Cultura

Além da imaginação

Mostra no Rio de Janeiro reúne mais de 400 obras do surrealismo

Quando se fala em surrealismo, os primeiros nomes que vêm à cabeça são os de Salvador Dalí, René Magritte, Joan Miró ou o próprio André Breton, autor do manifesto que lançou o movimento em Paris, em 1924. Pouca gente sabe, porém, que os brasileiros tiveram uma ilustre representante nesse movimento, a mineira Maria Martins (1894-1973). Além de exibir suas esculturas na Europa e nos Estados Unidos, Maria, casada com Carlos Martins, embaixador do Brasil em Nova York, teve um tórrido caso com Marcel Duchamp, mestre do dadaísmo, que antecedeu o surrealismo. Sua obra ocupa uma das 11 salas da exposição Surrealismo, a maior sobre o tema já realizada no Brasil, com inauguração na terça-feira 21, em comemoração aos 12 anos do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. São mais de 400 peças de 64 coleções de oito países, entre quadros, fotografias, esculturas, objetos e documentos exibidos em 1.400 metros quadrados, a um custo total de R$ 4,5 milhões.

O clima onírico característico do movimento começa pela fachada do prédio, que teve suas janelas e cúpula pintadas com um céu azul de nuvens brancas, alusão do cenógrafo Zaven Paré aos quadros de Magritte. As referências continuam no interior, de onde pende um peixe cor-de-rosa de 12 metros. Para o público, a mostra será uma festa. Ninguém vai sair do CCBB sem saber que o movimento, um dos mais importantes do século XX, se inspirava nas teorias de Sigmund Freud sobre o inconsciente e defendia o automatismo psíquico como princípio da criação. Nem que punha em xeque a sociedade burguesa e a civilização progressista e industrial.

Vindas de vários museus, as obras oferecem uma visão global do que foi o surrealismo. Algumas das mais emblemáticas estão presentes, como O objeto invisível, escultura de Alberto Giacometti, estimada em US$ 20 milhões; As 100 pombas, óleo de Max Ernst; Telefone lagosta branca, de Salvador Dalí; e O abismo prateado, óleo de René Magritte. A curadora francesa Nadine Lehni, conservadora-chefe dos museus nacionais da França, procurou situar as peças de acordo com as diversas fases do movimento. Sua maior dificuldade, contudo, foi com o quadro A cuca, da brasileira Tarsila do Amaral. A obra, só exposta no Brasil há cinco anos, numa retrospectiva da pintora, faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Grenoble, na Bélgica. O coordenador-geral da mostra, Romaric Büel, até fez chantagem emocional com a diretoria do museu, alegando que o quadro não poderia faltar numa mostra brasileira sobre surrealismo. Foi preciso um empurrãozinho do diretor do Petit Palais, em Paris, Gilles Chazal, para que a tela fosse liberada.