Comportamento

A guerra da água

Falta de planejamento e má gestão dos governos estaduais empurram a região Sudeste para a maior crise hídrica da história, com risco de racionamentos severos

A guerra da água

CRISE

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CRISE
Moradores coletam água potável em caminhão-pipa:
46 milhões de pessoas no País são atingidas 

A luz vermelha se acendeu para o abastecimento de água na região Sudeste do País. São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais passam pela maior crise hídrica de sua história. A capital paulistana, em especial, está prestes a viver um cenário de escassez sem precedentes. O sistema Cantareira, um dos maiores produtores de água no mundo, responsável por abastecer a região da Grande São Paulo, opera com cerca de 5% de sua capacidade. Segundo especialistas, o nível das águas segue diminuindo 0,1% por dia. Com esses índices, a previsão é de que entre março e maio deste ano o sistema seque completamente, o que afetaria dramaticamente a rotina de mais de nove milhões de pessoas. A crise hídrica, no entanto, vem dando sinais de sua gravidade desde janeiro do ano passado, mas o governo de São Paulo não adotou medidas eficazes para melhorar a gestão do recurso no Estado. “Não há solução no curto prazo”, diz Antônio Carlos Zuffo, professor do departamento de recursos hídricos da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade de Campinas (Unicamp). “No início da crise, todos acreditaram que o volume de chuvas aumentaria e deixaram de pensar em alternativas para restringir o uso.”

No pacote de medidas emergenciais, o diretor da Sabesp, Paulo Massato, afirmou que, se a situação piorar, um rodízio de cinco dias por semana sem água poderá ser adotado na maior cidade do País. O anúncio contrariou as declarações do governador do Estado, Geraldo Alckmin, de que não faltaria água em São Paulo. “O racionamento deveria ter sido feito gradualmente para atingir uma maior economia”, diz Zuffo. A falta de visão estratégica do governo estadual também se deu na elaboração das medidas paliativas, como o bônus criado para quem economizasse 20% ou mais de água em relação à média de consumo do ano anterior. “Um em cada quatro consumidores reduziu, mas um em cada quatro aumentou o consumo”, afirma Marussia Whately, coordenadora do projeto Água São Paulo, do Instituto Socioambiental. “Na verdade, a sobretaxa deveria ter sido adotada desde o início da campanha.” Somente em janeiro deste ano, a Sabesp foi autorizada pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo a aplicar multa por excesso de consumo.

Diante do agravamento da escassez, o governador paulista afirmou também que pretende usar a água da represa Billings para reduzir os impactos da seca. O problema, porém, é que ela está contaminada com grandes quantidades de lixo. Além disso, não há uma estação de tratamento com capacidade para tratar uma quantidade de água equivalente à vinda do Cantareira. “A água da Billings teria de ser mandada para a estação de tratamento do Alto do Tietê e seria fornecida no Estado não potável.” O recurso bruto poderia ser usado para lavar roupa, carros e calçadas. Para o consumo e para a higiene, a população teria de recorrer aos caminhões-pipa. “Em grandes metrópoles, seria uma dinâmica impraticável em função do trânsito e da frota insuficiente”, diz Zuffo.

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Mulher recolhe água da rua em pleno centro de São Paulo:
parte dos paulistanos já enfrenta dificuldades

No Brasil, as perdas durante a distribuição agravam ainda mais o quadro de escassez e prejudicam 46 milhões de pessoas. Enquanto a média mundial de desperdício é de 15%, o País registrou em 2013 um índice de 37% em decorrência de registros defeituosos, vazamentos em hidrantes e ligações irregulares. No Rio de Janeiro, os reservatórios de Santa Branca e do Paraibuna que abastecem a bacia do rio Paraíba do Sul já atingiram o volume morto, quando a quantidade de água está abaixo da linha de captação do sistema. A previsão é de que os outros dois reservatórios no sistema do Rio, Jaguari e Funil, também diminuam nos próximos dias. Por enquanto, o governador Luiz Fernando Pezão minimizou a crise e descartou o racionamento. A realidade é a mesma em Minas Gerais, onde o governador Fernando Pimentel estuda medidas para adiar o rodízio. No Espírito Santo, a situação já afeta a indústria e a agricultura.

Além do índice de chuvas abaixo da média, outros problemas influenciam a gestão dos recursos hídricos no País. Um relatório da Comissão Pastoral da Terra mostrou que, em 2013, o Brasil bateu recordes de conflitos por água. Foram 104 confrontos em decorrência de estiagens, da implantação de hidrelétricas, ação de mineradoras e de corrupção. “Não há preservação dos mananciais nem investimentos em mecanismos de preservação, o que resulta em um modelo de gestão falido”, diz Rubens Siqueira, coordenador do projeto de transposição de águas da Bacia do São Francisco. Uma das alternativas no longo prazo é a melhora no tratamento de água. “A falta de proteção nas áreas de captação gera a poluição e, com isso, as etapas do tratamento ficam mais caras”, afirma Jussara Cabral Cruz, presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos.

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Foto: Edilson Dantas/Folhapress