Cultura

O senhor da Bahia

Com a morte de Jorge Amado, aos 88 anos, a literatura brasileira perde seu maior embaixador

Jorge Amado costumava brincar dizendo que, na qualidade de materialista, dialético, histórico, não podia alimentar nenhuma simpatia pela morte. Para ele, as pessoas deveriam viver de forma ardente até o fim. Nos últimos tempos, porém, o escritor baiano vinha manifestando, cada vez mais, sintomas de desânimo. Seu humor descompensado não se devia apenas à ausência dos amigos, mas à perda progressiva da visão, uma degenerescência da retina provocada pela diabete em estado avançado. Zélia Gattai, sua mulher e também escritora, providenciou-lhe lupas, mas elas de nada adiantaram. Num momento de depressão aguda, Amado as destruiu. Em janeiro passado, recebeu com alegria a notícia da reedição de A bola e o goleiro, livro infantil escrito em 1984, que agora ganhou ilustrações das bordadeiras da família Dumont, de Brasília, de quem era fã. Não foi o suficiente para lhe tirar completamente do estado de apatia, interrompido apenas pelos exercícios diários de fisioterapia. Justamente durante uma destas sessões ele passou mal, às 17h da segunda-feira 6. Levado para o Hospital Aliança, o escritor deu entrada no pronto-socorro com um quadro de insuficiência circulatória aguda. De acordo com o boletim médico divulgado pelo hospital ele “não respondeu às manobras de reanima-ção”, evoluindo para uma parada cardiorrespiratória com consequente morte, às 19h30 do mesmo dia.

Há tempos, Jorge Amado vinha brigando para manter a saúde em dia, principalmente por causa do cigarro e da obesidade. Sofreu o primeiro infarto em 1993. Três anos depois foi vítima de um edema agudo no pulmão. Fez uma angioplastia – desobstrução das artérias do coração – e em 1997 colocou um marca-passo. Em 1998, ao saber da morte do deputado Luiz Eduardo Magalhães, filho do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, por quem nutria uma antiga amizade, novamente passou mal e foi hospitalizado. Nos dois anos seguintes, aconteceram mais duas internações advindas de crises glicêmicas decorrentes da diabete. Costumava dizer que, apesar de ter sido preso 11 vezes e passado sete anos exilado, nenhuma emoção supera a do infarto. Como bom ateu, queria ser cremado. Na sexta-feira 10, dia em que completaria 89 anos, suas cinzas foram espalhadas no jardim da casa do Rio Vermelho, em Salvador. Era seu sonho permanecer no local onde foi feliz com sua Zélia.

A famosa residência foi comprada no início dos anos 60 com o dinheiro ganho na venda dos direitos para Hollywood de Gabriela, cravo e canela. “Dinheiro do imperialismo americano”, dizia ele. É uma casa de estilo, com fachada de azulejos azuis e brancos, assinados pelo amigo Carybé, e portas entalhadas por Calasans Neto. Com o passar do tempo, o local virou atração turística. Entre tantas histórias, conta-se que dois japoneses foram surpreendidos posando para uma fotografia sentados bem em cima da cama do casal. Diante do assédio, Amado e Zélia resolveram manter um apartamento em Paris – onde já haviam vivido anos de exílio por questões políticas –, no bairro de Marais. Lá, ele escreveu alguns de seus livros e passou a dizer que sua estação do ano preferida era o outono em Paris. “Mas, mesmo quando viajo, o Brasil vai comigo, a Bahia vai comigo”, costumava falar.

Pois a Bahia sempre esteve à sua volta. Há quem diga até que foi ele quem a inventou e deu-lhe fama internacional em textos falando de pescadores, candomblé e baianas vendedoras de acarajés, sempre com uma roupagem de sensualidade. Também enobrecia seu Estado em conversas com amigos. Jorge Amado cultivou muitas amizades. No Brasil e no Exterior, onde desfrutou da companhia de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. O médico e escultor Mirabeau Sampaio certa vez contou que Amado era “totalmente unilateral em relação aos amigos”, numerosos e ilustres. O senador José Sarney foi na juventude um leitor compulsivo da obra de Amado. “Depois ele se tornou um amigo e finalmente um santo devoto, de altar em minha casa”, disse Sarney a ISTOÉ. Dorival Caymmi, outro amigo afetuoso, também demonstrou sua emoção diante da perda. “Jorge falava dos costumes populares de um jeito muito bonito. Comunicou-se com todo o País e o mundo.”

Amor dos leitores – O compositor faz coro com a Bahia. Eleito um dos 12 obás – ancião, sábio – de seu Estado, Jorge Amado tinha trânsito livre em todas as classes sociais. Em 1961, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, afirmou que seu único compromisso na escrita era com o povo, com o Brasil, com o futuro. Sua dedicação deu vida a personagens saborosos, que ganharam o amor dos leitores. Esta universalidade deve-se ao fato de ele ter abordado os grandes temas pelos flancos, através das minúcias, tornando-se uma espécie de retratista do cotidiano, que aprendeu a observar ainda criança. Dizia ser um bom escritor, não porque era velho, mas porque havia começado cedo. Filho de Eulália Leal Araújo e João Amado, nasceu na Auricídia, fazenda de cacau de seu pai, localizada em Ferrada, município de Itabuna, sul da Bahia, no dia 10 de agosto de 1912. Desde o primário, já em Ilhéus, convivia simultaneamente com o langor pequeno-burguês de seu mundo e o reboliço que vinha do prostíbulo local.

Precoce, aos 19 anos lançou seu primeiro livro, O país do Carnaval, de 1931. Casou-se aos 21 com Matilde Garcia Rosa, de quem viria a separar-se em 1944 e com quem teve uma filha, Eulália, morta aos 15 anos. “Fui comunista muito cedo”, repetia ele, que, em 1955, cumpriu sua última tarefa, iniciando a luta “para pensar por minha própria cabeça”. Mas continuou socialista até o fim, chegando a passar mal ao visitar Moscou, em 1989, logo após a queda do regime comunista. Sua pálpebra esquerda caiu. Pensou que tinha um tumor no cérebro. Era apenas emoção diante do inevitável. Para o historiador e jornalista Jacob Gorender – autor de Combate nas trevas –, como homem político Amado teve uma passagem de certo relevo. “Nos anos 30 foi comunista, pertenceu à bancada que elaborou a Constituição de 1946. Lamento que tenha se tornado conivente com ACM, um político que se fez na ditadura militar nos últimos 30 anos. Mas toda pessoa tem o direito de mudar”, disse Gorender a ISTOÉ.

Foi na militância, contudo, que Amado conheceu seu grande amor. Durante um dos comícios pela libertação do líder comunista Luiz Carlos Prestes, na Praça da República, em São Paulo, ele conheceu a paulista Zélia Gattai, na época casada e com um filho. Jorge Amado a encheu de galanteios. “No primeiro encontro a achei bonita. No primeiro beijo, gostosa”, contava. Acabaram se unindo não oficialmente, pois ainda não existia o divórcio. Tiveram João Jorge, hoje com 54 anos, e Paloma, 50. O casamento de verdade viria a acontecer somente em 1978. Antes do encontro já tinha escrito seus principais romances, entre eles o polêmico Capitães da areia, de 1937, sobre um grupo de adolescentes marginais, seu livro de maior sucesso editorial, com 4,3 milhões de exemplares vendidos.

Quando vendeu os direitos de filmagem de Gabriela, cravo e canela, Dorival Caymmi havia lançado o LP Acalantos para Gabriela. O livro também dera origem a uma história em quadrinhos e a um espetáculo de dança. Em 1961, chegou pela primeira vez à televisão, na extinta TV Tupi, com a vedete Janete Vollu no papel-título e Paulo Autran fazendo Tônico Bastos. Apesar de Gabriela ter sido retratada em duas ocasiões pelo pintor Di Cavalcanti, uma delas na primeira edição do livro, como uma mulata descomunal, de olhos rasgados e lábios carnudos, Sonia Braga, que é morena e mignon, veio a ser a melhor tradução da personagem tanto na ótima novela global Gabriela, de 1975, quanto na fraca versão cinematográfica de Bruno Barreto, de 1983. O próprio Jorge Amado deu sua bênção a Sonia. “Quando penso em Gabriela, lembro do rosto de Soninha.” Certa vez, numa festa, chegou a apresentar a atriz como sua amante, só para escandalizar os presentes.

Numa prova de que era mesmo a favorita, Sonia Braga ainda emprestaria seu corpo miúdo, porém carnudo, para outras duas heroínas dos romances Dona Flor e seus dois maridos e Tieta do Agreste. A primeira ganhou vida no filme de Bruno Barreto, Dona Flor e seus dois maridos, de 1976, considerada a fita brasileira de maior sucesso, vista por 10,735 milhões de espectadores. A segunda, no filme Tieta, assinado por Cacá Diegues em 1996. Na televisão, quem viveu a divertida prostituta foi Betty Faria, na novela da Rede Globo Tieta do Agreste, de 1989. Sem dúvida, são dois livros de sucesso, como a maioria dos lançados pelo escritor, que alcançou a média de 20 milhões de exemplares vendidos só no Brasil. Em dados não oficiais, pesquisadores computam o astronômico número de 200 milhões de exemplares vendidos – incluindo as edições piratas – lançados em 52 países. Durante a carreira, no entanto, Jorge Amado não recebeu a mesma unanimidade da crítica. A maioria de seus algozes dizia que ele tinha abandonado os enredos sociais para entrar numa fase definitivamente comercial. “A crítica brasileira é amadora”, justificava.

Paulo Coelho, único concorrente à categoria de autor brasileiro mais vendido, diz que foi Jorge Amado quem abriu caminho para os escritores nacionais em todo o mundo. Quando foi ouvido por ISTOÉ na quarta-feira 8, já havia dado 19 entrevistas e escrito um artigo sobre o baiano para ser publicado em 42 países. “O que só reforça a grande repercussão da morte de Jorge Amado, o quanto era amado e respeitado internacionalmente”, disse Coelho, que não quis comentar sobre os rumores de ele ser um possível sucessor de Amado na cadeira da Academia Brasileira de Letras. Tamanha repercussão vem multiplicada pelo sucesso de histórias bem contadas. Tereza Batista cansada de guerra, de 1972, por exemplo – uma de suas personagens favoritas, ao lado do Pedro Arcanjo, de Tenda dos milagres, de 1969 –, surgiu-lhe num sonho. A aparição foi pragmática: “Eu me chamo sinhá Tereza perfumada de alecrim. Ponha açúcar na boca, se quiser falar de mim.”

Dona Flor, por sua vez, é fruto de uma tirada do escritor-retratista. Ao passar por uma cantina chamada Sabor & Arte, avistou um bêbado todo de branco, que lembrava um antigo amigo seu, chamado Vadinho. Veio-lhe à cabeça uma mulher conhecida, que vivia com dois maridos. Logo a imaginou como a dona de uma pensão e o Vadinho sussurrando-lhe ao ouvido: “Quero saborear-te…”. Pronto! Lá estava a história que encantou brasileiros e estrangeiros no cinema e nos livros. Num oposto, Tereza Batista se tornaria o símbolo das feministas italianas, rendendo a seu criador o Prêmio Lila, em 1976. As homenagens se acumularam. Jorge Amado recebeu a comenda da Legião de Honra em Paris, em 1984; o Prêmio Internacional Gueórgui Dimitrov, na Bulgária, em 1988; e o Prêmio Camões, em Lisboa, em 1995. Nome de teatro em Salvador, sua obra é conservada pela Casa de Cultura Jorge Amado – um projeto da Universidade Federal da Bahia –, acomodada em dois casarões coloniais no Largo do Pelourinho, a poucos metros de onde morou na juventude.

Com sua morte, a imprensa internacional não poupou elogios. O jornal americano The New York Times o chamou de “o Pelé das letras”, numa dupla homenagem ao Brasil. O Libération francês estampou: “Salvador da Bahia perde seu imperador.” No Brasil, Caetano Veloso foi enfático: “Ele concluiu uma vida luminosa, toda boa. Foi feliz. É um homem invejável.” Jorge Amado explicou o segredo do tempero muito bem dosado de seus textos. “O trabalho de um romancista é artesanato, é máquina de escrever, caneta e papel. O resto é cabeça, coração, tripas e colhões.” Modesto, considerava-se um poeta frustrado. Costumava dizer que trocaria todos os seus romances por um bom poema. No seu amor à natureza, quis que suas cinzas fossem espalhadas ao redor da mangueira que ele e Zélia plantaram em seu jardim há 40 anos. Imaginava que a árvore floresceria e frutificaria com ele próprio.

Colaborou Celso Fonseca