

Colaboraram: Camilo Vannuchi e Rodrigo Lopes, de Belo Horizonte

Renato Velasco Marcelo Faustini/Ag. O Globo
“Tive um namorado que terminou comigo porque eu não transava. Era muito pudica e ele levou três anos para botar a mão no meu peito. Aos 15 anos, transei com outro namorado. Ele era mais velho e carinhoso. Guardo muitas lembranças, apesar de não o ter amado como ao anterior”
Cláudia Ohana,
36 anos, atriz
“Fui uma das primeiras garotas da minha turma a perder a virgindade. Tinha apenas 14 anos, mas namorava um garoto do colégio que era minha grande paixão. Ao contrário do que achei que aconteceria, não casamos. Mas até hoje ele é especial para mim”
Fabiana Saba,
23 anos, apresentadora
“Minha primeira vez foi aos 14 anos com uma prostituta. Esvaziei meu cofrinho e tudo começou de madrugada, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, para terminar na areia da praia de Ipanema. Fui descobrindo os caminhos e ela deu a maior força. Fiquei me sentindo um homem”
Evandro Mesquita,
48 anos, ator