Comportamento

Leopoldina, a feminista

A imperatriz deixa de ser vista como a esposa deprimida pelas traições do marido para figurar no centro do tabuleiro da monarquia brasileira

Leopoldina, a feminista

INDEPENDÊNCIA

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INDEPENDÊNCIA
O quadro de Georgina de Albuquerque retrata Leopoldina
assinando o decreto que separa o Brasil de Portugal

A independência do Brasil se deu no dia 7 de setembro de 1822, com o histórico grito de dom Pedro I. Certo? Errado! Cinco dias antes da data hoje celebrada como a da Independência, um decreto separou o País de Portugal. O documento foi assinado pela então regente, dona Leopoldina, mulher de dom Pedro. Sim, o Brasil foi governado por uma mulher durante o Império. Figura subestimada até recentemente por diversos pesquisadores e professores, a primeira imperatriz brasileira volta a ser estudada e deixa de ser vista como aquela que entrou em depressão após incontáveis traições para figurar no centro do tabuleiro estratégico da política monárquica. Autora dos discursos de dom Pedro e consultora pessoal do príncipe regente em assuntos políticos, a princesa austríaca ressurge como um símbolo feminista da história política brasileira.

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HISTÓRIA
O historiador Fernando Garcia: "Ela não tinha dúvidas de
que os brasileiros desejavam a Independência"

O acordo acertado após o retorno de dom João VI para Portugal, em 1821, afirmava que, na ausência do príncipe, sua mulher se tornaria chefe do Conselho da Coroa. Respeitando esta ordem, dona Leopoldina governou o Brasil por cerca de um mês. O fato, desconhecido da maioria dos brasileiros, ocorreu quando seu marido foi a São Paulo. O quadro de Georgina de Albuquerque (acima) retrata a reunião do conselho de 2 de setembro de 1822, presidida pela então regente, que na imagem assina o decreto separando o Brasil de Portugal. Na conferência, convocada pela própria, os ministros apresentaram relatórios de levantes e perguntam o que fazer, ao que ela respondeu: “Existe apenas uma possibilidade: a proclamação imediata da Independência do Brasil”. O documento foi enviado a São Paulo, para que o futuro imperador chancelasse a decisão. O historiador Fernando Garcia defende a postura afirmativa da monarca. “Ela não tinha dúvidas de que os brasileiros desejavam a Independência. Já dom Pedro estava cheio de dúvidas.”

Carolina Josefa Leopoldina era a sexta filha do segundo casamento de Francisco II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e o grande nome por trás do Congresso de Viena, reunião diplomática na qual se redesenhou, em 1815, a geografia da Europa após a queda de Napoleão Bonaparte. Fez parte de uma linhagem de mulheres de personalidade forte e, em sua infância, teve aulas de estratégia e filosofia, rotina de muitos príncipes, o que a tornou a principal conselheira de dom Pedro I. De acordo com a diretora do Museu Histórico Nacional, Vera Tostes, Leopoldina trazia uma educação que ressaltava a responsabilidade de seu papel político. “Sem dúvida pode ser considerada um símbolo feminista na história brasileira.” 

Fotos: Marcos Nagelstein